Os fortes terremotos que atingiram a Venezuela e deixaram milhares de mortos e feridos no fim de junho completam duas semanas nesta quarta-feira (7/7), enquanto o país segue enfrentando dias difíceis na busca por desaparecidos em meio aos escombros — e chances quase nulas de localizar sobreviventes.
Ainda não houve uma estimativa oficial do governo sobre o número de pessoas que seguem com paradeiros desconhecidos. O site Desaparecidos Terremoto Venezuela, criado pela sociedade civil, registra ainda mais de 30 mil pessoas desaparecidas.
O balanço oficial mais recente do governo venezuelano aponta que ao menos 3.685 mortos pessoas morreram, enquanto 17.907 pessoas foram afetadas diretamente pelos abalos. Além disso, 86.794 famílias receberam assistência, enquanto 856 edifícios sofreram danos — dos quais 190 desabaram completamente.
Foram os tremores mais fortes a atingirem o país desde 1900.
Terremotos na Venezuela
- Dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a Venezuela na noite do dia 24 de junho;
- Os tremores foram os mais fortes registrados no país desde 1900.
- Estimativas do governo local indicam que 855 edifícios foram afetados pelos abalos, sendo que 190 deles colapsaram totalmente.
- O estado de La Guaira, assim como pontos da capital Caracas, foram as áreas mais afetadas.
- Depois dos primeiros abalos, mais de 1.000 réplicas, de menor intensidade, foram registradas ao longo dos dias seguintes.
Em La Guaira, estado mais afetado pelos tremores, a esperança de encontrar familiares ou amigos vivos tem esvaído com o passar do tempo. Ao Metrópoles, o jornalista venezuelano Marco David Valverde comentou sobre o dia-a-dia na região.
Valverde comenta que, no final de semana do terremoto (entre 27 e 28 de junho), ainda havia na população a esperança de encontrar sobreviventes sob os escombros. Ele, contudo, relata que durante a última semana o sentimento deu lugar à raiva pela inação do governo.
“Entre o domingo e terça, e todos os dias depois em que estive [em La Guaira], eu tenho uma percepção: No domingo ainda havia muita gente esperançada. Obviamente, estavam pensando que poderiam encontrar com vida seus familiares. Já durante a semana, em relação ao domingo, já começou a haver resignação. E com a resignação, muita raiva. Muita raiva pela inação do Estado”, afirmou Valverde.
Em meio à dificuldade, os venezuelanos tentam viver o cotidiano de uma vida “normal”, diz Valverde.
“Tratam de fazer uma jornada e levar uma vida normal dentro dessa complexidade anormal. Cozinhar, organizar-se para limpar. Aos filhos oferecem entretenimento, filmes, jogos, campo, etc. Também transmitem os jogos da Copa do Mundo em alguns albergues. Então, com isso, é como sobreviver em meio à dor”, comentou o Venezuelano.
Para Valverde, com o tempo, autoridades venezuelanas começaram a demonstrar “favoritismo” nas operações de resgate. Como, por exemplo, a priorização de resgatar desaparecidos ligados a militares ou a autoridades do governo.
Valverde também critica a inação dos governos da Venezuela ao longo do século XXI que, segundo ele, não preparou o país para possíveis desastres naturais como os tremores de junho.
“Como se nesses 27 anos de chavismo [período dos ex-presidentes Hugo Chaves e Nicolás Maduro à frente da Venezuela] não tivessem tido a oportunidade, e sobretudo dinheiro, os fundos petroleiros, para poder fazer algo melhor, e ter a infraestrutura necessária, o pessoal humano e os equipamentos para enfrentar uma contingência como essa”, comentou.
Segundo o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, 6.462 pessoas foram resgatadas, e 86 mil famílias atendidas até o momento. Mais de 4.300 resgatistas internacionais estão trabalhando no país ao lado de outros 27 mil voluntários.
Chances quase nulas
Em meio ao cenário catastrófico, e o passar dos dias, equipes de resgate já trabalham não com a perspectiva de encontrar sobreviventes, mas sim de localizar corpos.
Ao Metrópoles, o tenente-coronel Rafael Cosendey, que liderada a equipe enviada a Venezuela pelo Corpo de Bombeiro Militar de Minas Gerais (CBMMG), afirma que diversos fatores tem dificultado os trabalhos de busca.
Entre eles o peso de escombros que estão sobre os corpos, a profundidade das áreas de busca, e o forte calor na Venezuela, que nos últimos dias registra temperaturas entre 30 a 35º Celsius. Até o momento, a equipe mineira, composta por 31 profissionais, já localizou 19 mortos.
“As chances de sobreviventes é quase nula, quase zero”, explicou o militar em conversa com a reportagem. “Os trabalhos estão focados agora na localização e retirada de corpos, que também é difícil”.
Cosendey explica as buscas têm sido feitas seguindo padrões de segurança que visam a proteção também das equipes envolvidas nos resgates, devido ao risco de novos tremores.
Apesar do cenário devastador, o militar brasileiro revela que equipes internacionais recebem um “importante apoio” da população da Venezuela.
“Existe um envolvimento muito intenso de civis e ex-moradores das áreas afetadas. Eles se envolvem diretamente nas buscas, com coordenações realizadas por profissionais, para evitar possíveis novas vítimas. Muitos deles perderam famílias inteiras, amigos, e desejam encontra-los”, revela Cosendey. “Esse é um sentimento de humanidade que dificilmente vemos em outros cenários.















