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Voluntário resgata burro maltratado na Catalunha, na Espanha, e o transforma em “bombeiro” florestal, criando rebanho de 62 animais que devora vegetação seca e abre aceiros para conter incêndios no Mediterrâneo
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 23/07/2026 às 19:33
Curiosidades
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Projeto sem fins lucrativos na região de Tivissa, no sul da Catalunha, recupera animais abandonados e os transforma em aliados estratégicos contra o fogo que já destruiu centenas de milhares de hectares na Espanha em 2025
Enquanto satélites, drones e inteligência artificial dominam as estratégias modernas de combate a incêndios florestais, uma solução muito mais antiga voltou a ganhar espaço nas montanhas do Mediterrâneo. A cerca de 130 quilômetros ao sul de Barcelona, um rebanho de burros percorre silenciosamente trilhas rurais, comendo tudo o que encontra pela frente. E é justamente esse apetite incansável que os transformou em peças-chave na prevenção de novas tragédias ambientais.
Neste ano, os incêndios florestais chegaram mais cedo do que o habitual ao sul da Europa, castigando a Espanha com uma intensidade preocupante. Mais de 240.000 acres de terra já foram consumidos pelas chamas no país, incluindo um foco recente na região sul que rapidamente se tornou um dos mais letais da história espanhola recente. Diante desse cenário, iniciativas alternativas de prevenção passaram a ganhar ainda mais relevância — e é aí que entra a Tivissa Donkey Firefighters.
Uma segunda chance que virou estratégia de combate ao fogo
A organização, sediada no sul da Catalunha, nasceu com um propósito duplo: resgatar burros maltratados ou abandonados e, ao mesmo tempo, transformá-los em ferramentas naturais de prevenção de incêndios. Ao pastar a vegetação mais inflamável das montanhas e áreas rurais, os animais criam bloqueios naturais que dificultam o avanço das chamas pela paisagem seca típica do clima mediterrâneo.
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Segundo informações divulgadas pela CNN, o fundador do projeto, Joan Cedó Sans, acolheu os primeiros burros em 2020. Hoje, ele já conta com um rebanho de 62 animais, que se deslocam continuamente pela região para limpar terrenos públicos e privados. “Somos gratos pelos animais que sentimos que merecem uma segunda chance”, disse Cedó, em entrevista concedida em catalão.
A ideia, no entanto, nasceu ainda antes, em 2013, quando incêndios se espalharam perto das terras de Cedó na Catalunha, no nordeste da Espanha. Foi então que ele decidiu testar se os primeiros burros conseguiriam limpar a vegetação rasteira ao redor da floresta. O resultado surpreendeu até o próprio fundador: “Eles comeram tudo”, relembrou.
O que começou como um experimento pontual logo se transformou em uma operação em tempo integral. Cedó, hoje também prefeito da pequena cidade de Tivissa, passou a gestão diária do projeto para Jordi García, voluntário que se juntou à iniciativa em 2021. “É muito gratificante”, afirmou García, em espanhol. “Você está em contato com a natureza e deu uma chance a esses animais.”
Entre os primeiros integrantes do rebanho está Roberto, um antigo burro de corrida que seria enviado ao matadouro depois de parar de vencer por causa de seu porte robusto. “Ele é especial, e acho que ele sabe disso”, disse o criador da Donkey Firefighters. Já Paloma, outra integrante do grupo, chegou com quadro de obesidade após ser alimentada por anos com “biscoitos de supermercado e torrões de açúcar” — uma dieta que, segundo Cedó, configura uma forma de maus-tratos.
Para o fundador, o projeto representa uma relação de benefício mútuo: os burros ajudam a prevenir incêndios, enquanto recebem em troca uma vida digna, um rebanho ao qual pertencer, assistência veterinária voluntária e alimentação complementar doada por fazendas locais e por um parque temático da região.
Nesse sentido, o trabalho desses animais nunca foi tão urgente. Em 2025, a União Europeia registrou a temporada de incêndios florestais mais destrutiva de sua história, com a Espanha perdendo quase um milhão de acres de vegetação para as chamas.
Por que justamente os burros fazem a diferença
Diferentemente de outros herbívoros, os burros preferem gramíneas que secam durante o verão — o chamado “combustível fino”, biomassa vegetal que se inflama com facilidade e acelera a propagação do fogo. A explicação é do Dr. Jordi Bartolomé Filella, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador em ecologia de herbívoros.
Segundo ele, o ideal é combinar diferentes espécies de animais de pasto para obter um “efeito bastante completo”, já que cada uma atua sobre camadas distintas da vegetação rasteira. As cabras, por exemplo, eliminam rapidamente plantas lenhosas e já deram origem, nos Estados Unidos, a empresas de “goatscaping” — negócios que alugam rebanhos para limpar encostas de difícil acesso na Califórnia.
Ainda assim, Cedó enxerga uma vantagem exclusiva em seus burros: “O trabalho que os burros fazem, nem cabras nem ovelhas conseguem fazer”, explicou. “Eles pesam mais; portanto, a cada passo, pisam com mais força e comem mais.” Esse pisoteio constante rompe a camada contínua de folhagem seca — justamente o material que o fogo precisa para se espalhar rapidamente.
Pesquisas indicam que o pastoreio de animais pode ser uma defesa eficaz e mais barata do que a abertura de faixas de contenção com maquinário pesado. Contudo, como ocorre com qualquer estratégia de prevenção, não se trata de uma solução mágica. “É difícil garantir que, com o pastoreio de animais, não haverá incêndios”, ponderou Bartolomé, “mas isso pode reduzir a intensidade deles e, consequentemente, torná-los mais fáceis de extinguir.”
Além disso, os burros de Tivissa também contribuem para manter abertos os aceiros — faixas de terra sem vegetação que ajudam a conter o avanço do fogo nas montanhas. “É uma situação em que todos ganham”, resumiu Cedó. “Eles abrem os aceiros, nós colocamos os animais lá e mantemos a área limpa.” As trilhas criadas pelos burros, segundo ele, também podem ser usadas para passar mangueiras em caso de incêndio.
Uma prática ancestral ganha nova urgência
O fogo sempre esteve presente na história do Mediterrâneo, assim como o pastoreio de animais selvagens e domésticos, que por séculos ajudou a controlar naturalmente o acúmulo de vegetação em regiões secas. “Sem grandes herbívoros, mais cedo ou mais tarde essa biomassa seria ‘consumida’ pelo fogo. Ao contrário dos herbívoros, o fogo a consome de forma repentina, com consequências abrangentes para o ecossistema e riscos para as pessoas”, explicou Bartolomé.
Os números reforçam a urgência do tema: em 2025, os incêndios florestais na Europa liberaram um volume recorde de 13 milhões de toneladas de carbono, contribuindo diretamente para o aquecimento global. Os danos, porém, vão muito além das chamas — uma floresta queimada perde sua capacidade de absorver CO₂, enquanto a fumaça pode persistir por semanas, ameaçando a saúde humana mesmo a milhares de quilômetros de distância.
De acordo com a reportagem, Cedó buscou inspiração e orientação na El Burrito Feliz, organização pioneira no sul da Espanha, onde burros resgatados pastam desde 2014 nas áreas periféricas do Parque Nacional de Doñana. Projetos semelhantes vêm surgindo em diferentes regiões do país: na Galícia, no noroeste espanhol, iniciativas de renaturalização estão trazendo de volta cavalos selvagens para atuar como “cortadores de grama naturais” em uma das áreas mais propensas a incêndios da Espanha.
Já na Catalunha, a iniciativa “Ramats de Foc” (Rebanhos de Fogo) une pastores de ovelhas e cabras a bombeiros locais para realizar o pastoreio estratégico em zonas de alto risco. A carne e o queijo produzidos por esses rebanhos são vendidos com um selo de prevenção de incêndios florestais, permitindo que os próprios consumidores ajudem a financiar esse tipo de trabalho.
Por outro lado, ainda que as autoridades reconheçam o valor desses projetos na prevenção de incêndios, Bartolomé afirma que falta clareza sobre como incentivá-los de forma estruturada. Para ele, as iniciativas de pastoreio só ganharão escala real quando os governos passarem a remunerá-las como um serviço ecossistêmico — da mesma forma como já se paga pela limpeza mecânica de terrenos.
Segundo Cedó, os pastores recebem atualmente até 80 euros por hectare limpo (cerca de R$ 464) em terras privadas, e até 300 euros por hectare (aproximadamente R$ 1.750) em terras públicas — valores que, segundo ele, ainda são insuficientes para sustentar o trabalho de forma independente. Por isso, o projeto Tivissa Donkey Firefighters segue dependendo de doações e parcerias para manter o rebanho.
“Este projeto nasceu do nada, por acaso”, refletiu Cedó. “Mas tem sido uma lição profunda, tanto social quanto pessoalmente.” Para ele, a iniciativa resgata muito mais do que animais abandonados: resgata também um modo de vida. “Não estamos fazendo nada que nossos antepassados não fizessem”, concluiu. “Tudo o que estamos fazendo é valorizar novamente essas tarefas rurais, esse modo de vida que dependia tanto dos animais.”
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

