Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

1.036 blocos de até 30 toneladas saíram de dois templos escavados na rocha, percorreram 200 metros para o interior durante quatro anos e terminaram elevados 65 metros e remontados dentro de uma montanha artificial antes que uma barragem engolisse o local no Egito

1.036 blocos de até 30 toneladas saíram de dois templos escavados na rocha, percorreram 200 metros para o interior durante quatro anos e terminaram elevados 65 metros e remontados dentro de uma montanha artificial antes que uma barragem engolisse o local no Egito

6 min de leitura

1.036 blocos de até 30 toneladas saíram de dois templos escavados na rocha, percorreram 200 metros para o interior durante quatro anos e terminaram elevados 65 metros e remontados dentro de uma montanha artificial antes que uma barragem engolisse o local no Egito

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 06/08/2026 às 20:30

Construção

Assista o vídeo
1.036 blocos de até 30 toneladas saíram de dois templos escavados na rocha

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Os templos de Abu Simbel foram cortados em 1.036 blocos de até 30 toneladas, deslocados para uma área 65 metros mais alta e remontados dentro de uma montanha artificial para escapar das águas formadas pela Barragem de Assuã.

Durante aproximadamente três mil anos, os templos de Abu Simbel permaneceram escavados em uma montanha de arenito no sul do Egito. A construção da Grande Barragem de Assuã, porém, provocaria a formação de um reservatório gigantesco e colocaria as estruturas diretamente no caminho das águas.

A solução exigiu uma das operações arqueológicas e de engenharia mais complexas do século XX. Os dois templos foram cortados em 1.036 blocos, desmontados, identificados, transportados e reconstruídos em um ponto mais alto, onde passaram a ficar protegidos dentro de estruturas de concreto cobertas por uma montanha artificial.

Barragem de Assuã colocou os templos de Abu Simbel sob risco

A decisão de construir a Grande Barragem de Assuã foi tomada em 1954. A estrutura permitiria controlar as cheias do Nilo, aumentar a produção de energia e ampliar a disponibilidade de água, mas também criaria um enorme lago artificial sobre parte da antiga região da Núbia.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O avanço do reservatório ameaçava centenas de sítios arqueológicos situados entre o sul do Egito e o norte do Sudão. Segundo a Unesco, alguns monumentos poderiam terminar sob aproximadamente 50 metros de água caso não fossem removidos antes do enchimento definitivo.

Entre as estruturas ameaçadas estavam os dois templos de Abu Simbel, localizados perto da atual fronteira com o Sudão. Como haviam sido escavados diretamente na montanha, não seria possível simplesmente colocá-los sobre veículos e transportá-los inteiros para outro terreno.

Templos de Ramsés II estavam escavados em uma montanha

O complexo de Abu Simbel foi construído durante o reinado do faraó Ramsés II, no século XIII antes de Cristo. O templo principal representava o poder político, militar e religioso do governante sobre o Egito e a Núbia.

Créditos: UNESCO World Heritage Centre

A fachada do Grande Templo possui quatro estátuas colossais de Ramsés II sentado, cada uma com aproximadamente 20 metros de altura. Atrás da entrada existe uma sequência de corredores, salões, pilares, relevos e câmaras que avança por dezenas de metros no interior da rocha.

Ao lado está o templo menor, dedicado à deusa Hátor e à rainha Nefertari, esposa de Ramsés II. Sua fachada apresenta seis estátuas com cerca de 10 metros de altura, representando o faraó e a rainha em proporções incomuns para a arquitetura egípcia daquele período.

Unesco organizou uma campanha internacional para salvar a Núbia

Em 1959, os governos do Egito e do Sudão solicitaram ajuda internacional para proteger os monumentos ameaçados. No ano seguinte, a Unesco lançou oficialmente a Campanha Internacional para Salvar os Monumentos da Núbia e começou a mobilizar especialistas, recursos financeiros e equipamentos.

A operação completa ocorreu entre 1960 e 1980 e contou com 40 missões técnicas provenientes de cinco continentes. Ao todo, 22 monumentos e conjuntos arquitetônicos foram transferidos para terrenos mais altos ou reconstruídos em outros locais.

Assista o vídeo

Cerca de 50 países contribuíram para o projeto, que teve custo total informado pela Unesco de aproximadamente US$ 80 milhões na época. Metade do valor veio de doações internacionais, enquanto equipes de diferentes nacionalidades trabalharam no levantamento, corte, transporte e reconstrução das estruturas.

Templos egípcios foram cortados em 1.036 blocos de pedra

Os trabalhos preparatórios começaram antes da chegada definitiva das águas. Em novembro de 1963, operários passaram a utilizar serras de fio para separar cuidadosamente as fachadas, estátuas, paredes e câmaras escavadas na montanha.

Uma publicação histórica da Unesco registra que os templos foram divididos em 1.036 blocos de pedra. As peças pesavam entre sete e 30 toneladas, exigindo máquinas de elevação, guindastes, estruturas metálicas e sistemas de transporte capazes de movimentar cada segmento sem destruir os relevos.

Os cortes precisavam atravessar pontos cuidadosamente selecionados para reduzir danos às figuras, inscrições e pinturas. Cada bloco recebeu uma identificação que permitia registrar sua posição original e determinar exatamente onde deveria ser instalado durante a reconstrução.

Blocos de até 30 toneladas foram elevados para um novo terreno

Depois de separados, os blocos foram retirados da antiga encosta, levados para áreas de armazenamento e preparados para a remontagem. A nova posição ficava aproximadamente 200 metros para o interior e 65 metros acima do nível ocupado pelos templos originais.

1.036 blocos de até 30 toneladas saíram de dois templos escavados na rocha

A mudança de altura era indispensável porque o Lago Nasser avançaria sobre a antiga margem do Nilo. Sem a transferência, o complexo ficaria submerso pelo reservatório formado atrás da barragem, deixando as fachadas, os corredores e as câmaras inacessíveis.

O deslocamento não ocorreu como uma viagem única. Cada peça realizou separadamente o percurso entre o templo desmontado, a área de armazenamento e o novo ponto de montagem, onde os blocos voltaram a formar paredes, colossos, pilares e relevos.

Montanha artificial foi construída ao redor dos templos remontados

No terreno escolhido, engenheiros reconstruíram os dois templos seguindo a distribuição interna das estruturas originais. Os blocos foram posicionados de modo que as fachadas, os salões e os santuários recuperassem a aparência existente antes do corte da montanha.

Assista o vídeo

Como os edifícios já não estavam presos a uma formação rochosa natural, foi necessário criar uma nova estrutura capaz de sustentá-los. Grandes cúpulas de concreto armado foram construídas sobre os templos, incluindo uma cobertura com aproximadamente 60 metros de vão sobre o complexo principal.

As cúpulas foram cobertas com pedra, areia e material de preenchimento até assumirem externamente a forma de colinas.

Dessa maneira, os visitantes passaram a enxergar fachadas aparentemente escavadas em uma montanha, embora atrás da rocha exista uma estrutura moderna de engenharia.

Orientação solar de Abu Simbel foi preservada na reconstrução

A posição do Grande Templo precisava respeitar uma característica que tornava Abu Simbel ainda mais complexo. Em determinadas épocas do ano, a luz solar atravessa a entrada, percorre cerca de 60 metros pelo interior e alcança as figuras instaladas no santuário.

Atualmente, o fenômeno ocorre nos dias 22 de fevereiro e 22 de outubro. A luz ilumina as representações de Ramsés II, Amon e Rá, enquanto a figura de Ptá, divindade associada ao mundo subterrâneo, permanece parcialmente na sombra.

A remontagem manteve a orientação dos templos em relação ao rio e ao nascer do sol. Para alcançar esse resultado, os responsáveis precisaram reproduzir não somente as dimensões das construções, mas também o eixo utilizado pelos antigos construtores egípcios.

Abu Simbel foi reaberto em setembro de 1968

A transferência dos templos ocorreu principalmente entre 1964 e 1968. Depois de aproximadamente quatro anos de desmontagem, transporte e reconstrução, Abu Simbel foi inaugurado oficialmente em sua nova posição em 22 de setembro de 1968.

A operação foi concluída antes que o reservatório cobrisse o terreno original. Atualmente, a antiga localização está sob as águas do Lago Nasser, enquanto os templos permanecem em uma área elevada e visualmente semelhante à paisagem que existia antes da construção da barragem.

O visitante que observa os colossos de Ramsés II encontra uma reconstrução formada por milhares de toneladas de pedra antiga apoiadas por engenharia moderna. As marcas de corte foram tratadas e disfarçadas para reduzir o impacto visual da divisão realizada durante a transferência.

Operação ajudou a criar o conceito de Patrimônio Mundial

A campanha da Núbia demonstrou que projetos de infraestrutura e preservação arqueológica poderiam ser tratados por meio de cooperação internacional. O trabalho também ampliou a discussão sobre monumentos considerados importantes não apenas para um país, mas para toda a humanidade.

O sucesso da operação contribuiu para o desenvolvimento da Convenção do Patrimônio Mundial, adotada pela Unesco em 1972. Em 1979, os Monumentos Núbios de Abu Simbel a Filas foram inscritos na Lista do Patrimônio Mundial.

Abu Simbel permaneceu como um dos exemplos mais conhecidos de preservação associada à engenharia. Mais de mil blocos foram retirados de uma montanha, elevados acima das águas e remontados em uma estrutura artificial que continua recebendo visitantes no sul do Egito.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

Sair da versão mobile