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A 4.650 metros de altitude, China conclui instalação de 15.927 espelhos que concentram calor a 560 °C na planta termosolar mais alta do mundo
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 14/08/2026 às 18:48
Ciência e Tecnologia
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Erguido no planalto tibetano, projeto de 100 MW reúne quase 16 mil heliostatos em uma área de 800 mil m² e terá armazenamento térmico capaz de sustentar a geração por oito horas
A China concluiu a instalação de 15.927 espelhos em uma planta termosolar construída a mais de 4.650 metros de altitude, no condado de Amdo, na Região Autônoma de Xizang, no Tibete. O empreendimento de 100 megawatts (MW) foi projetado para operar em um ambiente marcado por ventos intensos, temperaturas abaixo de zero e elevada incidência de radiação ultravioleta.
Segundo informações divulgadas pela CGTN, a planta Tushuo tornou-se a instalação de energia solar térmica de concentração situada na maior altitude já construída no mundo. É também a primeira usina termosolar do tipo torre desenvolvida nessa região.
A escala ajuda a explicar a complexidade do projeto. Os 15.927 heliostatos, como são chamados os grandes espelhos móveis, ocupam aproximadamente 800 mil metros quadrados e precisam direcionar a radiação solar para praticamente o mesmo ponto: um receptor instalado em uma torre de 210 metros de altura.
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Ali, a concentração de energia eleva a temperatura de sais fundidos a aproximadamente 560 °C.
Quase 16 mil espelhos trabalham como um único sistema
O princípio é diferente daquele encontrado nos parques solares fotovoltaicos espalhados pelo mundo. Em vez de transformar diretamente a luz do Sol em eletricidade, a instalação chinesa primeiro transforma a radiação solar em energia térmica.
Cada heliostato acompanha o movimento aparente do Sol e ajusta continuamente sua posição. O objetivo é manter a luz refletida concentrada sobre o receptor no alto da torre.
O calor acumulado é transferido para sais fundidos, que podem posteriormente ser utilizados para produzir vapor. Esse vapor movimenta turbinas ligadas aos geradores elétricos, em uma arquitetura que, na etapa final de geração, guarda semelhanças com uma usina termelétrica convencional.
É justamente nesse ponto que a tecnologia ganha importância estratégica. Uma instalação fotovoltaica convencional reduz drasticamente sua produção quando a radiação solar desaparece. Na termosolar com armazenamento térmico, parte da energia captada durante o dia permanece guardada na forma de calor.
No projeto de Amdo, o sistema foi dimensionado para oferecer oito horas de armazenamento térmico.
Na prática, a usina poderá continuar entregando eletricidade mesmo depois do pôr do sol. Para sistemas elétricos que recebem volumes cada vez maiores de fontes renováveis intermitentes, essa capacidade vale tanto quanto a potência instalada: não basta produzir muita energia; é preciso conseguir deslocar parte dessa produção para os horários em que ela é necessária.
Construção a 4.650 metros exigiu engenharia específica
A altitude que transforma a planta chinesa em recordista também criou um dos maiores obstáculos do empreendimento.
Construir uma instalação desse porte no planalto tibetano significa lidar com ventos fortes, frio persistente e intensa radiação ultravioleta. E um campo composto por milhares de grandes superfícies refletoras apresenta uma dificuldade adicional: os espelhos precisam resistir às condições meteorológicas sem perder a precisão necessária para direcionar a luz ao receptor.
Os responsáveis pelo empreendimento desenvolveram suportes de heliostatos leves, mas de elevada rigidez, justamente para enfrentar as cargas provocadas pelo vento. O mecanismo de acompanhamento solar também foi concebido com folgas mecânicas extremamente reduzidas.
Os próprios espelhos receberam revestimentos resistentes à radiação ultravioleta, uma preocupação especialmente relevante em regiões de grande altitude.
Não se trata apenas de fazer milhares de espelhos apontarem para uma torre. O desafio está em manter essa precisão repetidamente, durante anos, em um ambiente no qual vento, variações térmicas e radiação castigam estruturas e componentes mecânicos.
Fábrica automatizada produz 6.000 m² de heliostatos por dia
A logística industrial também precisou acompanhar a dimensão da obra.
Para fabricar os componentes do campo solar, foi implantada uma linha de produção totalmente automatizada de heliostatos. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, trata-se da primeira instalação desse tipo operando em uma altitude tão elevada.
Sua capacidade chega a 6.000 metros quadrados de heliostatos por dia.
A produção local ou próxima ao empreendimento reduz uma dificuldade que seria considerável em qualquer projeto dessa escala: transportar milhares de estruturas de grandes dimensões até uma área situada a mais de quatro quilômetros e meio acima do nível do mar.
O resultado agora pode ser observado no campo solar. São quase 16 mil unidades trabalhando de maneira coordenada ao redor da torre central.
Usina deverá produzir 255 milhões de kWh por ano
A previsão é que a planta seja conectada à rede elétrica em outubro de 2026.
Quando estiver em operação, a expectativa dos responsáveis pelo projeto é alcançar uma geração anual de aproximadamente 255 milhões de quilowatts-hora (kWh). Esse volume seria suficiente, segundo as estimativas divulgadas, para abastecer cerca de 50 mil residências.
Os desenvolvedores calculam ainda que a produção poderá substituir o consumo de aproximadamente 60 mil toneladas de carvão por ano, evitando a emissão de cerca de 165 mil toneladas de dióxido de carbono anualmente.
Os números colocam o projeto muito além de uma demonstração tecnológica. Com 100 MW de potência, armazenamento térmico de oito horas e geração anual projetada na casa das centenas de milhões de kWh, Amdo funciona também como teste em escala comercial para uma tecnologia que tenta atacar uma das limitações mais conhecidas da geração solar.
China amplia complexo de energia limpa no Tibete
A planta Tushuo não está sendo construída de forma isolada.
Na mesma região, outro projeto prevê uma instalação termosolar de 50 MW, baseada em coletores de canal parabólico, no condado de Damxung. O empreendimento deverá operar associado a um parque solar fotovoltaico de 400 MW.
Ao mesmo tempo, a China avança na construção de linhas de transmissão de ultra-alta tensão, infraestrutura necessária para transportar grandes volumes de eletricidade produzidos no oeste do país por milhares de quilômetros até regiões mais populosas e industrializadas.
É aí que o projeto de Amdo assume uma dimensão maior. A altitude recorde chama atenção, mas o dado tecnicamente mais relevante pode estar na combinação entre geração solar concentrada, armazenamento térmico e transmissão de longa distância.
Com os 15.927 heliostatos já instalados, a próxima etapa decisiva será a conexão prevista para outubro. A partir daí, o desempenho real da usina — especialmente a capacidade de manter geração após o pôr do sol em condições ambientais tão severas — mostrará se a engenharia concebida para o “teto do mundo” conseguirá entregar, na operação cotidiana, os números projetados.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

