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A 660 km sob nossos pés, a Terra pode esconder em suas rochas água equivalente a até três oceanos, uma reserva colossal aprisionada em minerais sob pressão extrema que transforma o manto em uma gigantesca esponja planetária sem formar um único mar líquido

A 660 km sob nossos pés, a Terra pode esconder em suas rochas água equivalente a até três oceanos, uma reserva colossal aprisionada em minerais sob pressão extrema que transforma o manto em uma gigantesca esponja planetária sem formar um único mar líquido

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A 660 km sob nossos pés, a Terra pode esconder em suas rochas água equivalente a até três oceanos, uma reserva colossal aprisionada em minerais sob pressão extrema que transforma o manto em uma gigantesca esponja planetária sem formar um único mar líquido

Escrito por Ana Alice

Publicado em 05/08/2026 às 22:45

Ciência e Tecnologia

Canal

Água presa em minerais a até 660 km de profundidade pode equivaler a quase três oceanos e ajuda a explicar o ciclo interno da Terra. (Imagem: Ilustrativa)

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A centenas de quilômetros abaixo da superfície, minerais submetidos a pressões extremas podem armazenar enormes quantidades de água e revelar como o interior da Terra participa de um ciclo hídrico invisível.

A centenas de quilômetros abaixo dos continentes e oceanos, a Terra pode guardar uma quantidade de água comparável a várias vezes o volume existente na superfície.

Não há, porém, um mar subterrâneo preenchendo cavernas gigantescas: a água está incorporada à estrutura de minerais submetidos a pressões extremas.

Esse possível reservatório ocupa principalmente a zona de transição do manto, uma camada situada entre aproximadamente 410 e 660 quilômetros de profundidade.

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Nela, minerais como wadsleyita e ringwoodita conseguem armazenar hidrogênio e oxigênio em sua rede cristalina, formando grupos de hidroxila.

A expressão “três oceanos” surgiu de estimativas sobre a capacidade máxima de armazenamento desses minerais.

Caso uma parte ampla da zona de transição estivesse próxima da saturação, o volume equivalente poderia superar o de toda a água presente nos mares da superfície.

Isso não significa que cientistas tenham medido um reservatório global com exatamente três oceanos.

Estudos publicados nas últimas décadas chegaram a resultados diferentes sobre a quantidade efetivamente armazenada, indicando que a distribuição pode variar bastante de uma região para outra.

Água no interior da Terra não forma rios nem lagos

A imagem de um oceano escondido ajuda a transmitir a escala do possível reservatório, mas não descreve sua forma física.

Na zona de transição, as temperaturas e pressões são muito diferentes das encontradas na superfície, e a maior parte da água não permanece como líquido livre.

Os minerais armazenam componentes da água em defeitos microscópicos de sua estrutura.

Átomos de hidrogênio ocupam determinados pontos da rede cristalina e se ligam ao oxigênio, formando hidroxila.

O comportamento pode ser comparado, com limitações, ao de uma esponja.

A diferença é que a rocha não possui grandes espaços internos preenchidos por líquido.

A retenção ocorre em escala atômica, dentro dos próprios cristais.

A quantidade parece pequena quando expressa em porcentagem.

Uma amostra de ringwoodita pode conter algo próximo de 1% de água em massa, enquanto experimentos indicam capacidades maiores sob determinadas condições.

Como a zona de transição envolve uma camada gigantesca do planeta, mesmo uma fração pequena representa um volume expressivo.

É dessa combinação entre baixa concentração e enorme quantidade de rocha que surgem estimativas equivalentes a um ou mais oceanos.

Diamante brasileiro revelou ringwoodita hidratada

Durante muito tempo, a capacidade da ringwoodita de armazenar água era conhecida principalmente por experimentos de laboratório.

A confirmação de que esse mineral hidratado existia no interior da Terra veio de uma inclusão minúscula encontrada dentro de um diamante originário da região de Juína, em Mato Grosso.

O estudo foi publicado na revista científica Nature em março de 2014.

Análises por difração de raios X e espectroscopia identificaram ringwoodita com aproximadamente 1% de água em massa.

O diamante funcionou como uma cápsula resistente.

Ele levou à superfície uma amostra formada em profundidade e preservou o mineral, que normalmente se transformaria em outra estrutura durante a subida.

A descoberta forneceu evidência direta de que pelo menos uma parte da zona de transição é hidratada.

Os próprios pesquisadores, entretanto, ressaltaram que uma única amostra não permite concluir que toda a camada contenha a mesma concentração de água.

O achado mostrou que a ringwoodita não era apenas capaz de armazenar água em condições simuladas.

Em alguma região profunda sob o Brasil, esse processo havia ocorrido naturalmente.

Wadsleyita e ringwoodita armazenam água no manto

A zona de transição recebe esse nome porque nela os minerais mudam de estrutura à medida que a pressão aumenta.

A olivina, comum no manto superior, transforma-se em wadsleyita perto dos 410 quilômetros de profundidade.

Mais abaixo, em torno de 520 quilômetros, a wadsleyita dá lugar à ringwoodita.

Ambos os minerais têm composição química relacionada à da olivina, mas apresentam estruturas cristalinas mais compactas e adaptadas às altas pressões.

Essa reorganização cria condições para que mais hidrogênio seja incorporado aos cristais.

A wadsleyita e a ringwoodita são descritas como minerais nominalmente anidros porque sua fórmula básica não exige água, embora consigam armazená-la em defeitos estruturais.

Experimentos publicados em 2026 indicaram que, quando a quantidade total de água em placas oceânicas submersas permanece abaixo de determinado limite, ela tende a ser incorporada justamente à wadsleyita e à ringwoodita.

O estudo reforça o papel desses minerais no transporte e na retenção de água dentro da zona de transição.

Próximo aos 660 quilômetros, a ringwoodita deixa de ser estável e se transforma em minerais associados ao manto inferior.

Essa mudança reduz a capacidade de armazenar água da mesma maneira e pode provocar sua liberação.

Limite dos 660 quilômetros pode gerar derretimento parcial

Quando uma rocha rica em ringwoodita atravessa o limite inferior da zona de transição, a mudança mineral pode expulsar parte da água incorporada aos cristais.

Mesmo em pequenas quantidades, essa liberação altera o ponto de fusão das rochas ao redor.

A água facilita o derretimento parcial, de modo semelhante ao efeito do sal sobre o gelo, embora os materiais e as condições sejam completamente diferentes.

Não é necessário que toda a rocha derreta: uma pequena fração líquida já pode mudar sua velocidade sísmica, resistência e capacidade de transportar elementos químicos.

Em 2014, pesquisadores combinaram dados de ondas sísmicas com experimentos de alta pressão e encontraram sinais compatíveis com derretimento por desidratação sob parte da América do Norte.

O resultado indicou que uma região extensa da zona de transição continha água suficiente para produzir fusão parcial na passagem para o manto inferior.

Esse mecanismo funciona como uma barreira parcial.

A água transportada para baixo pode ser liberada perto dos 660 quilômetros, dificultando sua passagem imediata para camadas ainda mais profundas.

O processo também ajuda a explicar por que o reservatório não precisa permanecer parado.

A água entra, é armazenada, liberada e volta a ser incorporada a diferentes minerais ao longo de milhões de anos.

Volume de água no manto ainda está em debate

A existência de água na zona de transição possui evidências minerais, sísmicas e experimentais.

O tamanho global do reservatório, contudo, permanece incerto.

Um estudo publicado em 2017 analisou a influência da água sobre a viscosidade da ringwoodita.

Os resultados indicaram que o mineral poderia conter entre 1% e 2% de água em massa em parte da zona de transição, valor próximo da saturação em determinadas condições.

Outra pesquisa, divulgada em 2022, chegou a uma conclusão muito mais seca.

A partir de propriedades minerais e observações geofísicas, os autores estimaram uma concentração média próxima de 0,03% em massa para a região analisada.

A diferença não significa necessariamente que um dos estudos encontrou um oceano e o outro provou que ele não existe.

Cada trabalho usa métodos, hipóteses, áreas e propriedades físicas distintas.

Além disso, a água não precisa estar distribuída de maneira uniforme.

Regiões próximas a antigas placas subduzidas podem ser mais hidratadas, enquanto áreas ligadas à subida de material quente podem conter menos água.

Por isso, a estimativa de quase três oceanos deve ser entendida como uma possibilidade de armazenamento, e não como um inventário confirmado de toda a água existente no manto.

Placas tectônicas transportam água para as profundezas

A água chega ao interior da Terra principalmente por meio das zonas de subducção.

Nesses locais, uma placa oceânica mergulha sob outra placa e transporta rochas que foram alteradas pelo contato prolongado com o mar.

Sedimentos, minerais hidratados e fraturas preenchidas carregam componentes da água para baixo.

Conforme a temperatura e a pressão aumentam, alguns minerais se quebram e liberam fluidos, enquanto outros conseguem preservar o hidrogênio até profundidades maiores.

Parte dessa água participa da formação de magmas e retorna à superfície por vulcões.

Outra parcela pode alcançar a zona de transição, onde é incorporada à wadsleyita e à ringwoodita.

Esse movimento é conhecido como ciclo profundo da água.

Ele ocorre em uma escala de tempo muito maior do que o ciclo observado na superfície, no qual a água evapora, forma nuvens, cai como chuva e volta aos rios e oceanos.

O ciclo profundo conecta os mares à dinâmica das placas tectônicas e ao interior do planeta.

Dessa forma, a quantidade de água na superfície não depende apenas da atmosfera e do clima, mas também de trocas lentas com o manto.

Água profunda muda o comportamento das rochas

Mesmo sem formar um oceano líquido, a água pode modificar propriedades importantes das rochas.

Ela interfere na viscosidade, na temperatura de fusão, na condutividade elétrica e na maneira como os minerais se deformam.

Essas mudanças afetam a circulação do manto, responsável por transportar calor no interior da Terra.

Também podem influenciar a movimentação de placas subduzidas e a produção de magma.

A relação com terremotos profundos exige cautela.

Sismos já foram registrados a quase 700 quilômetros da superfície, onde a pressão deveria impedir que as rochas quebrassem da mesma forma observada na crosta.

Experimentos publicados em 2026 indicaram que a transformação da olivina em ringwoodita pode gerar instabilidades e enfraquecimento em placas frias submetidas às condições da zona de transição.

O resultado ajuda a explicar parte da atividade sísmica profunda, mas não atribui todos esses terremotos apenas à água ou à desidratação.

O interior terrestre reúne mudanças de fase, diferenças de temperatura, deformação mineral e circulação de materiais.

A água integra esse conjunto, mas não funciona como uma explicação única para todos os fenômenos observados.

“Oceano” subterrâneo revela um ciclo invisível da Terra

Na superfície, oceanos são reconhecidos por ondas, correntes e grandes extensões de água líquida.

No manto, o reservatório aparece apenas por sinais indiretos, experimentos de laboratório e raras amostras trazidas por diamantes.

Ainda assim, ele pode ter influência sobre processos que alcançam a crosta.

A água profunda participa da formação de magma, interfere na resistência das rochas e ajuda a conectar a subducção ao vulcanismo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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