Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

A China passou a cobrar 55% de imposto sobre a carne brasileira acima de 1,1 milhão de toneladas, os frigoríficos correram para embarcar antes do limite e quem sentiu a conta foi o brasileiro no açougue, com a picanha subindo 10,8% em doze meses

A China passou a cobrar 55% de imposto sobre a carne brasileira acima de 1,1 milhão de toneladas, os frigoríficos correram para embarcar antes do limite e quem sentiu a conta foi o brasileiro no açougue, com a picanha subindo 10,8% em doze meses

5 min de leitura

A China passou a cobrar 55% de imposto sobre a carne brasileira acima de 1,1 milhão de toneladas, os frigoríficos correram para embarcar antes do limite e quem sentiu a conta foi o brasileiro no açougue, com a picanha subindo 10,8% em doze meses

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 01/08/2026 às 12:06

Economia

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

O quilo da picanha no atacado chegou a R$ 72,38 em junho, e a explicação está menos no boi e mais numa regra tarifária assinada do outro lado do mundo.

O quilo da picanha no atacado foi cotado a R$ 72,38 em junho de 2026, alta de 10,8% em doze meses, segundo levantamento reproduzido pela CNN Brasil. Considerando os valores corrigidos pela inflação, o corte acumula 25,7% de alta desde janeiro de 2023.

O motivo não está no pasto, está numa regra tarifária. A China estabeleceu uma cota de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira com alíquota de 12%, e tudo o que passar desse volume paga 55%.

A consequência foi imediata e previsível. Os frigoríficos aceleraram os embarques para caber dentro da cota antes de ela estourar, o que tirou carne do mercado interno justamente quando a demanda doméstica continuava firme.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

A corrida contra o relógio já vinha sendo medida

O ritmo de consumo da cota é o indicador que o setor passou a acompanhar semana a semana. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil já havia utilizado cerca de 70% do volume anual permitido com a alíquota menor.

Esse dado explica a pressa. Com 70% da cota consumida em quatro meses, o setor sabia que o teto seria alcançado bem antes do fim do ano, e cada tonelada embarcada depois disso custaria quase cinco vezes mais imposto.

O tamanho do descompasso é conhecido. O Brasil exporta em torno de 1,5 milhão de toneladas por ano para a China, enquanto a faixa protegida pela tarifa menor cobre apenas 1,1 milhão, o que deixa quase 400 mil toneladas expostas à alíquota cheia.

Por que a exportação mexe no preço do açougue

A ligação entre o navio e a bandeja do supermercado é mais direta do que parece. O boi abatido no Brasil é um só, e o frigorífico decide para onde cada parte da carcaça vai conforme o preço que consegue.

Quando o mercado externo paga mais, o corte segue para o contêiner. Sobra menos produto para a distribuição interna, e a mesma demanda disputando menos oferta empurra o preço para cima no varejo.

O efeito é mais forte em cortes nobres justamente porque são eles que interessam ao comprador estrangeiro disposto a pagar prêmio. É por isso que a picanha sobe mais rápido do que o corte de segunda.

Existe ainda um detalhe de aproveitamento que pesa na conta. Uma carcaça bovina rende poucos quilos de picanha, entre um e dois por traseiro, de modo que qualquer aumento de demanda externa por esse corte específico se transforma rapidamente em falta na vitrine do açougue brasileiro.

O que a alta de 10,8% significa na prática

Vale traduzir o percentual. Uma picanha de dois quilos que custava por volta de R$ 130 no atacado há um ano passou a custar cerca de R$ 145 na mesma base de comparação, antes de qualquer margem de açougue ou de supermercado.

No varejo o repasse costuma ser maior, porque a loja precisa cobrir perda de peso no corte, refrigeração e margem. Levantamentos de abril de 2026 já apontavam o quilo acima de R$ 80 em São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

E o movimento não é isolado desse corte. A carne bovina acumulou alta em praticamente todos os cortes no período, com a picanha figurando como um dos casos mais visíveis por ser o corte que o consumidor usa como referência de preço.

O consumo interno já tinha começado a ceder

O brasileiro reagiu ao preço antes mesmo do episódio da cota. Depois de crescer 7,8% entre 2022 e 2023 e mais 2% em 2024, chegando a 38 quilos por pessoa ao ano, o consumo caiu cerca de 9% em 2025, para 31,9 quilos por habitante.

O pico de 2024 foi o maior desde 2014, e a queda de 2025 devolveu o indicador a um patamar bem abaixo dele. É a resposta clássica do consumidor: troca de proteína, redução de frequência ou migração para corte mais barato.

Essa substituição alivia a pressão sobre o preço no médio prazo, mas não no curto. Enquanto a exportação absorve o excedente, a queda do consumo interno sozinha não derruba a cotação.

O que dizem quem acompanha o mercado

Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras e Mercado, avalia que os preços altos devem persistir por causa da oferta restrita e da redução do rebanho, segundo a CNN Brasil.

O analista Hyberville Neto, da HN Agro, foi além do econômico e observou que o corte que simbolizava fartura pode virar “argumento oposto no debate eleitoral de 2026”, conforme a mesma publicação.

As duas leituras convergem no mesmo ponto. O preço da carne deixou de ser assunto exclusivamente de mercado e passou a ser indicador político, do jeito que o preço do combustível já é há anos.

A conta do setor exportador também piora

A tarifa não penaliza só o consumidor brasileiro. Ela reduz a competitividade do produto no destino e aperta a margem do frigorífico que precisa vender acima da cota.

A projeção do setor é de recuo. A exportação brasileira de carne bovina pode cair 10% em 2026 por causa da tarifa de 55%, e a entidade que representa os exportadores admite não existir mercado capaz de substituir o principal comprador.

O problema é de concentração. Quando um único destino responde por fatia dominante da exportação, qualquer mudança de regra lá dentro vira choque de preço aqui, sem que o produtor ou o consumidor tenham qualquer influência sobre a decisão.

Onde a negociação está

O governo brasileiro trabalha para ampliar o teto da cota antes que o excedente pague a alíquota cheia, e há sinalização chinesa de aumento nas importações, o que manteria o fluxo mesmo com a regra atual.

Enquanto isso, o volume embarcado bateu recorde histórico em 2026, o que é boa notícia para a balança comercial e má notícia para quem compra carne no varejo.

O próximo marco é o fechamento da cota deste ano. A partir do momento em que o limite de 1,1 milhão de toneladas for atingido, cada carregamento adicional entra na faixa de 55%, e é aí que se saberá se o embarque continua compensando ou se a carne volta a sobrar no mercado interno.

Fonte

CNN Brasil


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

Sair da versão mobile