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A cidade da Colômbia que foi arrasada por um terremoto em 1999 e viu prédios desabarem, mas 27 anos depois enfrentou um tremor de magnitude 7,4 e surpreendeu ao permanecer de pé
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 19/08/2026 às 11:29
Atualizado em 19/08/2026 às 11:30
Ciência e Tecnologia
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Armênia perdeu centenas de moradores no terremoto que atingiu o Eixo Cafeeiro em 1999, passou por ampla reconstrução e apresentou cenário diferente diante do tremor de magnitude 7,4 registrado 27 anos depois.
Em 25 de janeiro de 1999, Armênia, capital do departamento de Quindío, na Colômbia, foi devastada por um terremoto de magnitude 6,1 que atingiu o Eixo Cafeeiro e deixou 971 mortos no país. A cidade, que tinha cerca de 270 mil habitantes, concentrou quase todas as mortes registradas durante aquele desastre.
Vinte e sete anos depois, Armênia voltou a sentir um grande terremoto, desta vez de magnitude 7,4. Apesar de o número ser superior ao registrado em 1999, o resultado na cidade foi muito diferente. Edifícios tiveram fachadas, janelas e paredes internas danificadas, mas não ocorreram mortes provocadas pelo desabamento das construções.
A diferença entre os dois episódios não pode ser explicada somente pela magnitude. Segundo especialistas, fatores como profundidade, localização do epicentro, características do solo e qualidade das edificações ajudam a determinar os efeitos de um terremoto. No caso de Armênia, a reconstrução realizada após 1999 também se tornou uma parte importante dessa equação.
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Terremoto de 1999 atingiu Armênia praticamente sobre o epicentro e transformou a cidade em cenário de destruição
Vanessa Porras tinha cinco anos quando sua casa desabou durante o terremoto de 25 de janeiro de 1999. Ela almoçava com a família quando o chão começou a tremer e todos correram para a rua, com exceção de Angie, sua irmã de quatro anos, que havia ido ao quarto pouco antes.
Vanessa ficou ferida na cabeça enquanto sua mãe procurava desesperadamente pela filha entre os escombros. Horas depois, um tremor secundário derrubou outras construções que permaneciam em pé e ampliou a destruição em Armênia. O mesmo movimento dos destroços, porém, acabou contribuindo para salvar Angie.
A criança conseguiu gritar depois que os escombros se deslocaram. Vizinhos ouviram sua voz, abriram uma passagem para fornecer água e trabalharam até conseguir retirá-la com vida. A lembrança permaneceu com Vanessa durante os 27 anos seguintes, até que um novo terremoto fez a experiência retornar à memória.
A situação encontrada em 2026 foi diferente. A casa de Vanessa permaneceu de pé, sua família ficou bem e Armênia não registrou vítimas fatais causadas pelo colapso de edifícios.
Magnitude 7,4 do terremoto recente não significou impacto maior do que o tremor de 6,1 registrado em 1999
A diferença entre magnitude e intensidade ajuda a explicar por que um terremoto numericamente mais forte provocou consequências menores em Armênia. Flover Rodríguez, geólogo e diretor executivo da Associação Colombiana de Geólogos e Geofísicos da Energia, explicou à BBC News Mundo que a magnitude representa apenas um dos fatores envolvidos no potencial destrutivo de um evento sísmico.
O terremoto de 1999 ocorreu praticamente sob Armênia. Seu epicentro estava a cerca de 10 quilômetros da cidade e o evento teve origem a apenas 21 quilômetros de profundidade. Terremotos mais rasos podem provocar efeitos mais severos nas localidades próximas porque as ondas sísmicas percorrem uma distância menor até alcançar a superfície.
O cenário de 2026 apresentou características diferentes. O epicentro foi localizado em San José del Palmar, no departamento de Chocó, aproximadamente 70 quilômetros distante de Armênia, enquanto a origem do tremor ficou a 107 quilômetros de profundidade.
A maior profundidade também permitiu que as ondas sísmicas alcançassem regiões mais distantes. Essa característica ajuda a entender os impactos registrados em outras cidades colombianas, enquanto Armênia enfrentou o tremor sem repetir o nível de destruição observado em 1999.
Pereira sofreu danos severos enquanto 90% das construções avaliadas em Armênia foram consideradas habitáveis
Pereira apresentou um cenário bastante diferente mesmo estando relativamente próxima de Armênia. A cidade sofreu danos materiais generalizados e registrou dezenas de vítimas fatais, enquanto Armênia não contabilizou mortes causadas por desabamentos.
Uma das diferenças está relacionada às próprias edificações. Pereira possui construções mais antigas, algumas delas afetadas por terremotos anteriores, incluindo os eventos registrados em 1995 e 1999. Reparos realizados ao longo dos anos não necessariamente eliminaram todas as vulnerabilidades estruturais existentes.
O tipo de solo também deverá fazer parte das investigações posteriores. O Eixo Cafeeiro possui áreas construídas sobre depósitos geológicos considerados solos moles, capazes de amplificar as ondas sísmicas e aumentar os efeitos sentidos pelas estruturas.
As primeiras avaliações realizadas em Armênia mostraram outra realidade. Cerca de 90% das construções inspecionadas foram consideradas habitáveis, embora fachadas, paredes internas e janelas tenham apresentado danos.
Reconstrução após terremoto de 1999 mudou edifícios de Armênia e reforçou aplicação de normas sismo-resistentes
O nível de destruição registrado em 1999 obrigou Armênia a reconstruir uma parcela significativa da cidade. Federico Alejandro Núñez, engenheiro civil e professor da Universidade Javeriana, afirma que naquela época foram encontradas numerosas moradias informais que não atendiam aos requisitos mínimos de construção. Edificações antigas também apresentaram pouca resistência ao terremoto.
A reconstrução mudou esse cenário. Novos edifícios passaram a cumprir padrões técnicos mais rigorosos e, em 2010, a Colômbia estabeleceu o Regulamento Colombiano de Construção Sismo-Resistente NSR-10, norma que permanece em vigor e tem como principal finalidade proteger vidas.
Uma construção preparada para terremotos não precisa atravessar um grande tremor sem qualquer dano. Núñez explica que o objetivo principal é impedir colapsos capazes de soterrar seus ocupantes, permitindo que as pessoas tenham condições de deixar o imóvel com segurança.
O comportamento das edificações de Armênia em 2026 mostrou justamente essa diferença. Fachadas, janelas e paredes sofreram danos, mas os prédios permaneceram de pé e evitaram mortes por desabamentos.
Mais de mil edificações foram inspecionadas em Armênia para determinar se moradores poderiam retornar às casas
Claudia Arenas, engenheira civil do município de Armênia, percorreu a cidade com equipes formadas por engenheiros e arquitetos após o terremoto. Mais de mil edificações foram inspecionadas nos primeiros dias para identificar quais imóveis poderiam continuar ocupados com segurança.
Os profissionais utilizaram um aplicativo capaz de realizar uma classificação preliminar das construções. O sistema funciona como um semáforo e divide os imóveis entre habitáveis, habitáveis com restrições e inabitáveis, utilizando as cores verde, laranja e vermelho.
O trabalho também possui uma dimensão pessoal para Claudia. Ela havia acabado de se formar quando participou dos atendimentos após o terremoto de 1999 e ainda se lembra da destruição encontrada naquela época. A engenheira considera que Armênia está atualmente muito mais preparada para enfrentar eventos sísmicos.
A preparação não ficou restrita aos edifícios. Moradores, profissionais e instituições também passaram a desenvolver procedimentos para reagir quando a terra volta a tremer.
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Simulação realizada dias antes ajudou 1,6 mil estudantes a reagirem quando terremoto começou às 7h34
O colégio Rufino José Cuervo tornou-se um dos exemplos dessa mudança. Aproximadamente 1,6 mil estudantes dos ensinos fundamental e médio estavam nas salas de aula quando o terremoto começou às 7h34.
A escola havia realizado uma simulação poucos dias antes. Quando o tremor ocorreu, alunos e funcionários repetiram os procedimentos praticados durante o treinamento. Segundo Claudia Arenas, nenhuma criança sofreu ferimentos.
O episódio mostrou na prática uma transformação construída ao longo de quase três décadas. Armênia não eliminou sua exposição aos terremotos e suas construções continuam sujeitas a danos, mas a cidade passou a combinar edificações mais resistentes com inspeções, treinamento e conscientização da população.
A experiência de 1999 deixou 971 mortos na Colômbia e transformou Armênia em um dos principais símbolos daquela tragédia. Vinte e sete anos depois, a mesma cidade enfrentou um terremoto de magnitude superior sem repetir os colapsos que haviam soterrado moradores, mostrando como reconstrução e preparação podem mudar as consequências de um desastre sísmico.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

