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A construção civil abriu quase 169 mil vagas formais no primeiro semestre e chegou a 3,1 milhões de trabalhadores com carteira, e mesmo assim o Senai calcula que 94% das construtoras não acham gente qualificada para o canteiro
Escrito por Jefferson Augusto
Publicado em 01/08/2026 às 12:57
Construção
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O setor contrata em ritmo alto e reclama de escassez ao mesmo tempo, e a explicação para essa contradição aparente está menos no número de trabalhadores e mais no que eles sabem fazer.
Noventa e quatro por cento das construtoras dizem que falta gente para tocar a obra e 76% já precisaram mexer no cronograma por causa disso. Os percentuais são de Felipe Morgado, superintendente de Educação Profissional e Superior do Senai Nacional.
O detalhe é que o setor não está demitindo, está contratando em ritmo alto. A construção civil criou 168.962 empregos formais no primeiro semestre de 2026, segundo balanço da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a CBIC, com base no Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego.
Os recortes parciais do mesmo balanço mostram a curva. No fechamento de maio, ou seja, considerando apenas os cinco primeiros meses do ano, o setor somava 154.448 vagas, alta de 3,78% sobre as 148.829 abertas no mesmo intervalo de 2025, e chegava a um estoque de 3,105 milhões de trabalhadores com carteira assinada, conforme a CBIC.
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A contradição só é aparente
Contratar muito e reclamar de falta parece incoerente, e não é. O que o setor descreve não é ausência de candidato, é ausência de candidato pronto para a função.
O dado que fecha esse raciocínio também vem de Morgado: 60% dos profissionais do setor nunca fizeram curso formal de qualificação. A empresa contrata, precisa treinar dentro da obra e paga esse tempo em produtividade menor.
A escassez atinge pedreiro, eletricista, soldador, caldeireiro, operador de máquina e técnico especializado, segundo o levantamento do Senai reproduzido pela CBIC, e no nível mais crítico começa a faltar engenheiro capaz de coordenar obra industrializada.
Vale registrar que esse diagnóstico não é novo nem se explica por uma causa só. As razões da escassez vão bem além do Bolsa Família e do Uber, e passam por informalidade histórica, rotatividade alta e ausência de plano de carreira dentro da obra.
O estoque de trabalhadores cresceu mês a mês
A evolução do número de empregados confirma a tendência. Ainda segundo a CBIC, os 3,105 milhões de trabalhadores registrados em maio representam alta de 0,35% sobre abril, quando o setor tinha 3,094 milhões.
Na comparação anual o salto é maior. Em maio de 2025 a construção empregava 3,014 milhões de pessoas, o que dá crescimento de 3,03% em doze meses, conforme a mesma entidade.
Ou seja, pelo levantamento da CBIC o setor absorveu cerca de 91 mil trabalhadores formais a mais em um ano e continua dizendo que falta gente. É a definição prática de gargalo de qualificação.
O que o dado oficial mostra sobre o salário
Aqui é preciso separar o que é registro formal do que é conversa de obra. Segundo o Portal Salário, que trabalha com dados do Caged divulgados mensalmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o salário médio do pedreiro no Brasil é de R$ 2.541,50.
O levantamento cobre o período de junho de 2025 a maio de 2026, tem amostra de 647.992 profissionais e foi atualizado em 3 de julho de 2026. Nele, o piso aparece em R$ 2.804,54 e o teto em R$ 2.984,04.
O ponto metodológico importa e costuma ser omitido. Conforme o próprio Portal Salário, entram na conta apenas profissionais contratados em regime CLT e apenas o salário base registrado em carteira, sem bônus, hora extra, adicional noturno, periculosidade ou insalubridade.
O piso da categoria é negociado por região
Na construção, o piso salarial não é fixado por lei federal. Ele sai de convenção coletiva assinada entre patrões e trabalhadores de cada base territorial, e por isso muda de estado para estado.
Em São Paulo, a Convenção Coletiva de Trabalho 2025/2026 firmada entre o SindusCon-SP e o Sintracon-SP, os sindicatos patronal e dos trabalhadores da construção paulista, fixou o piso do pedreiro em R$ 2.150 para a jornada de 44 horas semanais. É esse o valor que costuma circular como se valesse para o Brasil inteiro, e em outra base territorial o piso da mesma função pode ser diferente.
O que explica a falta vai além do diagnóstico fácil
É comum atribuir a escassez a programa social ou a aplicativo de transporte, como se o trabalhador tivesse simplesmente trocado o canteiro por alternativa mais confortável. A leitura é insuficiente, e o próprio setor reconhece isso.
Rotatividade é o ponto que menos aparece no debate público. Obra tem prazo, e quando ela acaba a equipe se dispersa, o que transforma a profissão em sequência de contratos curtos, sem previsibilidade de renda.
Sem vínculo longo, ninguém investe em formação. A empresa hesita em treinar quem vai terminar a obra e sair, o que ajuda a explicar por que a maioria do setor chegou até aqui sem curso formal.
O canteiro perdeu apelo entre os mais jovens
Existe ainda um problema de imagem da profissão que nenhuma tabela salarial resolve sozinha. O trabalho é fisicamente pesado, exposto a sol e chuva, e concorre com vagas de serviço e de entrega que exigem menos esforço físico.
O tema virou assunto nas redes sociais quando trabalhadores jovens do setor passaram a falar abertamente sobre remuneração e sobre a ausência de gente nova no canteiro.
Há também um universo que não entra na estatística formal. Boa parte da reforma residencial acontece por diária combinada direto com o morador, sem registro, e esse trabalhador só aparece nas contas do setor quando migra para uma obra com carteira assinada.
O gargalo subiu na hierarquia
A falta deixou de ser só de trabalhador operacional. A construção pesada, responsável por obra de infraestrutura, vive uma crise silenciosa de sumiço de mão de obra qualificada em áreas técnicas.
Nesse patamar, a disputa é por engenheiro, técnico de campo e supervisor de qualidade, e as empresas passaram a competir entre si com salário maior e benefício mais agressivo, buscando profissional em outro estado.
O efeito colateral é financeiro e de segurança. Contratar fora encarece deslocamento e moradia, e canteiro com muita gente nova e pouco treinamento registra mais acidente, o que para a obra e consome exatamente o prazo que a empresa tentava recuperar.
A redução da jornada muda a conta de novo
Existe uma variável no horizonte que pode ampliar o problema. A CBIC divulgou um estudo, elaborado pela economista-chefe da entidade, Ieda Vasconcelos, a partir de dados de 2024, que calcula o efeito sobre o setor caso a jornada semanal caia de 44 para 40 horas.
O estudo da CBIC trabalha com dois cenários. No primeiro, para repor as horas perdidas o setor precisaria contratar 288 mil trabalhadores, sendo 111 mil em edificações, 98 mil em serviços especializados e 79 mil em obras de infraestrutura, com custo adicional de R$ 13,5 bilhões por ano.
No segundo cenário do mesmo estudo, sem reposição de pessoal, o custo da mão de obra subiria até 15% e chegaria a R$ 155,6 bilhões anuais, com a hora trabalhada passando de R$ 15,01 para R$ 16,51.
Quem sentiria mais o impacto
O mesmo estudo da CBIC identifica onde o efeito seria mais duro. Micro e pequenas empresas respondem por 98,7% dos mais de 300 mil estabelecimentos do setor, e são elas que têm menos folga para absorver aumento de folha.
A habitação popular é o segundo ponto sensível, porque nesse segmento a mão de obra representa perto de 60% do custo da obra, conforme o levantamento da entidade. Aumento de folha ali vai direto para o preço final da moradia.
Para quem procura trabalho, porém, o quadro segue favorável, e a especialização é o que move o trabalhador dentro da faixa registrada no Caged. Vale lembrar que as carreiras que pagam acima de R$ 20 mil no país se concentram em tecnologia, medicina, finanças e indústria, e exigem anos de formação que o canteiro não exige.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

