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Abandonados por um circo na Argentina, tigres passaram mais de 15 anos presos dentro de um vagão de trem de 75 m², onde cresceram e formaram uma família até serem resgatados, enfrentarem uma viagem de mais de 70 horas entre estradas e aviões para pisar na grama pela primeira vez na África do Sul
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 19/08/2026 às 15:24
Atualizado em 19/08/2026 às 15:25
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Sandro e Mafalda foram deixados em uma propriedade na Argentina em 2007 e acabaram formando uma família dentro de um antigo vagão ferroviário. Quinze anos depois, eles e os filhos Messi e Gustavo enfrentaram uma operação internacional que terminou a mais de 10 mil quilômetros dali, em um santuário para grandes felinos na África do Sul
Durante mais de 15 anos, um velho vagão de trem parado na província de San Luis, na Argentina, foi praticamente todo o mundo conhecido por quatro tigres-de-bengala. O espaço tinha apenas 75 metros quadrados, dimensão incompatível com animais que, em condições adequadas, precisam caminhar, correr, explorar, brincar e ter acesso à água.
A história começou em 2007, quando um circo itinerante deixou um macho e uma fêmea sob os cuidados de um produtor rural, dizendo que a situação seria temporária. O circo nunca voltou. Sem esterilização, os animais se reproduziram e, com o passar dos anos, a pequena família passou a ser formada por Sandro, Mafalda e os filhos Messi e Gustavo.
O caso só ganhou um caminho concreto para uma solução depois que autoridades de proteção da fauna de San Luis tomaram conhecimento das condições em 2021. Como não havia uma alternativa adequada para realocar os animais dentro da região, começou a ser preparada uma operação que terminaria do outro lado do Atlântico.
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Em março de 2022, os quatro deixaram definitivamente o vagão. Depois de semanas de preparação e uma viagem internacional superior a 70 horas, chegaram ao LIONSROCK Big Cat Sanctuary, na África do Sul, onde encontraram um ambiente que até então fazia parte de algo que praticamente não conheciam: terra, vegetação, espaço aberto e grama sob as patas.
O circo foi embora em 2007 e nunca voltou para buscar os animais
Quando Sandro e Mafalda chegaram à propriedade rural, a expectativa era de que permanecessem ali por pouco tempo. O produtor responsável pelo local acabou assumindo os cuidados porque os responsáveis pelo circo não retornaram.
A situação criou um problema difícil de resolver. A manutenção privada de animais silvestres não era permitida no país, enquanto o responsável pela propriedade não tinha estrutura de um zoológico ou santuário especializado. Mesmo assim, continuou alimentando os tigres durante anos.
Como os dois animais não haviam sido esterilizados, nasceram filhotes ao longo do período. Messi e Gustavo permaneceram com os pais, fazendo com que quatro grandes felinos dividissem o mesmo vagão ferroviário.
A dimensão do confinamento ajuda a explicar a preocupação dos veterinários. Tigres são animais territoriais e exploradores, enquanto naquele espaço os quatro tinham poucas possibilidades além de andar repetidamente de um lado para o outro. A limitação impedia comportamentos básicos da espécie, como correr, investigar o ambiente e se banhar.
Quinze anos dentro de 75 m² deixaram marcas que não desapareceriam simplesmente com a abertura de uma porta
A situação encontrada pelos especialistas envolvia mais do que falta de espaço. O veterinário Amir Khalil, responsável pela missão, relatou que o vagão havia permanecido por períodos com fezes, restos de carne e ossos, embora as condições de limpeza tivessem melhorado antes da retirada dos animais.
O confinamento prolongado também podia afetar comportamento, musculatura e saúde geral. Colocar os tigres imediatamente dentro de caixas e transportá-los milhares de quilômetros sem preparação aumentaria o risco para os próprios animais e para a equipe.
Por isso, veterinários e especialistas passaram semanas no local antes da viagem. A preparação utilizou reforço positivo para familiarizar cada tigre com as caixas de transporte e diminuir o nível de estresse durante a operação.
Quando chegou a hora de partir, começou outro desafio. A primeira etapa envolveu aproximadamente 700 quilômetros por estrada até Buenos Aires, percurso que levou cerca de 15 horas, segundo relato publicado pela Euronews. Depois disso, os animais seguiram de avião em caixas preparadas com ventilação, água e piso adequado para a longa viagem.
Todo o deslocamento, incluindo conexões e trajetos terrestres, ultrapassou 70 horas entre continentes. Não se tratava simplesmente de retirar quatro tigres de uma jaula, mas de manter animais de grande porte em condições controladas durante um percurso internacional com exigências veterinárias, alfandegárias e logísticas.
Sandro, Mafalda, Messi e Gustavo chegaram à África do Sul em 12 de março de 2022
A chegada ao LIONSROCK ocorreu em 12 de março de 2022. Sandro, Messi e Gustavo começaram a investigar o novo espaço pouco depois da abertura das caixas, enquanto Mafalda demorou um pouco mais para decidir sair.
Foi naquele momento que os antigos “tigres do trem” tiveram contato direto com elementos completamente comuns para um animal da espécie, mas praticamente desconhecidos por eles. Grama, plantas, diferentes cheiros, solo natural e o céu aberto passaram a fazer parte da rotina dos quatro. A entidade responsável pelo resgate registrou que eles pisaram na grama pela primeira vez após a transferência.
Um ano depois, a mudança já aparecia no comportamento dos quatro tigres
Em março de 2023, depois de aproximadamente um ano no santuário, os responsáveis pelo LIONSROCK informaram que os animais haviam se adaptado aos recintos e apresentavam comportamento mais relaxado. Sandro despertava atenção especial por ser o mais velho e já apresentar problemas de saúde relacionados à idade e às condições anteriores de vida.
Os novos espaços permitiam que cada animal caminhasse por áreas maiores e tivesse enriquecimento ambiental. Como esses tigres viveram praticamente toda a vida em cativeiro e dependiam de cuidados humanos, a transferência para um santuário não significava soltá-los na natureza, mas oferecer uma instalação permanente adequada às necessidades da espécie.
O LIONSROCK fica perto de Bethlehem, na África do Sul, e recebe grandes felinos vindos de circos, zoológicos, propriedades particulares e outras situações de cativeiro. Reprodução, caça e contato direto entre visitantes e os animais são proibidos no local.
Uma atualização publicada pelo próprio santuário em maio de 2025 mostra que a história também teve perdas depois do resgate. Mafalda e Messi morreram em 2024 e Gustavo morreu em 2025 em decorrência de complicações de saúde. Sandro permaneceu vivo no LIONSROCK, recebendo cuidados especiais na unidade destinada a tigres que precisam de acompanhamento mais próximo.
O caso dos tigres do trem expõe um problema que vai além de quatro animais
A situação de Sandro, Mafalda, Messi e Gustavo ocorreu em um contexto internacional de preocupação com a criação, exploração comercial e circulação de grandes felinos em cativeiro. A CITES, convenção internacional que regula o comércio de espécies ameaçadas, mantém os tigres sob regras rígidas e aponta o comércio ilegal como uma ameaça à conservação desses animais.
Os números globais também ajudam a dimensionar o problema. Quando o resgate argentino começou a ser divulgado em 2022, estimativas amplamente citadas falavam em cerca de 3.900 tigres na natureza. Uma estimativa posterior do Global Tiger Forum, divulgada pelo WWF, elevou esse número para aproximadamente 5.574 tigres selvagens, embora populações continuem ameaçadas por perda de habitat, caça e comércio ilegal.
Para os quatro animais encontrados em San Luis, porém, a mudança mais concreta ocorreu em uma escala muito menor. Depois de uma existência delimitada pelas paredes metálicas de um vagão de 75 m², atravessar o oceano significou chegar a um lugar onde finalmente havia espaço suficiente para caminhar sobre a terra, entrar na vegetação e escolher para onde ir dentro dos recintos.
O que você achou da história dos quatro tigres que passaram mais de 15 anos dentro de um vagão de trem? Deixe sua opinião nos comentários, principalmente sobre o uso de animais silvestres em circos e sobre o papel dos santuários no acolhimento de animais que já não podem voltar à natureza.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

