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Adeus tijolos: em apenas 3 meses, família ergue “Casa de Cupim” de 70 m² com barro, pneus de caminhão, latas, garrafas, bambu e madeira de demolição em Mato Grosso e consegue deixar o imóvel até 10°C mais fresco que o lado de fora, com técnicas de bioconstrução e materiais reaproveitados

Adeus tijolos: em apenas 3 meses, família ergue “Casa de Cupim” de 70 m² com barro, pneus de caminhão, latas, garrafas, bambu e madeira de demolição em Mato Grosso e consegue deixar o imóvel até 10°C mais fresco que o lado de fora, com técnicas de bioconstrução e materiais reaproveitados

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Adeus tijolos: em apenas 3 meses, família ergue “Casa de Cupim” de 70 m² com barro, pneus de caminhão, latas, garrafas, bambu e madeira de demolição em Mato Grosso e consegue deixar o imóvel até 10°C mais fresco que o lado de fora, com técnicas de bioconstrução e materiais reaproveitados

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 24/08/2026 às 23:00

Curiosidades

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Família constrói casa de 70 m² com barro e materiais reciclados em Mato Grosso e reduz temperatura interna em até 10°C. (Foto: Arquivo Pessoal/Diego Carioca)

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Biólogo e os pais construíram imóvel de 70 m² em Cáceres usando terra, pneus de caminhão, garrafas, latas, bambu e madeira reaproveitada; projeto iniciado em 2012 virou laboratório de bioconstrução e registra diferença de até 10°C entre o interior da casa e o ambiente externo

Em vez de depender de tijolos convencionais para levantar as paredes, uma família de Cáceres, em Mato Grosso, decidiu experimentar terra, pneus, latas de alumínio, garrafas, bambu e materiais retirados de demolições. Em apenas três meses, o biólogo e bioconstrutor Diego Miguel Carioca de Paula e os pais, Sandro Miguel e Sueli Aparecida, ergueram a chamada Casa de Cupim.

A construção tem cerca de 70 m² e seis cômodos, incluindo cozinha americana, sala, escritório, quarto, banheiro e outro ambiente com fogão a lenha. A fundação recebeu pneus de caminhão e diferentes partes da casa foram construídas com hiperadobe, superadobe, taipa de mão, madeira reaproveitada, garrafas e até latas transformadas em elementos das paredes, conforme informações publicadas pelo Plantão da Notícia.

O resultado chama atenção principalmente por uma característica especialmente relevante em uma região de temperaturas elevadas. Segundo medições feitas pelo próprio projeto, o interior das construções do núcleo pode permanecer entre 8°C e 10°C abaixo da temperatura externa, dependendo das condições climáticas e da solução construtiva utilizada.

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O imóvel não nasceu como uma casa-modelo feita apenas para exposição. A família começou a experiência em 2012, colocando em prática técnicas que estudava havia algum tempo e adaptando cada uma delas às condições de solo e clima de Cáceres.

A Casa de Cupim começou em 2012 e virou um mosaico de técnicas construtivas

A decisão de construir a primeira casa surgiu como parte de um projeto de vida familiar. Segundo o Olhar Direto, Diego e os pais começaram a obra em 2012 e concluíram a primeira etapa em cerca de três meses, aprendendo na prática quais técnicas funcionavam melhor no clima quente do Pantanal mato-grossense.

Não existe, portanto, um único método responsável pela estrutura. A Casa de Cupim mistura hiperadobe, superadobe, adobe, taipa de mão, bambucreto, cordwood e outras soluções, além do reaproveitamento de materiais que normalmente acabariam descartados.

No hiperadobe, a terra é colocada e compactada dentro de uma malha para formar paredes espessas. O superadobe segue princípio semelhante, utilizando sacos ou tubos preenchidos com terra compactada e organizados em camadas.

Em outros trechos, a família chegou a reaproveitar antigas telhas francesas como se fossem tijolos. Garrafas de vidro e latas de alumínio também foram incorporadas às paredes, enquanto pedaços de cerâmica descartados ganharam nova função em mosaicos e revestimentos.

Pneus de caminhão foram parar na fundação e madeira de demolição voltou para a obra

Casa de Cupim usa barro, pneus e materiais reciclados para reduzir calor.

A escolha de materiais começa abaixo das paredes. Pneus de caminhão foram utilizados na fundação, enquanto madeira proveniente de demolições reapareceu em partes da construção.

O acabamento também foge do pacote convencional de uma obra. Há rebocos preparados com cal e terra, argamassas que incorporam materiais naturais, tinta de terra e piso queimado combinado com ladrilhos hidráulicos.

Além de reduzir a compra de materiais novos, essa lógica permite aproveitar recursos disponíveis na própria região. Isso ajuda a explicar a estimativa de economia apresentada pelo projeto.

De acordo com a Agência Sebrae de Notícias de Mato Grosso, as construções desenvolvidas pelo núcleo podem custar até 40% menos do que alternativas convencionais quando há reaproveitamento de materiais e uso de recursos encontrados nas proximidades. A publicação relata ainda que o acompanhamento das casas do projeto encontrou diferença média anual entre 8°C e 10°C em relação ao ambiente externo.

Esse percentual, porém, não deve ser tratado como desconto garantido para qualquer obra. Distância para transporte dos materiais, projeto estrutural, acabamento, mão de obra especializada e quanto do serviço será executado pelo próprio proprietário podem alterar bastante o orçamento.

Paredes de terra ajudam a segurar as variações de temperatura, mas não trabalham sozinhas

As paredes espessas de terra têm elevada capacidade térmica e conseguem atrasar a transferência do calor acumulado do lado externo para o interior. Na Casa de Cupim, esse comportamento é combinado com ventilação natural, posicionamento das aberturas e soluções de arquitetura bioclimática.

Isso ajuda a entender por que a diferença de temperatura não deve ser atribuída simplesmente ao uso de barro. A espessura das paredes, insolação, cobertura, orientação da casa, ventilação, umidade e características do clima interferem diretamente no resultado.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais sobre o comportamento térmico do adobe concluiu que construções de terra crua apresentam potencial para atender requisitos brasileiros de conforto térmico, mas seu desempenho depende das propriedades do material e da adequação às diferentes zonas bioclimáticas.

No caso da Casa de Cupim, a proteção contra água também foi levada em consideração. Beirais maiores e uma base elevada ajudam a impedir que chuva e umidade permaneçam em contato constante com as paredes, dois cuidados necessários em edificações feitas com terra.

A casa também trata separadamente a água do banho e o esgoto do banheiro

Família constrói casa de 70 m² com barro e materiais reaproveitados em Cáceres e registra interior até 10°C mais fresco.

A experiência da família não terminou nas paredes. O imóvel foi pensado para tratar parte dos efluentes gerados pelos moradores sem simplesmente encaminhá-los para uma mesma estrutura.

As chamadas águas cinzas, provenientes de chuveiros, pias e lavagem de roupas, seguem para um círculo de bananeiras, estrutura em que matéria orgânica, solo e plantas participam do aproveitamento da água e dos nutrientes.

Já o esgoto do vaso sanitário é destinado a uma bacia de evapotranspiração, sistema fechado utilizado como alternativa de saneamento em determinadas condições. Projetos envolvendo essa tecnologia já foram empregados inclusive em trabalhos da Fiocruz voltados a soluções sociais de saneamento, com tratamento do efluente e aproveitamento dos nutrientes pelas plantas.

A adoção de qualquer solução semelhante exige dimensionamento correto e avaliação das características do terreno, do lençol freático e do volume de esgoto produzido. Não basta cavar uma vala e plantar bananeiras para transformar a estrutura em um sistema sanitário adequado.

Experiência de uma família acabou transformando a casa em sala de aula

Com o passar dos anos, a propriedade deixou de funcionar apenas como residência experimental. A Casa de Cupim tornou-se parte do Núcleo Experimental de Permacultura e Bioconstrução do Pantanal, o NEPBio Pantanal, recebendo estudantes, visitantes e pessoas interessadas em aprender técnicas de bioconstrução.

A trajetória também ganhou um segundo imóvel. Diego e a esposa, Josiane Carioca, construíram no mesmo espaço a Casa Bambuba, novamente utilizando princípios semelhantes e adaptando materiais e técnicas às necessidades da nova moradia.

Casa Bambuba, onde moram Diego e família (Foto: Arquivo Pessoal/Diego Carioca)

O próprio Diego registrou academicamente a experiência. Em 2015, um trabalho ligado à Universidade do Estado de Mato Grosso aparece com o título “Casa de Cupim: moradia sustentável e bem estar humano; Experimentações em permacultura e bioconstrução no pantanal/cerrado de Cáceres, Mato Grosso, Brasil”, indicando que o projeto passou também pelo ambiente universitário.

Mais de uma década depois do início da construção, a casa continua funcionando como espaço de experimentação. Algumas paredes, revestimentos e técnicas foram modificados à medida que a família descobriu, pelo uso cotidiano, o que funcionava melhor para o clima de Cáceres.

A ideia não é simplesmente trocar tijolos por barro em qualquer lugar do Brasil

A própria experiência da Casa de Cupim mostra uma limitação fundamental da bioconstrução. Uma técnica que funciona em Mato Grosso pode precisar de alterações importantes para ser utilizada no Sul, Nordeste ou em uma região litorânea, porque chuvas, temperatura, umidade, solo e disponibilidade de materiais mudam.

É justamente essa adaptação que separa uma construção planejada de uma simples substituição improvisada de materiais. Paredes de terra, fundações com materiais reaproveitados e sistemas alternativos de saneamento precisam atender requisitos estruturais, sanitários e de segurança aplicáveis à obra.

A Casa de Cupim chama atenção porque reuniu essas experiências em um imóvel efetivamente utilizado pela família. Em vez de uma casa feita de um único material alternativo, tornou-se um laboratório com barro, bambu, pneus, garrafas, latas, madeira reaproveitada e técnicas tradicionais que passaram por anos de ajustes.

Você moraria em uma casa construída com barro, pneus, garrafas e materiais reaproveitados se ela custasse menos e mantivesse o interior mais fresco? Deixe sua opinião nos comentários e conte se acredita que técnicas semelhantes poderiam funcionar na sua cidade. Também queremos saber qual parte da Casa de Cupim mais chamou sua atenção.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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