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Alphaville oferece R$ 494,48 milhões por área pública de 162 hectares na região de Campinas, no interior de São Paulo, mas Justiça Federal e TCU travam negócio enquanto terreno ligado à União não pode ser transferido
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 18/08/2026 às 19:46
Atualizado em 18/08/2026 às 19:47
Economia
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Uma área de aproximadamente 1,6 milhão de m², ligada à União e ao Exército Brasileiro, virou o centro de uma disputa imobiliária, ambiental e jurídica após a Alphaville apresentar uma proposta de R$ 494,48 milhões.
O valor chama atenção porque ficou quase cinco vezes e meia acima do mínimo de R$ 90 milhões previsto no processo. Mesmo assim, a cifra milionária está longe de significar que o terreno já mudou de mãos.
Decisões da Justiça Federal e do Tribunal de Contas da União (TCU) impedem, por enquanto, que o resultado do leilão avance para as etapas mais importantes: contrato, escritura e transferência efetiva do imóvel.
Entre Campinas e Valinhos, uma imensa área verde que durante décadas esteve associada à antiga Coudelaria de Campinas passou a carregar uma cifra difícil de ignorar: R$ 494,48 milhões. Foi esse o valor apresentado pela Alphaville na licitação conduzida pela Fundação Habitacional do Exército, a FHE.
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O problema é que o resultado milionário não encerrou a história. Enquanto o mercado olha para o potencial imobiliário de uma gleba de 1.623.448,34 m², decisões judiciais e questionamentos de órgãos de controle colocaram uma barreira entre a proposta vencedora e a transferência definitiva do patrimônio.
Lance de R$ 494 milhões não significa imóvel transferido
A licitação estabelecia valor mínimo de R$ 90 milhões, mas a proposta ligada à Alphaville chegou a R$ 494,48 milhões, cerca de 5,49 vezes esse patamar. A cifra chamou atenção imediatamente e criou a percepção de que a área havia sido vendida por quase meio bilhão de reais.
Na prática, a situação é muito mais delicada. A própria FHE informou em agosto que a proposta ainda estava em fase de habilitação, enquanto duas decisões independentes impedem que o procedimento produza seus principais efeitos patrimoniais.
A 2ª Vara Federal de Campinas permitiu a realização da licitação, mas suspendeu eventual adjudicação do imóvel. Paralelamente, o Tribunal de Contas da União determinou que a FHE não assinasse contrato nem escritura decorrentes do procedimento até que os questionamentos levantados no processo fossem analisados.
Assim, a Alphaville pode ter apresentado a proposta vencedora, mas isso ainda não equivale a possuir o terreno.
Terreno ainda aparece registrado em nome da União
Outro ponto aumenta a controvérsia. O edital da própria FHE informa que o imóvel ainda constava registralmente em nome da União Federal, sob administração do Exército Brasileiro, embora a fundação sustente ter adquirido a área em um processo de remanejamento patrimonial iniciado em 2004.
A estrutura prevista exigia justamente que a gleba fosse primeiro registrada em nome da FHE para depois avançar a alienação ao comprador privado. O edital tratava a operação como uma alienação sujeita a condição suspensiva.
Isso significa que existe uma sequência patrimonial relevante: União e Exército, depois FHE e, somente após o cumprimento das condições legais, um eventual adquirente privado.
TCU questiona modelo, avaliação e mudanças na licitação
O valor de R$ 494,48 milhões também merece uma leitura cuidadosa. A proposta foi relacionada a uma participação equivalente a 30% do VGV líquido, o Valor Geral de Vendas previsto para o empreendimento.
Matematicamente, se os R$ 494,48 milhões correspondem a 30% desse montante, o negócio aponta para um VGV líquido potencial de aproximadamente R$ 1,65 bilhão.
Esse modelo está entre os elementos que despertaram questionamentos no TCU. O tribunal cobra explicações sobre avaliação do imóvel, modalidade escolhida, mudanças realizadas durante o processo, critérios econômicos, situação registral e efeitos de novas restrições ambientais e urbanísticas adotadas no município.
Nenhum desses questionamentos, até agora, significa condenação definitiva ou irregularidade comprovada. Mas são suficientes para impedir que contrato e escritura sejam assinados enquanto o mérito permanece em análise.
Valinhos endureceu proteção antes do leilão
A disputa ganhou outra camada quando Valinhos aprovou, em 19 de junho de 2026, proteção especial para a Fazenda Remonta por seu valor histórico, cultural, paisagístico e ambiental.
A região possui vegetação nativa, recursos hídricos e conexão com áreas ambientalmente relevantes. Entidades que questionam a venda defendem que a gleba exerce papel importante na drenagem, circulação de fauna e contenção da expansão urbana entre Campinas e Valinhos.
A FHE, por outro lado, afirma que qualquer futuro empreendimento continuará sujeito a todas as autorizações ambientais, municipais, estaduais e federais aplicáveis.
Quase meio bilhão na mesa, mas sem chave na mão
O caso da Fazenda Remonta expõe uma situação incomum: existe uma proposta de quase meio bilhão de reais, um dos maiores grupos de urbanização residencial do país aparece como interessado e uma área de mais de 160 hectares desperta enorme potencial econômico.
Mesmo assim, ninguém pode tratar a operação como concluída.
Enquanto Justiça Federal, TCU, FHE, União, municípios e entidades ambientais discutem os limites legais do negócio, a antiga área do Exército permanece no centro de uma disputa em que o valor financeiro é apenas uma parte do problema.
A pergunta agora é menos quanto alguém está disposto a pagar pela terra e mais simples: quem poderá, de fato, transformar esse lance de R$ 494,48 milhões em propriedade e projeto aprovado?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

