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Antes da primeira aula, mulheres sobreviventes da guerra em Ruanda produziram 450 mil tijolos, ajudaram a erguer 17 pavilhões e transformaram a obra em um centro que ensina agricultura, construção e geração de renda
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 14/08/2026 às 22:54
Atualizado em 14/08/2026 às 22:55
Construção, Indústria
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Em Kayonza, mulheres transformaram 450 mil tijolos de barro em aprendizado e renda, ajudaram a construir uma vila de 17 pavilhões e passaram a contar com um centro capaz de receber até 300 participantes em atividades de agricultura, construção, criação de animais, processamento de alimentos, captação de chuva, saneamento e comércio cooperativo
Antes que a primeira aula começasse, mulheres de Kayonza, no leste de Ruanda, já estavam aprendendo dentro do canteiro. Muitas haviam sobrevivido à guerra e participaram da produção de 450 mil tijolos de barro, utilizados na construção do centro onde estudariam.
O conjunto, datado de 2013, foi dividido em 17 pavilhões inspirados nas antigas vilas ruandesas. Em vez de concentrar centenas de pessoas dentro de um único prédio, o projeto criou salas menores, áreas de convivência, uma fazenda e um mercado.
Os detalhes foram publicados pela Sharon Davis Design, escritório responsável pelo projeto arquitetônico do centro. A estrutura pode receber até 300 participantes ao mesmo tempo em atividades voltadas à produção, ao comércio e à geração de renda.
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Os 450 mil tijolos transformaram a construção em sala de aula
As futuras participantes do centro produziram os tijolos com argila retirada de áreas próximas. Uma prensa manual, adaptada a partir de técnicas usadas na região, ajudou a dar forma e resistência às peças.
A fabricação dos 450 mil tijolos de barro não serviu apenas para abastecer a obra. O trabalho funcionou como treinamento remunerado e permitiu que as mulheres desenvolvessem conhecimentos que poderiam ser aproveitados em outras construções.
O aprendizado começou antes de qualquer curso formal. Preparar o material, acompanhar a obra e entender as etapas da construção colocou as participantes dentro de um processo que normalmente seria entregue apenas a trabalhadores especializados.
Assim, parte dos recursos investidos permaneceu na comunidade. A obra deixou os pavilhões prontos, mas também ofereceu experiência prática e uma habilidade capaz de gerar renda.
Como funciona a vila de 17 pavilhões
O Centro de Oportunidades para Mulheres não possui o formato de uma escola convencional. Seus 17 pavilhões de escala reduzida estão agrupados como uma pequena vila, com construções circulares e espaços abertos entre elas.
O desenho foi inspirado na arquitetura tradicional de Ruanda. Essa escolha cria ambientes mais próximos e acolhedores, principalmente para participantes acostumadas a viver e trabalhar em pequenas comunidades rurais.
As paredes foram montadas com espaços entre alguns tijolos. Essas aberturas facilitam a entrada de luz e a ventilação natural, além de ajudarem a reduzir o calor dentro das salas.
No centro do conjunto existe uma praça aberta ao público. É nesse espaço que alimentos, tecidos, cestos e outros produtos feitos pelas participantes podem chegar aos compradores.
Água da chuva e saneamento fora da rede
Os telhados ondulados cumprem duas funções. Eles protegem as salas e recolhem água da chuva, conduzida para estruturas de armazenamento e utilizada nas atividades do centro.
Duas construções também receberam vegetação sobre a cobertura. Essa camada aumenta a proteção contra o calor e ajuda a manter os espaços internos mais agradáveis.
O projeto inclui sanitários de compostagem, que reduzem o consumo de água e permitem o aproveitamento dos resíduos tratados. O material resultante pode ser utilizado como adubo nas áreas de cultivo.
A Sharon Davis Design, escritório responsável pelo projeto arquitetônico do centro, reuniu captação de chuva, saneamento e produção agrícola dentro do mesmo conjunto.
Agricultura e criação de animais saem da teoria
Uma fazenda de demonstração foi integrada ao centro para que as participantes pudessem aprender diretamente no terreno. O espaço aproxima as aulas das atividades que sustentam muitas famílias da região.
A formação inclui agricultura, criação de animais, armazenamento e processamento de alimentos. As mulheres aprendem não apenas a produzir, mas também a conservar e preparar os produtos para a comercialização.
Essa diferença é importante porque produzir para o consumo da própria família não exige a mesma organização necessária para vender. O comércio envolve quantidade, conservação, qualidade e planejamento.
Ao reunir aulas e trabalho prático, o centro ajuda as participantes a entender todo o caminho entre o cultivo e a venda. A proposta é transformar conhecimento rural em uma atividade econômica mais organizada.
Da construção ao negócio cooperativo
A área de mercado permite que os produtos feitos no centro sejam vendidos no próprio local. Alimentos, tecidos, cestos e outras mercadorias podem ser expostos na praça acessível ao público.
Esse espaço conecta capacitação e renda. A participante pode aprender uma atividade, produzir e encontrar um ponto de venda sem precisar começar imediatamente com uma estrutura comercial própria.
O centro também favorece a organização de cooperativas de alimentos. Nesse modelo, várias produtoras podem compartilhar equipamentos, dividir tarefas e reunir mercadorias para comercialização.
A obra, a fazenda e o mercado foram pensados como partes da mesma estratégia. Os pavilhões oferecem espaço para ensinar, enquanto a produção e o comércio criam caminhos para que o conhecimento se transforme em renda.
O centro não pode ser explicado apenas pela arquitetura
As formas circulares, os tijolos de barro e os sistemas de captação de água ajudam no funcionamento do espaço. Porém, as paredes não criam oportunidades sozinhas. O resultado depende da participação das mulheres, da qualidade das atividades e da continuidade das redes de produção e comércio.
O diferencial está na integração entre construção, agricultura, saneamento, capacitação e mercado. O centro não foi entregue como uma solução pronta, pois suas futuras usuárias participaram da fabricação do material que tornou a obra possível.
Uma obra que começou a cumprir sua função antes de ficar pronta
O Centro de Oportunidades para Mulheres mostra que uma construção pode gerar aprendizado antes mesmo de abrir as portas. Os 450 mil tijolos produzidos pelas participantes formaram uma vila capaz de receber até 300 mulheres e conectar ensino, trabalho e comércio.
Se as futuras usuárias ajudaram a construir o próprio centro, que outros projetos poderiam transformar uma obra em aprendizado e renda para a comunidade?
Fonte
Sharon Davis Design
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

