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Aos 11 anos, menino do Complexo do Alemão criou jornal em folhas A4, distribuiu mais de 100 cópias pela favela e transformou a iniciativa infantil em uma rede de comunicação com projeção nacional

Aos 11 anos, menino do Complexo do Alemão criou jornal em folhas A4, distribuiu mais de 100 cópias pela favela e transformou a iniciativa infantil em uma rede de comunicação com projeção nacional

RJ

7 min de leitura

Aos 11 anos, menino do Complexo do Alemão criou jornal em folhas A4, distribuiu mais de 100 cópias pela favela e transformou a iniciativa infantil em uma rede de comunicação com projeção nacional

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 24/08/2026 às 17:09

Atualizado em 24/08/2026 às 17:11

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Rene Silva diante do Complexo do Alemão, comunidade onde criou, aos 11 anos, um jornal em folhas A4 que deu origem ao Voz das Comunidades.

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Rene Silva começou o Voz das Comunidades em 2005 para mostrar problemas, conquistas e histórias do Morro do Adeus que raramente apareciam na imprensa; cinco anos depois, sua cobertura pelo Twitter durante a ocupação do Alemão levou o jornal comunitário ao conhecimento de leitores no Brasil e no exterior.

Enquanto grandes emissoras e jornais chegavam ao Complexo do Alemão principalmente durante operações policiais, um menino de 11 anos decidiu criar um veículo de comunicação dentro da própria favela.

Era 2005 quando Rene Silva, morador do Morro do Adeus, na Zona Norte do Rio de Janeiro, começou a produzir o jornal que mais tarde se tornaria o Voz das Comunidades.

A primeira edição foi feita em folhas de papel A4 e teve pouco mais de cem cópias. A redação funcionava na casa de sua avó, Nancy, e as notícias tratavam de assuntos muito próximos dos moradores: saneamento, lixo, infraestrutura, serviços públicos, acontecimentos locais e reivindicações da comunidade.

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O que nasceu como uma iniciativa de criança cresceu, atravessou os limites do Morro do Adeus e se transformou em uma organização dedicada a produzir informação, preservar a memória das favelas e colocar os moradores no centro das narrativas sobre os territórios onde vivem.

Interesse pelo jornalismo começou dentro da escola

Antes de criar o próprio jornal, Rene Silva teve contato com a comunicação na escola municipal onde estudava no Complexo do Alemão.

O grêmio estudantil mantinha um jornal e um programa de rádio. Rene ainda não tinha a idade estabelecida para participar, mas insistiu até conseguir uma oportunidade.

A experiência mostrou que a comunicação poderia servir para algo além de divulgar atividades escolares. Por meio de textos, entrevistas e avisos, seria possível apresentar problemas, cobrar providências e aproximar os moradores das informações que afetavam diretamente a rotina da comunidade.

De acordo com uma reportagem publicada pela revista Time, Rene observava os jornais e não reconhecia neles a favela que conhecia. A cobertura externa destacava principalmente tráfico, violência e mortes, deixando pouco espaço para cultura, educação, esporte, trabalho e vida comunitária. Time

Primeira edição circulou com mais de cem cópias

Em agosto de 2005, Rene reuniu outras crianças e colocou em circulação a primeira edição do então Voz da Comunidade.

O material tinha formato simples. As páginas eram impressas em folhas A4, reproduzidas em máquinas de cópia e distribuídas diretamente aos moradores do Morro do Adeus.

Mais de cem exemplares circularam naquela primeira experiência. Em vez de esperar que veículos externos se interessassem pelos problemas locais, o grupo começou a entrevistar moradores, organizar pautas e registrar as necessidades do território.

A publicação apresentava dificuldades de infraestrutura, cobrava melhorias e também abria espaço para conquistas e acontecimentos cotidianos. A comunicação partia de pessoas que conheciam as ruas, os becos, as famílias e os desafios do lugar.

Segundo a história oficial do projeto, a primeira redação funcionou na casa da avó Nancy, onde a pequena equipe começou a construir o trabalho que daria origem ao Voz das Comunidades. Voz das Comunidades

Jornal ajudava moradores a cobrar melhorias

Nos anos seguintes, o jornal deixou de ser uma experiência pontual e manteve sua circulação dentro da comunidade.

Problemas relacionados ao lixo, saneamento, obras e serviços públicos passaram a ocupar espaço frequente nas edições. O objetivo não era somente informar, mas criar uma ponte entre os moradores, as autoridades e os responsáveis pelos serviços públicos.

A equipe aprendia o trabalho jornalístico na prática. Era necessário ouvir as pessoas, verificar as reclamações, produzir os textos, organizar a edição e distribuir os exemplares.

Em 2008, durante uma grande enchente nas avenidas Itaoca e Democráticos, a fotografia ganhou espaço na cobertura. Os registros dos impactos sofridos pelos moradores reforçaram a função do jornal como instrumento de informação e memória comunitária.

Crianças produzem um jornal comunitário em uma casa de favela carioca, representando o início do Voz das Comunidades e o protagonismo dos moradores na construção das próprias narrativas.

Twitter levou notícias do Alemão para fora da favela

Em 2009, o Voz criou seu perfil no Twitter. A rede social permitia divulgar informações locais rapidamente e estabelecer contato direto com pessoas que estavam fora do Complexo do Alemão.

Essa estrutura ganhou importância no ano seguinte.

Durante a ocupação policial do Complexo do Alemão, em novembro de 2010, Rene e outros colaboradores passaram a relatar pela internet o que acontecia dentro da comunidade. Enquanto equipes de imprensa acompanhavam parte da movimentação a distância, os jovens publicavam informações a partir do próprio território.

A cobertura feita por moradores alcançou leitores de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. Rene, então com 17 anos, passou a ser procurado por jornalistas que buscavam compreender a situação no interior do Alemão.

O episódio revelou uma diferença fundamental: os moradores deixavam de aparecer somente como personagens das reportagens e se tornavam fontes, repórteres e produtores das próprias informações.

Iniciativa se transformou em organização social

A projeção conquistada em 2010 ampliou as atividades do Voz das Comunidades, mas o projeto continuou ligado à proposta inicial de prestar serviço e mostrar a favela a partir do olhar de seus moradores.

Em 2011, a iniciativa recebeu o Prêmio ANU, promovido pela Central Única das Favelas, e fortaleceu ações comunitárias como o projeto Por Um Natal Melhor.

Nos anos seguintes, integrantes participaram de intercâmbios de jornalismo comunitário, apresentaram a experiência do projeto fora do país e desenvolveram novas iniciativas culturais e sociais.

Em 2015, o Voz se estruturou formalmente como organização, reunindo jornalismo, responsabilidade social e promoção cultural. O trabalho também passou a alcançar outras favelas do Rio de Janeiro.

Além do jornal impresso, a organização desenvolveu portal de notícias, vídeos, aplicativo, redes sociais, projetos de checagem e campanhas de assistência aos moradores.

Comunicação também ganhou função social durante a pandemia

Durante a pandemia de Covid-19, o Voz das Comunidades criou um painel para acompanhar os casos registrados nas favelas cariocas.

A iniciativa buscava preencher lacunas das estatísticas oficiais e organizar informações sobre territórios que nem sempre apareciam de maneira detalhada nos levantamentos públicos.

O projeto também utilizou seus canais para divulgar orientações de saúde, combater informações falsas e organizar ações de apoio às famílias afetadas pela crise.

Em 2022, o painel acompanhava dados de aproximadamente 40 favelas. A atuação demonstrou como uma estrutura inicialmente criada para distribuir um jornal em folhas A4 havia se transformado em uma rede capaz de produzir informações relevantes para diferentes comunidades.

Rene Silva recebeu reconhecimento internacional

A trajetória de Rene Silva passou a ser apresentada em universidades, eventos e encontros sobre comunicação comunitária.

Em 2018, ele foi reconhecido em Nova York pelo MIPAD, iniciativa que destaca personalidades negras influentes. Em 2023, a revista Time o incluiu entre seus Líderes da Nova Geração, ressaltando o trabalho realizado pelo Voz das Comunidades.

No ano seguinte, o jornal chegou à centésima edição impressa e ampliou sua participação em debates sobre políticas públicas e o futuro das favelas.

Em 2025, o projeto completou 20 anos. Segundo o próprio Voz, a trajetória iniciada com pouco mais de cem cópias já somava centenas de milhares de exemplares distribuídos gratuitamente e havia contribuído para a formação de novas gerações de comunicadores comunitários.

Jornal preservou a ideia criada quando Rene tinha 11 anos

O crescimento do Voz das Comunidades alterou sua estrutura, seus canais e o alcance das reportagens. A proposta central, porém, permaneceu próxima daquela formulada em 2005.

A organização continua tratando de problemas públicos, cultura, educação, esporte, oportunidades, direitos, violência e acontecimentos cotidianos a partir da perspectiva de quem vive nas comunidades.

A história de Rene Silva não se limita à transformação de um jornal infantil em uma organização reconhecida. Ela mostra como a autoria pode mudar a forma pela qual um território é apresentado.

Em vez de esperar que pessoas de fora explicassem o Complexo do Alemão, um menino de 11 anos reuniu outras crianças, imprimiu mais de cem cópias em folhas A4 e começou a contar a favela por dentro.

Você acredita que o jornalismo produzido pelos próprios moradores consegue mostrar aspectos das comunidades que raramente aparecem na cobertura dos grandes veículos? Compartilhe sua opinião nos comentários.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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