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Aos 13 anos, menina seguiu os passos da mãe, da tia e da avó e começou a trabalhar como empregada doméstica, passou sete anos limpando casas de outras famílias e, décadas depois, conquistou um doutorado transformando em pesquisa acadêmica as relações de poder, desigualdade e dignidade que conheceu na própria pele
Escrito por Ana Alice
Publicado em 11/08/2026 às 15:18
Atualizado em 11/08/2026 às 15:19
Curiosidades
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A trajetória de Thobeka Ntini-Makununika atravessa trabalho doméstico, universidade e pesquisa acadêmica, conectando a experiência de três gerações de mulheres a um estudo sobre poder, dignidade e relações de trabalho na África do Sul.
Quando Thobeka Ntini-Makununika subiu ao palco da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, para receber o doutorado em Serviço Social, em 6 de maio de 2025, a conquista acadêmica carregava uma história que havia começado muito antes das salas de aula universitárias.
Aos 13 anos, ela já trabalhava parcialmente como empregada doméstica para famílias brancas e também em resorts de férias.
O trabalho se estendeu por sete anos, até os 20.
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Antes dela, sua mãe, sua tia e sua avó também haviam encontrado no serviço doméstico uma forma de sobrevivência.
Décadas mais tarde, justamente essa experiência familiar e pessoal se transformaria no ponto de partida de uma pesquisa sobre as relações de poder entre trabalhadoras domésticas e empregadoras na África do Sul.
A trajetória ganhou ainda mais simbolismo na formatura.
Thobeka apareceu com um uniforme de trabalhadora doméstica sob a beca acadêmica, em homenagem às mulheres de sua família e às trabalhadoras cuja realidade ajudou a estudar.
Poucas semanas depois, em 29 de maio de 2025, seu doutorado seria mencionado formalmente na Assembleia Nacional sul-africana, que aprovou uma moção de reconhecimento ao trabalho.
Sua tese não procurou apenas narrar o que acontece dentro das casas.
A pesquisadora entrevistou trabalhadoras e empregadoras para investigar como autoridade, dependência, classe, raça, gênero, resistência e vulnerabilidade aparecem em relações profissionais que acontecem em um ambiente especialmente particular: a residência de outra pessoa.
“Educação, para mim, é resistência”, afirmou Thobeka ao recordar o caminho que a levou até o doutorado.
Thobeka Ntini-Makununika começou no trabalho doméstico aos 13 anos
Thobeka cresceu cercada por mulheres negras africanas que trabalharam como domésticas.
Sua mãe, sua tia e sua avó fizeram parte dessa história.
Quando chegou aos 13 anos, ela própria começou a trabalhar parcialmente para famílias brancas e em estabelecimentos de férias.
A atividade continuou durante sete anos.
A experiência significava entrar em casas que pertenciam a outras famílias, executar tarefas e observar de perto relações em que trabalho e vida privada conviviam no mesmo espaço.
Anos depois, essas memórias deixariam de ser apenas parte de sua biografia.
Elas ajudariam Thobeka a formular perguntas acadêmicas sobre algo que conhecia por experiência própria: quem estabelece os limites dentro de uma casa quando uma pessoa é proprietária daquele espaço e outra depende dele como local de trabalho?
A Universidade de KwaZulu-Natal explicou, ao apresentar sua trajetória em maio de 2025, que a pesquisadora partiu dessa posição incomum.
Ela não chegou ao tema apenas como observadora externa, mas como alguém cuja família atravessou gerações de trabalho doméstico e que também havia exercido a atividade.
Doutorado transformou experiência como doméstica em pesquisa acadêmica
O trabalho recebeu o título “Desvendando as dinâmicas de poder nas relações entre empregadores e trabalhadoras domésticas na África do Sul contemporânea, KwaZulu-Natal: pesquisa orientada pela práxis”.
O estudo investiga as relações de poder entre empregadores e trabalhadoras domésticas na África do Sul contemporânea, com foco na província de KwaZulu-Natal e uma abordagem voltada à relação entre reflexão e prática.
A tese está registrada no repositório oficial da Universidade de KwaZulu-Natal como um doutorado em Serviço Social, concluído academicamente em 2024.
A cerimônia de graduação ocorreu no ano seguinte.
Para chegar às conclusões, Thobeka trabalhou com 38 participantes adultos.
Desse total, 26 eram mulheres negras africanas que trabalhavam como domésticas.
Outras 12 eram empregadoras, divididas igualmente entre mulheres negras africanas, indianas e brancas.
A pesquisa utilizou entrevistas individuais aprofundadas e discussões em grupo.
Em vez de simplesmente reunir respostas e tratá-las como números, a proposta foi observar como as próprias participantes descreviam poder, respeito, limites, dependência e resistência dentro das relações de trabalho.
Relação entre patrões e domésticas foi analisada pela pesquisadora
Um dos pontos centrais do doutorado foi mostrar que as relações dentro do trabalho doméstico não podiam ser resumidas apenas à imagem de uma empregadora sempre poderosa diante de uma trabalhadora completamente sem poder.
Segundo a pesquisa, apareceram situações de vigilância e controle, mas também episódios nos quais trabalhadoras estabeleciam limites, resistiam a determinadas condutas ou encontravam maneiras de exercer sua própria capacidade de decisão.
Do outro lado, algumas empregadoras também demonstraram vulnerabilidade ou dependência em relação às pessoas responsáveis pelo trabalho cotidiano dentro da residência.
Essa combinação fez Thobeka observar uma relação mais complexa, na qual poder e dependência podem assumir diferentes formas dentro da mesma casa.
O estudo não eliminou a importância de raça, gênero e desigualdade histórica.
Ao contrário, a tese considera esses elementos fundamentais para compreender o trabalho doméstico na África do Sul, país cuja organização social foi profundamente marcada pela segregação racial e pelo apartheid.
Ao mesmo tempo, os relatos encontrados pela pesquisadora mostraram que raça, sozinha, não explicava todos os conflitos.
Entre as experiências registradas durante o trabalho de campo, algumas trabalhadoras negras disseram que haviam vivido seus piores episódios profissionais com empregadores negros.
Thobeka interpretou esses depoimentos como um sinal de que classe social, posição econômica e hierarquia também influenciam a maneira como o poder é exercido no ambiente doméstico.
Isso não significa que a pesquisa tenha concluído que raça perdeu importância.
O próprio doutorado aborda como diferentes estruturas de opressão e privilégio podem se cruzar.
A diferença é que os resultados evitaram reduzir todas as relações a uma única explicação.
Outro detalhe chamou a atenção da pesquisadora.
Algumas empregadoras conseguiam informar com precisão o horário em que começavam e encerravam seus próprios expedientes profissionais, mas não demonstravam a mesma clareza quando questionadas sobre a jornada das trabalhadoras que atuavam em suas casas.
Para Thobeka, esse contraste revelava como o tempo de uma funcionária podia receber um valor diferente dentro da relação.
Pesquisa sobre domésticas trouxe antigas lembranças de volta
Transformar a própria história em pesquisa também teve um custo emocional.
Durante o trabalho de campo, Thobeka ouviu relatos sobre demissões sem pagamento e episódios de discriminação racial.
Algumas dessas histórias faziam suas próprias lembranças reaparecerem, obrigando-a a interromper momentos do processo para assimilar o que havia escutado.
A pesquisadora, porém, não conduzia o estudo exclusivamente a partir de sua experiência pessoal.
Os depoimentos das participantes, entrevistas, grupos de discussão e análise acadêmica formaram a base empírica da tese.
Um examinador destacou posteriormente o alcance e a originalidade do trabalho de campo realizado.
Thobeka também relacionou sua formação à experiência profissional na Universidade de Zululand, instituição historicamente desfavorecida na África do Sul.
Segundo ela, trabalhar naquele ambiente ampliou sua atenção para desigualdades estruturais.
Registros acadêmicos da própria Universidade de Zululand também mostram seu nome associado a pesquisas na área de Serviço Social.
Doutorado de Thobeka Ntini-Makununika chegou ao Parlamento sul-africano
A repercussão do doutorado ultrapassou o ambiente universitário.
Em 29 de maio de 2025, pouco mais de três semanas depois da cerimônia de graduação, a Assembleia Nacional da África do Sul registrou uma moção sobre a importância da tese de Thobeka.
O texto parlamentar destacou que ela havia sido uma trabalhadora doméstica de terceira geração, atuando parcialmente entre os 13 e os 20 anos, e reconheceu sua contribuição para tornar mais visíveis experiências e vulnerabilidades dessas profissionais.
A moção também citou a necessidade de promover dignidade, autonomia e reconhecimento das trabalhadoras domésticas e foi aprovada pela Casa.
O reconhecimento dá outra dimensão à história.
O que começou como uma experiência de trabalho ainda na adolescência acabou retornando, anos depois, ao debate público do país na forma de pesquisa acadêmica.
Trabalho doméstico na África do Sul ganhou novo salário mínimo
A discussão feita pela tese continua atual porque o trabalho doméstico permanece uma atividade regulamentada e relevante na África do Sul.
Desde 1º de março de 2026, trabalhadoras domésticas estão incluídas no novo salário mínimo nacional de 30,23 rands por hora, de acordo com o Departamento de Emprego e Trabalho do país.
O valor é um piso legal que os empregadores precisam respeitar.
A legislação, entretanto, responde apenas a uma parte do problema abordado por Thobeka.
Sua pesquisa concentra-se também naquilo que pode ser mais difícil de colocar em uma regra escrita: reconhecimento, limites, autonomia, respeito ao tempo da trabalhadora e relações de poder construídas no cotidiano de uma residência.
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Ana Alice
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Foi por isso que a pesquisadora defendeu que mudanças legais deveriam ser acompanhadas de uma transformação na maneira como esse trabalho é percebido.
Para ela, a ideia africana de Ubuntu, associada à humanidade compartilhada e à relação entre pessoas, pode ajudar a orientar práticas que reconheçam a dignidade de quem trabalha dentro das casas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

