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Aos 16 anos, jovem indígena guarani-kaiowá brilhava no Atlético-MG e sonhava com a Seleção Brasileira, mas abriu mão dos gramados para estudar Medicina, formou-se anos depois e voltou para a própria aldeia como a primeira médica de seu povo, atendendo famílias que a viram crescer
Escrito por Ana Alice
Publicado em 13/08/2026 às 22:40
Atualizado em 13/08/2026 às 22:41
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Da base do Atlético-MG à formação em Medicina, a trajetória de Dara Ramires Lemes reúne futebol, vestibular, retorno à aldeia e uma nova etapa acadêmica que continuou avançando anos depois.
Antes de aparecer com jaleco na comunidade onde nasceu, Dara Ramires Lemes usava outra roupa capaz de definir uma carreira: a camisa do Atlético-MG.
A indígena guarani-kaiowá chegou a deixar Mato Grosso do Sul aos 16 anos para jogar futebol em Belo Horizonte, participou de competições pelo clube e alimentava o sonho de chegar à Seleção Brasileira.
O caminho mudou quando ela percebeu que não conseguiria manter, ao mesmo tempo, a rotina de treinos e a preparação necessária para entrar em Medicina.
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Anos depois, Dara se tornou a primeira médica guarani-kaiowá e voltou à aldeia Te’ýikue, em Caarapó (MS), para atender a própria comunidade, inclusive pessoas que haviam acompanhado sua infância.
A trajetória não parou naquele retorno.
Em 2026, o Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina passou a listar Dara entre os ingressantes que já haviam realizado matrícula online na residência médica de Endocrinologia e Metabologia.
O registro oferece uma atualização concreta sobre a formação da médica anos depois da história que ganhou repercussão nacional durante a pandemia.
Residência médica marca nova etapa na trajetória de Dara Ramires Lemes
A lista oficial da residência médica da UFSC coloca o nome de Dara Ramires Lemes entre os ingressantes de 2026 em Endocrinologia e Metabologia.
A especialidade é voltada ao diagnóstico e tratamento de alterações hormonais e metabólicas, incluindo condições relacionadas à tireoide, diabetes e outras doenças do sistema endócrino.
O documento não permite afirmar onde Dara mantém residência permanente nem como está organizada atualmente sua atuação profissional fora do programa.
Ainda assim, o registro confirma que a formação iniciada depois da saída do futebol continuou avançando mais de uma década após sua entrada na universidade.
Esse novo capítulo ajuda a colocar em perspectiva uma escolha feita quando ela ainda era adolescente.
Antes das provas, do curso médico e do atendimento em uma aldeia, havia treinos, campeonatos e uma possibilidade real de seguir no futebol.
Aos 16 anos, Dara deixou a aldeia para jogar no Atlético-MG
Dara nasceu e cresceu na aldeia Te’ýikue, em Caarapó, no sul de Mato Grosso do Sul.
O futebol apareceu cedo como uma oportunidade de seguir uma trajetória fora da comunidade.
Aos 16 anos, mudou-se para Belo Horizonte para integrar o futebol feminino do Atlético Mineiro.
Em entrevista ao UOL, contou que atuava como meia-atacante e meia-direita e, em algumas ocasiões, como volante.
Ela participou de competições como Copa do Brasil Feminina, Copa Mineiro e Taça BH.
O técnico Wellison Bitencourt, que trabalhou com Dara no Atlético, relatou ao UOL em 2021 que ela havia sido a única aprovada entre cerca de 350 atletas em uma peneira realizada pelo clube.
Segundo ele, a jogadora tinha velocidade, capacidade de condução da bola e facilidade para finalizar com os dois pés.
A passagem também incluiu um título estadual.
Mesmo assim, depois da temporada 2012-2013, a possibilidade de transformar o esporte em profissão começou a perder espaço para outro objetivo.
Sonho da Seleção Brasileira deu lugar aos estudos para Medicina
Dara afirmou que gostava de futebol e chegou a pensar em jogar pela Seleção Brasileira.
A rotina, porém, exigia uma escolha.
“Eu tinha que estudar, e não dava para conciliar futebol e o sonho de ser médica, então desisti e tornei esse esporte um hobby”, contou em entrevista publicada pelo UOL em janeiro de 2015.
A decisão significava retornar a Caarapó e começar outra preparação competitiva, desta vez fora dos gramados.
Entrar em Medicina também não aconteceu na primeira tentativa.
Aos 17 anos, Dara prestou vestibular e não conseguiu aprovação.
Depois disso, passou a frequentar um cursinho pré-vestibular noturno.
O deslocamento até as aulas chegava a cerca de 50 quilômetros a partir da aldeia, e o custo representava um peso para a família, segundo o relato da estudante na época.
Preparação para o vestibular chegava a dez horas de estudo por dia
Durante o período de vestibular, Dara ajudava o pai no comércio mantido dentro da aldeia.
Quando não apareciam clientes, aproveitava o tempo para estudar.
Segundo ela, a preparação podia chegar a dez horas por dia, combinando exercícios, simulados, videoaulas e estudos depois do cursinho.
“Se sobravam 10 minutos, para mim era lucro”, relatou ao descrever a rotina em 2015.
O resultado apareceu no processo seletivo seguinte.
Aos 19 anos, Dara foi aprovada em Medicina em duas universidades federais: a Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, e a Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Nas duas seleções, ficou em primeiro lugar entre os candidatos que disputavam as vagas pelo sistema de cotas, segundo a reportagem publicada naquele ano.
Ela escolheu a UFSM.
Na universidade gaúcha, eram 121 candidatos concorrendo às duas vagas da modalidade pela qual Dara foi aprovada.
Medicina já fazia parte dos planos antes do futebol
Embora a carreira esportiva quase tenha mudado seus planos, Dara já falava em ser médica antes de vestir a camisa do Atlético.
Em 2015, contou ao UOL que tinha esse objetivo desde os sete anos.
A intenção declarada era voltar e trabalhar com os moradores da própria comunidade.
“Esse é um dos meus objetivos, ajudar minha comunidade, mas também pretendo trabalhar em outros lugares”, afirmou quando ainda se preparava para deixar Mato Grosso do Sul e iniciar a graduação.
O curso exigiu uma nova mudança para longe da família, dessa vez para Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
A experiência anterior em Belo Horizonte ajudou na adaptação, segundo o relato que Dara faria anos mais tarde.
A diferença estava no destino da viagem.
No primeiro deslocamento, ela havia saído de casa para jogar futebol.
No segundo, carregava a perspectiva de voltar como médica.
Assista o vídeo
Formatura em Medicina ocorreu no fim de 2020
Dara concluiu Medicina no final de 2020, aos 25 anos.
Com o diploma, tornou-se a primeira médica guarani-kaiowá e regressou à Te’ýikue.
O retorno coincidiu com uma das fases mais críticas da pandemia de covid-19.
Em vez de iniciar a profissão distante da comunidade, passou a trabalhar no atendimento aos moradores da própria aldeia.
Na reportagem publicada em abril de 2021, o local era descrito com cerca de quatro mil habitantes e aproximadamente 400 famílias atendidas pela equipe de saúde.
Além do trabalho na comunidade, Dara fazia plantões em um hospital da região nos fins de semana.
Naquele período, parte de sua rotina estava ligada ao atendimento primário e à prevenção da covid-19, além da orientação dos moradores sobre vacinação.
Língua guarani aproximou médica e pacientes na aldeia Te’ýikue
A volta de Dara tinha uma característica que o diploma sozinho não explicava.
A médica conhecia o território, as famílias e a língua utilizada por parte dos pacientes.
Ao falar sobre os atendimentos, ela afirmou perceber uma proximidade diferente quando as pessoas da aldeia encontravam alguém da própria comunidade na função de médica.
“Quando os pacientes da minha terra olham para mim, sentem empatia, e me bate uma grande responsabilidade e um orgulho imenso de fazer o melhor”, disse ao UOL em 2021.
O guarani também fazia parte das consultas.
A possibilidade de conversar com pacientes na língua indígena reduzia uma barreira que Dara já havia mencionado anos antes, quando ainda era vestibulanda e falava sobre o desejo de trabalhar na própria comunidade.
Dessa forma, a formação universitária acrescentou conhecimento médico a uma experiência cultural e linguística que ela já carregava desde a infância.
Antigo professor de Dara acabou sendo atendido por ela
Entre os moradores atendidos por Dara estava Rogério Vilhalva Mota, liderança da aldeia e diretor de uma escola local.
Antes disso, porém, ele havia ocupado outro papel em sua vida.
Rogério foi professor de Matemática de Dara quando ela era criança.
Anos depois, encontrou a ex-aluna do outro lado do atendimento médico.
“Quando ela começou a me atender me passou um filme na cabeça. Me lembro dela, quando era pequenininha, brincando”, relatou ao UOL em 2021.
O encontro condensava uma mudança ocorrida ao longo de poucos anos.
A estudante que havia saído da aldeia para tentar uma carreira esportiva e depois atravessado o país para cursar Medicina retornava com outra função dentro do mesmo lugar onde havia estudado.
Futebol permaneceu como hobby depois da Medicina
Abandonar a possibilidade de seguir profissionalmente no esporte não significou romper com o futebol.
Dara afirmou posteriormente que a modalidade havia virado um hobby.
Também revelou uma particularidade curiosa para alguém que defendeu o Atlético-MG: sua torcida era pelo Corinthians.
A passagem pelos gramados permaneceu como uma das primeiras etapas de uma trajetória que tomou outra direção.
Em um intervalo de poucos anos, a adolescente que disputava campeonatos em Belo Horizonte voltou a Caarapó, enfrentou vestibulares, mudou-se novamente para estudar no Rio Grande do Sul e concluiu seis anos de formação médica.
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Depois veio o retorno à Te’ýikue durante a pandemia.
Mais tarde, novos registros acadêmicos e profissionais passaram a mostrar outras etapas dessa formação.
Em 2026, o nome de Dara aparece oficialmente entre os médicos matriculados na residência de Endocrinologia e Metabologia da UFSC, quase 15 anos depois da época em que a possibilidade de chegar à Seleção Brasileira ainda concorria com os livros por espaço em sua rotina.
Entre o campo de futebol onde jogava aos 16 anos e o atendimento médico realizado na comunidade onde cresceu, uma decisão mudou completamente a profissão que Dara levaria para a vida.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

