Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Aos 18 anos, filha de garis faz o ensaio de formatura nas próprias ruas que os pais varrem e revela que caminhava duas horas a pé até a escola para poder estudar em Quixadá

Aos 18 anos, filha de garis faz o ensaio de formatura nas próprias ruas que os pais varrem e revela que caminhava duas horas a pé até a escola para poder estudar em Quixadá

5 min de leitura

Aos 18 anos, filha de garis faz o ensaio de formatura nas próprias ruas que os pais varrem e revela que caminhava duas horas a pé até a escola para poder estudar em Quixadá

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 07/08/2026 às 08:54

Atualizado em 07/08/2026 às 08:55

Curiosidades

Canal

Formatura de filha de garis em Quixadá virou homenagem aos pais nas ruas que eles varrem, e ela caminhava duas horas por dia para chegar à escola.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Vanessa dos Santos concluiu em dezembro o ensino médio e o curso técnico em informática. Ela mora no bairro Monte Alegre com os pais e quatro irmãos, e o trajeto até as escolas, no centro da cidade, era feito a pé todos os dias.

O ensaio de formatura de Vanessa dos Santos, de 18 anos, ocorreu em dezembro de 2019, foi feito no centro de Quixadá, no Sertão Central do Ceará, exatamente onde os pais dela trabalham como garis, conforme reportagem publicada pelo Diário do Nordeste. As imagens circularam nas redes sociais e provocaram forte repercussão.

A distância entre a casa e a escola é o detalhe que dimensiona o esforço por trás daquelas fotos. Ela caminhava duas horas por dia para chegar ao centro da cidade, trajeto que fazia a partir do bairro Monte Alegre, onde mora com os pais e quatro irmãos.

Duas conclusões no mesmo mês

O que ela encerrou em dezembro não foi um curso, foram dois. Concluiu o ensino médio no Colégio Coronel Virgílio Távora e o técnico profissionalizante em informática na escola Maria Cavalcante Costa, conhecida como Liceu de Quixadá.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Conciliar as duas formações significa dobrar carga horária em um mesmo período, situação que já é pesada para quem estuda perto de casa.

No caso dela, havia o deslocamento somado a isso. Duas horas a pé por dia, todos os dias letivos, antes ou depois de uma jornada dupla de estudo, sem transporte e sem alternativa.

A ideia foi do fotógrafo

Moisés, Vanessa, Iracilda e o irmão mais novo.
Foto: Cleyton de Paula

O ensaio no local de trabalho dos pais não partiu dela, e sim de quem estava atrás da câmera. O fotógrafo Cleyton de Paula teve a ideia depois de saber que ela queria ser fotografada ao lado dos pais.

Ele buscou a estudante e um dos irmãos mais novos em casa e os levou ao centro de Quixadá sem avisar o casal, que estava em serviço naquele momento.

A reação dos dois foi de espanto seguido de emoção. Moisés descreveu o momento como muita emoção e surpresa, e disse ter se lembrado, ao ver a filha de beca ali na rua, das dificuldades que atravessou ao longo da vida para garantir o sustento da família.

Os pais que trabalham lado a lado

Moisés é gari há mais de 20 anos e Iracilda há menos de um mês
Foto: Cleyton de Paula

O casal não divide apenas a casa. Moisés e Iracilda trabalham juntos na limpeza urbana do centro da cidade, e Vanessa atribui isso ao vínculo entre os dois.

O tempo de cada um na função, porém, é bem diferente. Ele exerce a atividade há mais de duas décadas, enquanto ela havia começado poucas semanas antes do ensaio.

Nenhum dos dois concluiu o ensino fundamental. Foi justamente por isso que sempre incentivaram os filhos a irem além, transformando em cobrança positiva a oportunidade que não tiveram.

Menos de R$ 300 por mês

A estudante homenageou os pais com o ensaio de formatura no local que trabalho deles
Foto: Cleyton de Paula

Há um período específico que Moisés menciona ao lembrar das dificuldades, e ele ajuda a entender o peso daquela cena no centro da cidade.

Ele passou dois anos morando em Fortaleza, à procura de emprego, enquanto a esposa e os filhos permaneciam em Quixadá.

Durante esse tempo, a família se sustentava com menos de R$ 300 por mês. Era isso que precisava cobrir alimentação, moradia e material escolar de uma casa com cinco crianças, e é esse intervalo que ele evocou ao ver a filha formada.

O apelido que ela ouvia na escola

A relação dela com a profissão dos pais não foi construída sem atrito, e ela fala abertamente sobre isso.

Durante o ensino fundamental, colegas de turma a chamavam de filha do lixeiro. O apelido era usado como provocação.

A resposta dela foi de recusa a absorver aquilo. Segundo o relato, ela se sentia mais forte diante das provocações e nunca ficou triste com elas, porque entendia que o erro não estava nela, e sim em quem falava.

O orgulho que ela declara

 A estudante dos Santos homenageou os pais com o ensaio de formatura no local que trabalho deles
Foto: Cleyton de Paula

Perguntada sobre os pais, ela não fala em sacrifício nem em pobreza. Fala em postura.

Ela afirma sempre ter tido orgulho dos pais que tem e admirado a atitude deles, que nunca abaixaram a cabeça para ninguém porque sabiam que tinham alguém para cuidar.

É essa leitura que dá sentido à escolha do cenário. O ensaio não foi feito apesar do trabalho dos pais, foi feito por causa dele, com a beca e o uniforme de gari dividindo o mesmo enquadramento.

A segunda da casa a chegar até aqui

O feito não é isolado dentro da família, mas ainda é recente. Vanessa é a segunda dos cinco irmãos a concluir o ensino médio.

A irmã mais velha, de 20 anos, concluiu em 2018, o que significa que a formação completa da educação básica só passou a existir naquela casa nos últimos dois anos.

O passo seguinte, esse sim, seria inédito. Ela pretende cursar licenciatura em História na Universidade Estadual do Ceará e se tornar a primeira da família a chegar ao ensino superior.

O sonho que a conta não deixa realizar

Existe um plano original que ela já admitia não ser o mais provável. O desejo inicial era estudar na capital.

As dificuldades financeiras, porém, tornam mais realista a permanência em Quixadá, com estudo no campus da própria cidade.

É um ajuste que quem vem do interior conhece bem. Aprovação em universidade pública resolve a vaga, não resolve aluguel, alimentação e transporte em outra cidade, e é essa conta que costuma redefinir o destino de quem passa.

Uma beca no meio da rua varrida

O que fez essas imagens circularem não é a formatura em si. É a justaposição entre dois uniformes que raramente aparecem juntos.

De um lado, a beca, símbolo de conclusão de etapa escolar. Do outro, o colete e a vassoura de quem varre a mesma rua todos os dias.

A distância entre as duas coisas costuma ser tratada como abismo social. Naquela foto, ela cabe dentro de uma única família, e foi atravessada a pé, duas horas por dia.

E você, já viu uma homenagem de formatura que te marcou assim? Acha que gestos como esse mudam a forma como as pessoas olham para profissões como a de gari? Conta nos comentários o que a sua família fez para você poder estudar.

Tags

estudanteFormatura


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

Sair da versão mobile