Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Aos 21 anos, coletor de lixo que entrou no caminhão há cinco anos para pagar a faculdade sai da colação de grau em Direito de beca e vai posar com o diploma ao lado do próprio caminhão, junto dos colegas de rota

Aos 21 anos, coletor de lixo que entrou no caminhão há cinco anos para pagar a faculdade sai da colação de grau em Direito de beca e vai posar com o diploma ao lado do próprio caminhão, junto dos colegas de rota

7 min de leitura

Aos 21 anos, coletor de lixo que entrou no caminhão há cinco anos para pagar a faculdade sai da colação de grau em Direito de beca e vai posar com o diploma ao lado do próprio caminhão, junto dos colegas de rota

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 08/08/2026 às 09:09

Atualizado em 08/08/2026 às 09:10

Curiosidades

Canal

Coletor de lixo em Matamoros pagou a faculdade de Direito com o salário e foi de beca até o caminhão para posar com o diploma junto dos colegas.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Acordava às seis da manhã, ia para a faculdade, subia no caminhão à tarde e voltava para casa à meia-noite. Foram quatro anos assim, em Matamoros, no México. No dia em que recebeu o diploma de Direito, o coletor de lixo José Israel Hernández Chávez foi de beca até o pátio da limpeza pública.

Aos 21 anos, o coletor de lixo José Israel Hernández Chávez se formou em Direito pela Universidad de Matamoros, no estado mexicano de Tamaulipas, e escolheu comemorar de um jeito que fez a história rodar o mundo: em vez de guardar o diploma, foi até o local de trabalho ainda de beca e capelo e posou ao lado do caminhão de coleta em que trabalha todos os dias, segundo reportagem publicada pelo site Infobae em 20 de fevereiro de 2024.

As fotos foram para o Facebook na sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024, e viralizaram em poucos dias. Nas imagens aparecem a família, a namorada e os colegas de rota, todos ao redor de um rapaz de toga segurando um título de advogado em pé sobre um caminhão de lixo. A conta que sustentou aquele diploma foi paga com o salário da limpeza pública.

Seis da manhã à meia-noite, quatro anos seguidos

A rotina que ele descreveu depois é o detalhe que separa essa história de um caso comum de esforço. Não havia turno alternado nem semestre de folga. Ele levantava às seis da manhã, ia para a faculdade no período da manhã e, à tarde, subia no caminhão de limpeza para percorrer bairro por bairro recolhendo lixo. Voltava para casa à meia-noite.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Esse ciclo se repetiu por quatro anos, o tempo inteiro da graduação. Ninguém descansa e ninguém tem tempo para diversão em uma rotina de dezoito horas entre sala de aula e caminhão, e foi assim que ele resumiu o período em entrevistas concedidas à imprensa mexicana depois da repercussão. Estudar e trabalhar de sol a sol era a única forma de terminar o curso.

O trabalho em si não facilitava nada. Ele conta que a parte mais dura era o esforço físico somado aos horários, e que enfrentou sol, chuva e vento nas rotas de coleta. Não é o tipo de emprego que sobra energia para estudar depois.

Fajinero: o nome do ofício em Matamoros

O jovem, feliz com seu diploma universitário, compartilhou várias fotos em sua conta do Facebook (Israel Hernández)

No município de Matamoros, quem faz esse trabalho é chamado de fajinero, e o cargo pertence ao Departamento de Limpieza Pública, a estrutura municipal de limpeza urbana. Foi ali que Hernández Chávez trabalhou como coletor de lixo durante cinco anos, começando antes de entrar na faculdade e seguindo depois de se formar.

A antecedência importa para entender a lógica da história. Ele não pegou o emprego como bico temporário para atravessar uma fase difícil da graduação. O caminhão veio primeiro, e a faculdade só existiu porque o caminhão bancou. Ele mesmo já afirmou que terminou o curso com base no trabalho como coletor de lixo, e que tem orgulho de ter saído da limpeza pública para mostrar aos jovens que é possível.

Em Matamoros, cidade fronteiriça com os Estados Unidos, o cenário econômico não oferece muitas rotas alternativas para quem quer estudar sem apoio familiar. Trabalhar em serviço público municipal de limpeza é uma das opções que garantem salário fixo e permitem conciliar horário com aula.

A foto que ele decidiu publicar

Israel posou para foto com seus colegas e amigos após sua formatura.

O dia da formatura teve dois atos. O primeiro foi a cerimônia formal na Universidad de Matamoros, com a entrega do título de licenciado em Direito. O segundo foi a decisão de não trocar de roupa.

Ainda de toga e capelo, com o diploma na mão, ele foi até o centro de trabalho no mesmo dia. Subiu no caminhão de coleta, posou para as fotos e publicou tudo. A escolha de não esconder a origem foi justamente o que transformou uma formatura comum em assunto nacional. Ele explicou depois que decidiu compartilhar o resultado nas redes sociais para que a história chegasse a mais pessoas que acreditam ser impossível juntar trabalho pesado e faculdade.

As imagens circularam rápido. Em poucos dias, o caso já estava em portais mexicanos, em veículos de outros países da América Latina e em publicações internacionais. A força da foto está no contraste imediato: os símbolos mais tradicionais do diploma universitário posicionados exatamente sobre o veículo que a maioria das pessoas associa ao oposto da vida acadêmica.

O que ele escreveu na publicação

O texto que acompanhou as fotos no Facebook não tinha tom de denúncia nem de queixa. Era um agradecimento. Ele descreveu a formatura como resultado de esforço, constância e disciplina aplicados ao objetivo de terminar o curso, e definiu o momento como especial e digno de não passar despercebido.

Depois vieram os nomes. Agradeceu primeiro a Deus, e em seguida aos pais, às irmãs, à namorada e aos amigos que participaram da conquista. O rapaz que passou quatro anos sozinho na rotina entre a sala de aula e o caminhão fez questão de dividir o crédito com quem ficou por perto. Em outra declaração, incluiu também os colegas de trabalho na lista de quem apoiou o projeto do começo ao fim.

O tom da publicação explica parte da repercussão. Não havia mágoa nem cobrança, apenas o registro de alguém que cumpriu o que se propôs e considerou aquilo grande o bastante para ser publicado.

Os colegas de rota esperando no pátio

A recepção no local de trabalho foi a parte mais comentada. Quando ele chegou de beca, os colegas de coleta o receberam com orgulho e fizeram a comemoração ali mesmo, junto do caminhão. Não foi uma foto solitária, foi uma celebração coletiva de equipe.

Esse detalhe muda a leitura da cena. O caminhão de lixo aparece nas fotos não como marca de dificuldade superada, mas como parte do currículo que ele decidiu exibir junto com o diploma. Os companheiros de rota estavam na foto pelo mesmo motivo que a família: participaram do processo.

Familiares e a namorada também apareceram nos registros feitos naquele dia. O conjunto de imagens publicado por ele mistura os dois mundos que ele manteve em paralelo por quatro anos, sem tentar separar um do outro para a câmera.

A repercussão que veio de vários estados

Os comentários chegaram de todos os lados. Mensagens de felicitação, votos de bênçãos e recados de encorajamento se acumularam na publicação, muitos deles de pessoas que nunca ouviram falar dele antes. Houve quem escrevesse de outros estados mexicanos, como Sonora, mandando abraços a um desconhecido.

O tom geral das reações foi o de exemplo. Muita gente o classificou como referência a ser seguida, e a história passou a circular como argumento contra a ideia de que trabalho braçal e ensino superior não cabem na mesma agenda. Um coletor de lixo com diploma de advogado desmonta essa premissa em uma única fotografia.

Há um contexto que dá peso ao caso no México, onde a evasão do ensino superior por falta de dinheiro é um problema conhecido. A história de Hernández Chávez viralizou justamente entre estudantes e jovens que enfrentam a mesma equação de escolher entre trabalhar e estudar.

O que ele disse que vai fazer agora

Depois da repercussão, ele confirmou que seguia trabalhando como coletor de lixo. O diploma na mão não produziu mudança imediata de emprego, e ele tratou isso com naturalidade nas entrevistas que deu.

O recado que ele quis passar foi outro. Pediu que outros jovens seguissem o exemplo para sair adiante e insistiu que dá certo com esforço e sacrifício. A mensagem não era “saí da limpeza pública”, era “consegui por causa dela”. É uma diferença sutil e importante, porque desloca o mérito da sorte para o método: rotina longa, disciplina diária e um salário que ele transformou em mensalidade.

O sonho declarado por trás da escolha do curso também apareceu nos relatos: a vontade de trabalhar com justiça e de ajudar outras pessoas foi o que o manteve firme quando as dificuldades econômicas apertaram.

Um diploma que cabe em cima de um caminhão

A história de Matamoros funcionou nas redes porque quebra um roteiro. O padrão das fotos de formatura é o auditório, a escadaria da universidade, o salão de festas. Aqui, o cenário escolhido foi um pátio de limpeza pública, e o pedestal foi o veículo que o formando dirige rota após rota.

O que fica é o cálculo por trás daquela imagem. Quatro anos de dias de dezoito horas, cinco anos de vínculo com o departamento de limpeza, uma faculdade paga com salário de coletor de lixo e a decisão consciente de aparecer com os dois uniformes ao mesmo tempo, a toga e o caminhão. Não é uma foto de superação da origem. É uma foto de origem assumida.

E você, aguentaria quatro anos acordando às seis e voltando para casa à meia-noite para conseguir um diploma? Conta nos comentários se você conhece alguém que estudou trabalhando pesado e como foi essa rotina.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

Sair da versão mobile