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Aos 22 anos, mãe de três deixa a padaria, vai a pé ao curso para usar os R$ 10 da passagem no leite dos filhos, entra na construção civil e, após gastar com 4 pedreiros, decide consertar e erguer com as próprias mãos a casa onde vive em Canoas
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 24/08/2026 às 21:18
Atualizado em 24/08/2026 às 21:19
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Paloma da Silveira trocou o emprego em uma padaria por um curso de eletricista e encanador quando já tinha dois filhos e estava grávida do terceiro. Anos depois, após passar por canteiros de obras, enfrentar períodos sem emprego e trabalhar com pintura, elétrica e hidráulica, ela assumiu parte da construção da própria casa no bairro Guajuviras, em Canoas.
Aos 22 anos, Paloma da Silveira já era mãe de duas crianças, estava grávida do terceiro filho e trabalhava na padaria de um supermercado em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Foi naquele período que surgiu uma oportunidade que mudaria sua trajetória profissional.
Ela decidiu deixar o emprego para fazer um curso de eletricista e encanador no Senai. A escolha causou preocupação dentro da própria família, principalmente porque significava abrir mão de um salário quando havia três crianças para sustentar.
O curso oferecia lanche e R$ 10 destinados à passagem. Paloma encontrou outra utilidade para o dinheiro. Ia caminhando do Guajuviras até o bairro Igara e reservava o valor do transporte para comprar leite para os filhos, enquanto levava o lanche recebido nas aulas para casa.
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Segundo reportagem do Diário Gaúcho, publicada em 11 de março de 2023, Paloma tinha 36 anos quando contou a história e já trabalhava por conta própria em reformas, pintura, elétrica e hidráulica. Naquele momento, vivia na casa que continuava construindo aos poucos com os próprios conhecimentos profissionais.
O primeiro emprego na construção não foi como eletricista, mas ela decidiu entrar no canteiro mesmo assim
Ao terminar a capacitação, Paloma procurou trabalho como eletricista. A oportunidade encontrada, porém, era para servente de obra. Com filhos pequenos e sem condições de permanecer desempregada, aceitou.
Depois conseguiu uma vaga como auxiliar de eletricista em Porto Alegre. A rotina significava sair cedo de Canoas e voltar tarde, situação que reduziu drasticamente o tempo disponível para acompanhar os primeiros anos do filho caçula, João.
Com experiência, ela chegou ao cargo de eletricista. Também trabalhou em diferentes canteiros, inclusive em serviços relacionados ao estádio Beira-Rio, mas a desaceleração da construção a partir de 2015 interrompeu sua sequência de empregos e a levou a passar cerca de um ano fazendo trabalhos temporários.
Um novo curso abriu espaço para Paloma retornar à construção com carteira assinada
A trajetória ganhou outro rumo em 2018, quando Paloma participou de uma capacitação em pintura promovida pelo Mulher em Construção. Ela relatou que havia 16 mulheres na turma e que o grupo acabou contratado formalmente pela MRV depois do treinamento.
A organização que ofereceu a capacitação surgiu justamente em Canoas. De acordo com o Instituto Mulher em Construção, a iniciativa começou em 2006 com cursos gratuitos voltados principalmente a mulheres em situação de vulnerabilidade e interessadas em trabalhar em áreas historicamente ocupadas por homens. Na primeira oficina, mais de 300 mulheres disputaram apenas 25 vagas.
Paloma passou então por uma sequência de obras da construtora. Em determinado período, trabalhava em um condomínio na Avenida Protásio Alves, em Porto Alegre, e precisava sair de casa por volta das 5h30, retornando aproximadamente às 20h30.
Os próprios filhos começaram a questionar a rotina. A mãe estava garantindo o sustento da casa, mas praticamente passava o dia inteiro longe deles.
A covid mudou os planos e fez a trabalhadora abandonar uma rotina de mais de 15 horas fora de casa
Durante a pandemia, Paloma contraiu covid-19 e, segundo seu relato, levou cerca de 45 dias para se recuperar. Quando voltou ao canteiro, percebeu que não tinha mais a mesma resistência física para subir escadas e cumprir determinadas tarefas.
Pouco depois surgiu a possibilidade de assumir uma função de encarregada em uma obra na Restinga, também em Porto Alegre. A promoção significaria, porém, mais deslocamento e mais horas longe dos filhos. Ela recusou e decidiu deixar o emprego formal.
A partir daí, passou a atender clientes por conta própria. Pinturas, instalações elétricas, reparos hidráulicos e pequenas reformas se tornaram sua fonte de renda, com uma vantagem que ela buscava havia anos: controlar os próprios horários.
A mudança profissional também coincidiu com outro projeto que vinha consumindo dinheiro e energia da família. Depois de passar por diversos imóveis alugados e ver os filhos trocarem repetidamente de endereço e escola, Paloma queria terminar sua própria casa.
Quatro pedreiros passaram pela obra até ela decidir aprender o que faltava e assumir o serviço
O imóvel começou a ser construído em um terreno pertencente ao pai de Paloma, no Guajuviras. Ela ainda tinha emprego formal quando iniciou o projeto e contratou profissionais para executar diferentes etapas.
Segundo o relato da trabalhadora, quatro pedreiros diferentes passaram pela casa, mas os serviços não ficaram como esperava. Além dos gastos acumulados, ela precisou corrigir parte do que havia sido feito.
A experiência que já possuía com elétrica, hidráulica e pintura ajudava, mas não cobria todas as tarefas necessárias. Paloma então fez um curso pela internet para aprender outros serviços e decidiu que não continuaria pagando mão de obra para aquilo que pudesse executar sozinha.
Uma das etapas foi levantar uma parede da cozinha. Depois, familiares e conhecidos participaram de um mutirão na residência. A estrutura enfrentou um teste particularmente duro pouco tempo depois.
Em 15 de agosto de 2022, Canoas foi atingida por uma tempestade severa. A análise meteorológica divulgada depois do episódio registrou rajadas de até 120 km/h na cidade e mais de 37 mil pessoas afetadas em 17 municípios gaúchos. Apesar dos estragos provocados pelo temporal, Paloma contou que a parede construída por ela permaneceu de pé.
A casa ainda estava inacabada, mas significava o fim de anos mudando os filhos de aluguel em aluguel
Quando sua história foi publicada em 2023, Paloma morava no pequeno sobrado com os dois filhos mais novos. A filha mais velha, Gabrielle, já havia se casado e deixado a residência.
A construção ainda tinha muito trabalho pela frente. Algumas paredes permaneciam sem reboco e a escada precisava de melhorias, mas a família finalmente tinha um endereço próprio depois de passar por imóveis em diferentes cidades e bairros da Região Metropolitana.
Paloma pretendia continuar executando as etapas gradualmente. Além de terminar a residência, planejava abrir uma empresa especializada em instalação de gesso 3D, transformando a experiência adquirida em diferentes obras em um negócio próprio.
A trajetória também expõe uma característica persistente do setor. Dados da Relação Anual de Informações Sociais citados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção mostram que, no fim de 2024, 338.858 mulheres trabalhavam formalmente na construção civil brasileira, equivalentes a 11,5% da força de trabalho formal do setor. Os homens ainda representavam 88,5%.
Ao longo da carreira, Paloma relatou episódios em que empregadores e colegas questionaram sua capacidade simplesmente por ser mulher, inclusive entrevistas nas quais ouviu que deveria procurar trabalho em uma padaria. A profissão que alguns diziam não ser lugar para ela acabou sendo justamente a atividade usada para sustentar os três filhos, conquistar independência profissional e construir o lugar onde a família passou a morar.
A história de Paloma mostra uma realidade vivida por muitas mulheres que entram em profissões ainda predominantemente masculinas e precisam abrir espaço enquanto trabalham. Você teria coragem de abandonar um emprego e começar novamente em uma área completamente diferente nessas condições? Deixe sua opinião nos comentários e conte o que mais chamou sua atenção na trajetória dessa mãe de Canoas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

