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Aos 26 anos, designer passou três anos transformada em diferentes mulheres idosas, limitou a própria visão, audição e movimentos, percorreu cidades da América do Norte e revelou como produtos e espaços públicos excluíam quem não tinha um corpo jovem e forte
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 11/08/2026 às 21:12
Atualizado em 11/08/2026 às 21:13
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Patricia Moore usou maquiagem e dispositivos para restringir temporariamente seus sentidos, percorreu cidades da América do Norte durante três anos, testou produtos, transportes e espaços públicos e revelou por que o design inclusivo precisa considerar diferentes capacidades físicas.
Aos 26 anos, Patricia Moore olhou para o espelho e encontrou a imagem de uma mulher muito mais velha. Maquiagem aplicada ao rosto, roupas e dispositivos que restringiam temporariamente a visão, a audição e os movimentos faziam parte de um experimento incomum.
Entre 1979 e 1982, a designer industrial percorreu a América do Norte caracterizada como diferentes mulheres idosas. A experiência foi registrada pelo Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum, museu de design ligado ao Instituto Smithsonian.
Moore queria observar como produtos, transportes e espaços públicos tratavam pessoas com capacidades físicas diferentes. A pesquisa revelou que ambientes aparentemente comuns podiam se tornar excludentes quando exigiam força, equilíbrio, rapidez, visão e audição preservados.
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A pergunta sobre a porta da geladeira
A investigação de Patricia Moore começou com uma questão simples. Uma pessoa com pouca força nas mãos conseguiria abrir com facilidade a porta de uma geladeira? Para muitos profissionais, o produto funcionava normalmente. O problema aparecia quando o usuário não correspondia ao corpo imaginado durante o projeto.
Uma porta pesada, um puxador difícil de segurar ou um mecanismo que exigia movimentos precisos podia limitar uma tarefa básica. Preparar a própria comida deixava de ser uma ação simples quando o eletrodoméstico exigia capacidades que nem todas as pessoas possuíam.
A porta da geladeira representava um problema muito maior. Naquele período, boa parte do design era orientada para um consumidor jovem, forte e sem limitações físicas. Pessoas idosas eram tratadas como exceções, embora o envelhecimento faça parte da vida.
Moore ajudou a mudar a pergunta. Em vez de questionar por que uma pessoa não conseguia usar um produto, ela passou a investigar por que aquele produto exigia tanta força ou precisão.
Três anos como Old Pat
Patricia Moore não adotou apenas uma aparência idosa. Ela criou diferentes versões de Old Pat para observar como idade percebida, condição física e apresentação pessoal alteravam sua relação com o ambiente e com outras pessoas.
A maquiagem modificava seu rosto. Recursos aplicados ao corpo reduziam seus movimentos, enquanto dispositivos limitavam temporariamente a audição e a visão. Com isso, escadas, portas, informações visuais, sons e deslocamentos passavam a exigir mais atenção e esforço.
Durante três anos, Moore analisou produtos, transportes e espaços públicos. Ela observou como pequenas decisões de projeto poderiam favorecer a autonomia ou criar uma dependência desnecessária.
A experiência, porém, não a tornou idosa nem reproduziu completamente a vida de pessoas com deficiência. Moore podia retirar os dispositivos e voltar às suas condições físicas habituais. O envelhecimento e a deficiência envolvem experiências permanentes, além de fatores sociais, emocionais e econômicos que uma simulação temporária não consegue representar.
Produtos e cidades que exigiam força demais
O experimento mostrou que diversas barreiras eram aceitas como partes normais da vida urbana. Uma entrada difícil, uma informação pouco visível ou um mecanismo pesado pareciam problemas pequenos para quem conseguia superá-los sem esforço.
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Para uma pessoa com menos força, equilíbrio ou mobilidade, esses obstáculos podiam impedir atividades comuns. O resultado era uma cidade que permitia a circulação de alguns corpos, mas retirava a independência de outros.
Nos transportes, a dificuldade podia aparecer no acesso, na leitura das informações ou no tempo necessário para entrar e sair. Nos espaços públicos, a ausência de soluções acessíveis transformava uma tarefa comum em uma sequência de riscos e limitações.
Essas barreiras não atingiam apenas pessoas idosas. Alguém com uma lesão temporária, um adulto acompanhando uma criança ou uma pessoa carregando compras também poderia se beneficiar de produtos mais simples e espaços mais acessíveis.
O nascimento de uma referência em design universal
A experiência realizada entre 1979 e 1982 transformou Patricia Moore em uma referência do design inclusivo. Sua trajetória demonstrou que projetar para diferentes capacidades não significava criar soluções separadas, mas ampliar o número de pessoas capazes de utilizar o mesmo produto ou espaço.
O design universal segue esse raciocínio. Ele procura criar ambientes, serviços e objetos que possam ser utilizados por pessoas com diferentes níveis de força, mobilidade, visão e audição, sem exigir adaptações desnecessárias.
O Cooper Hewitt, Smithsonian Design Museum, museu de design ligado ao Instituto Smithsonian, concedeu a Moore o prêmio Design Mind em 2019. A instituição também registra sua participação na criação de mais de 300 ambientes de medicina física e reabilitação.
Esses espaços foram desenvolvidos para instalações de saúde na América do Norte, Europa e Japão. Moore também trabalhou com organizações como NASA, Johnson & Johnson, Maytag, OXO, Procter & Gamble e Whirlpool.
Para Patricia Moore, um bom projeto precisava reunir beleza, empatia e inclusão. Essa ideia contrariava a visão de que acessibilidade era apenas um detalhe acrescentado depois que o produto já estava pronto.
Seu trabalho mostrou que o usuário considerado normal nunca representou toda a população. Corpos envelhecem, sofrem lesões e apresentam diferentes capacidades. Quando o design reconhece essa diversidade desde o início, mais pessoas conseguem viver com segurança e autonomia.
Uma porta, uma estação ou uma embalagem pode excluir sem parecer perigosa. A experiência de Moore tornou essas falhas visíveis e mostrou que uma cidade acessível não beneficia somente um grupo, mas acompanha todos ao longo da vida.
Se os corpos mudam com o tempo, por que tantas cidades ainda são projetadas como se todas as pessoas tivessem sempre a mesma força e mobilidade?
Fonte
Cooper Hewitt
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

