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Aos 30 anos, gari que varre as ruas de Manhuaçu das 6h às 16h há uma década e pagou a faculdade em parcelas semestrais com horas extras e bicos de arbitragem no fim de semana vestiu a beca e recebeu o diploma de Direito na Faculdade do Futuro
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 10/08/2026 às 12:27
Atualizado em 10/08/2026 às 12:30
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Vanessa Freitas da Silva entrou no serviço público em 2014, aos 20 anos, e passou no vestibular da primeira turma de Direito de Manhuaçu em 2019. Formou-se em 1º de fevereiro de 2024, com a mãe, o filho e os três irmãos na plateia.
Ela cumpre turno das 6h às 16h no Serviço Autônomo Municipal de Limpeza Urbana de Manhuaçu, na Zona da Mata mineira, e trabalha como gari naquela cidade há uma década. Em 1º de fevereiro de 2024, Vanessa Freitas da Silva, então com 30 anos, recebeu o diploma de bacharel em Direito, conforme reportagem assinada por Julia Salim e publicada pelo Estado de Minas em 7 de fevereiro de 2024.
A formação levou cinco anos e foi paga com dificuldade. Em muitas ocasiões, ela só conseguia quitar a faculdade semestralmente, porque os boletos venciam sem que houvesse dinheiro disponível diante das outras despesas da casa.
O concurso que ela esperava desde a adolescência
O caminho até o serviço público começou por eliminação. Antes da vassoura, Vanessa trabalhou em uma padaria e atuou como guarda mirim em Manhuaçu. O objetivo declarado era passar em concurso público, pela estabilidade da carreira.
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O obstáculo era a idade. Segundo o relato dela, sempre que surgia um concurso, ela não podia participar justamente por ser jovem demais para os requisitos. Em 2014 apareceu a seleção para gari, e ela contou à mãe que ia agarrar aquela oportunidade. Tinha 20 anos quando entrou. A vaga resolveu a questão da estabilidade, mas não o desejo que vinha de antes.
Advogada desde a adolescência, na cabeça
O outro objetivo era mais antigo e mais difícil. Vanessa conta que desde a adolescência queria ser advogada, que via os advogados e aquilo mexia com o coração dela, e que a ideia estava na cabeça desde muito nova.
A oportunidade concreta só apareceu em 2019, cinco anos depois de entrar no SAMAL. Foi quando ela prestou vestibular para a primeira turma de Direito da Faculdade do Futuro, instalada na própria Manhuaçu. A chegada do curso à cidade é o que tornou o plano viável, porque estudar Direito até então significaria deslocamento para outro município, incompatível com um turno que termina às 16h.
A conta que raramente fechava
O peso financeiro aparece no relato dela sem rodeios. Ela precisava administrar a casa, o filho e a faculdade ao mesmo tempo, e os boletos venciam antes de haver dinheiro para pagá-los entre tantos outros gastos.
A solução foi acumular trabalho. Além do turno de dez horas durante a semana e das aulas, Vanessa fazia horas extras no SAMAL aos sábados. E em feriados e fins de semana atuava como auxiliar de arbitragem em jogos de futebol de várzea e de futsal. Eram três frentes de renda para sustentar uma delas, a faculdade, que só era quitada em parcelas semestrais quando o caixa permitia.
O filho e a atenção que faltava
O custo não foi só financeiro. Vanessa tem um filho, e ela reconhece que a rotina retirava dele um tempo que não conseguia repor.
O relato dela é honesto sobre isso: diz que não foi fácil, que houve muita luta e responsabilidade, e que o filho pedia carinho e atenção. Conclui afirmando que persistiu mesmo assim, por determinação. É o tipo de conta que não aparece em foto de formatura, e ela fez questão de mencionar.
Quem estava na plateia
No dia da colação, a família ocupou o lugar de destaque no relato. Estavam ali a mãe, o filho e os três irmãos dela.
Vanessa define o apoio familiar como a base de tudo e diz não saber o que seria dela sem eles, chamando-os de coluna da jornada. Cita também os amigos, tanto os antigos quanto os que fez na faculdade, e faz uma observação que merece registro: segundo ela, às vezes a classe social gera uma diferença, mas naquele ambiente ela foi acolhida. É uma ressalva sobre o convívio em um curso de Direito, feita por quem chegava à sala depois de um turno de limpeza urbana.
O próximo passo declarado
O diploma não era a linha de chegada, e ela deixou isso claro na entrevista. O objetivo seguinte era passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, requisito sem o qual não é possível exercer a advocacia.
Até lá, o plano era manter o trabalho de gari, que, nas palavras dela, é justamente o que possibilitaria a realização completa do objetivo. Ou seja, a vassoura continuaria sustentando o preparo para a prova, do mesmo modo que sustentou as mensalidades da faculdade.
O que não se sabe hoje
Aqui é preciso ser transparente com o leitor. A reportagem é de fevereiro de 2024, e passaram mais de dois anos. Vanessa teria hoje 32 anos.
Não localizei nenhuma informação pública posterior sobre ela: não há registro sobre aprovação no exame da Ordem, sobre eventual inscrição como advogada, sobre mudança de função no serviço público ou sobre a situação atual. A história, portanto, está congelada no dia da colação de grau. Se o CPG publicar, recomendo deixar essa datação explícita, porque o TEMA está redigido no presente e o leitor pode entender que a formatura aconteceu agora.
Turno de dez horas, aula à noite, hora extra no sábado, arbitragem de várzea no domingo e mensalidade paga a cada seis meses quando dava. Foram cinco anos assim, com um filho em casa esperando atenção.
Conta nos comentários: você já conciliou trabalho em turno integral com faculdade e sabe o que é chegar na aula depois de dez horas de serviço? E na sua opinião, o que pesa mais para quem tenta esse caminho, o cansaço físico, a conta da mensalidade ou a culpa de faltar em casa?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

