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Aos 30 anos, zeladora que passou cinco anos limpando os corredores do Hospital para pagar a própria faculdade veste a beca no próprio local de trabalho, posa com o rodo e o carrinho de limpeza nas mãos e transforma o ensaio de formatura em Educação Física num tributo ao emprego que bancou o diploma
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 10/08/2026 às 09:48
Atualizado em 10/08/2026 às 09:49
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Érica Alves dos Reis não foi para um estúdio nem para a escadaria de uma faculdade. Fez o ensaio dentro do hospital onde trabalha, de beca e capelo, segurando o rodo e empurrando o carrinho com baldes e material de higiene. O cenário é o mesmo de todos os dias dela.
Aos 30 anos, a zeladora Érica Alves dos Reis fez o ensaio de formatura em Educação Física dentro do Hospital Municipal Sandoval de Araújo, em Jaru, Rondônia, usando os próprios equipamentos de trabalho, segundo reportagem publicada pelo portal Webterra em 10 de janeiro de 2020. Ela concluiu a graduação em agosto de 2019 e ocupa a vaga de auxiliar de limpeza na unidade desde 2014, quando foi aprovada em concurso público, o que significa que o tempo de curso e o tempo de vassoura na mão praticamente coincidem.
O sentido da escolha é declarado e não deixa espaço para interpretação. Ao posar com rodo, vassoura, baldes e o carrinho de materiais de higiene, ela apontou publicamente a origem da renda que a manteve na faculdade durante todo o percurso. A mesma função que a maioria das pessoas esconderia no dia da colação virou o cenário da foto, e é essa inversão que fez as imagens circularem muito além de Rondônia.
O ensaio feito dentro do hospital
O ensaio foi profissional e seguiu o protocolo completo de qualquer formatura: beca, canutilho e capelo, tudo como manda a tradição do ritual acadêmico. A única diferença estava no que ela segurava nas mãos e no lugar escolhido para o enquadramento. Em vez do auditório, dos jardins da universidade ou do estúdio com fundo neutro, o cenário foram os corredores do hospital público onde ela cumpre expediente desde 2014, com as portas dos setores, o piso encerado e a iluminação de teto exatamente como aparecem em qualquer turno comum.
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Ela é fotografada com o rodo apoiado no ombro, empurrando o carrinho carregado de material de higiene e ao lado dos baldes que usa diariamente, sem nenhuma tentativa de estilizar a função, de tirar o uniforme da cena ou de suavizar o contraste entre o traje solene e a ferramenta de trabalho.
É justamente essa literalidade que dá força ao resultado. Não se trata de uma foto sobre ter superado a origem, e sim de uma foto que aponta a origem e a coloca no centro do quadro. A reportagem registra que ela exaltou, por meio das imagens, a função que desempenha e o fato de que foi esse salário, e não outro, que pagou as mensalidades do curso até o fim.
O ensaio funciona, portanto, como uma espécie de recibo público: aqui está o diploma, e aqui está exatamente de onde saiu o dinheiro que o comprou. Érica também afirma, no mesmo relato, sentir orgulho do trabalho que desenvolve no hospital de Jaru, o que explica por que a decisão de fotografar ali não tem nada de irônica nem de vingativa.
Cinco anos de rodo pagando cinco anos de faculdade
A coincidência entre os dois prazos é o que dá estrutura à história e o que a diferencia de tantos relatos parecidos. Érica entrou no hospital em 2014, aprovada em concurso público para a vaga de auxiliar de limpeza, e a partir dali rodo, carrinho, vassoura e água sanitária passaram a compor a rotina diária dela.
A graduação em educação física correu inteiramente em paralelo a esse expediente, o que significa que não houve um momento de pausa, de licença ou de troca de atividade para estudar: as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo, todos os meses, durante todo o curso. A conclusão veio em agosto de 2019, e o ensaio fotográfico só circulou nos primeiros dias de 2020, intervalo que explica por que a formatura já estava consolidada quando as imagens ganharam repercussão nacional.
Vale medir o que essa simultaneidade exige na prática de quem trabalha em limpeza hospitalar. É uma função de esforço físico contínuo, com escala definida, que não permite ajustar horário conforme a prova da semana nem compensar uma aula perdida no dia seguinte.
Cada mensalidade paga saiu de um salário de auxiliar de limpeza do serviço público municipal de uma cidade de pouco mais de 50 mil habitantes no interior de Rondônia. E o curso escolhido, educação física, tem carga prática relevante, com atividades que raramente cabem no horário que sobra de um turno inteiro de trabalho braçal. Nada disso aparece nas fotos, mas é o que está por trás delas.
“Não quero fazer esse trabalho a vida toda”
A parte mais direta do depoimento dela é sobre o futuro, e Érica não usa rodeios ao falar disso. Ela conta que está na função desde 2014 e que convive com colegas que trabalham na limpeza há 20 anos, algumas delas caminhando para se aposentar na mesma atividade em que entraram.
A conclusão que ela tira dessa observação é objetiva: não quer ficar naquela área por muito tempo. E faz questão de qualificar a frase imediatamente, dizendo que não é por orgulho, mas que não quer fazer aquele trabalho a vida inteira. A ressalva sobre orgulho é o detalhe que separa a fala dela de um desprezo pela profissão, e é perfeitamente coerente com a decisão de exibir os equipamentos de trabalho na própria formatura, em vez de escondê-los.
As duas posições convivem no mesmo relato sem se anular. Ela se declara orgulhosa do trabalho que desenvolve no hospital e, ao mesmo tempo, recusa a ideia de permanecer nele por décadas. É a diferença entre respeitar uma função e aceitá-la como destino, distinção que raramente aparece com essa clareza em depoimentos desse tipo.
O que ela descreve não é insatisfação com o presente, é recusa a um futuro já desenhado pelo exemplo das colegas mais antigas. E é essa recusa que explica por que ela decidiu estudar em vez de simplesmente acomodar-se em um cargo estável que já garantia o sustento da casa.
A trava do cargo efetivo e o plano de sair por concurso
Aqui está o obstáculo prático que ela descreve e que quase nunca aparece nas histórias de quem estuda trabalhando. Érica é concursada, e isso cria uma situação de duas pontas que funciona como armadilha. Por um lado, o cargo efetivo garantiu a estabilidade financeira que permitiu bancar a faculdade até o último semestre, sem risco de interrupção por demissão ou por perda de renda no meio do curso.
Sem essa segurança, é bastante provável que a graduação não tivesse chegado ao fim. Por outro lado, ela mesma explica que não pode simplesmente pedir demissão para arriscar uma carreira em educação física, porque abrir mão de um vínculo estável em troca de um mercado incerto seria uma aposta alta demais para quem sustenta duas filhas.
A saída que ela projeta, por isso, é institucional e não impulsiva. O objetivo declarado é prestar outro concurso público e, por essa via, deixar o cargo atual sem passar por um intervalo sem renda. Não se trata de largar tudo e tentar a sorte, e sim de trocar um vínculo estável por outro, o que significa continuar estudando para provas enquanto cumpre o mesmo expediente de limpeza.
O emprego que viabilizou o diploma é exatamente o mesmo que agora dificulta a mudança de área, e é essa contradição que ela precisa resolver. A motivação, aliás, não é apenas profissional: Érica tem duas filhas e afirma acreditar no poder da educação como mecanismo de mudança de vida e de acesso a melhores oportunidades, com o objetivo declarado de viabilizar a elas um futuro mais digno. A formatura, nessa leitura, também funciona como demonstração prática dirigida a quem mora na mesma casa.
Enfermagem ou medicina, se aparecer uma bolsa
Os planos que ela declarava em janeiro de 2020 iam bem além do diploma recém-obtido. Érica afirmou que pretende cursar enfermagem ou medicina, mas que naquele momento não tinha condições de pagar as mensalidades, e a condição que ela mesma coloca é objetiva: para isso, precisaria de ajuda por meio de uma bolsa de estudo.
É uma barreira concreta e conhecida, já que medicina figura entre os cursos mais caros do ensino superior privado brasileiro e enfermagem exige carga horária de estágio que dificilmente se encaixa em uma escala de trabalho integral. O diploma de educação física resolveu uma etapa e escancarou a seguinte, com um degrau bem mais alto.
O destino que ela imagina para essa nova formação tem endereço definido, e isso diz muito sobre a relação dela com o lugar onde trabalha. A intenção declarada é continuar ajudando as pessoas e, de preferência, no mesmo hospital de Jaru onde já cumpre expediente há anos.
Ela se autodenomina sonhadora, expressão que aparece no relato como definição própria e não como adjetivo colado por terceiros. E o vínculo com a unidade não é só profissional: Érica é bastante conhecida no Hospital Municipal de Jaru, onde pacientes e funcionários relatam a alegria que ela transmite durante o expediente, porque canta o tempo todo enquanto trabalha. No fim de 2019, um vídeo que a mostra cantando pelos corredores foi publicado e acumulou mais de 60 mil visualizações em uma postagem no Facebook, o que significa que, quando as fotos da formatura apareceram, o rosto já era conhecido na cidade.
Um retrato de transição, não de desfecho
A força do ensaio está em uma inversão simples de entender e difícil de executar. O ritual da formatura existe para marcar a chegada a um patamar novo, e por isso o cenário padrão é sempre o do destino, nunca o da origem: o auditório, a escadaria da universidade, o estúdio.
Ao trocar tudo isso pelos corredores de um hospital público no interior de Rondônia, com o carrinho de limpeza dentro do enquadramento e o rodo na mão, Érica fez exatamente o oposto do que o ritual pede. Usou o momento de chegada para apontar o ponto de partida, e apontou com uniforme, ferramenta e endereço à vista. O diploma na foto não substitui o rodo, ele aparece ao lado dele, e é essa convivência entre os dois objetos, e não a superação de um pelo outro, que define a imagem.
Vale registrar, por fim, que todas essas informações são de janeiro de 2020, e mais de seis anos se passaram desde então. A idade de 30 anos, o cargo no hospital, o plano de prestar outro concurso e a vontade de cursar enfermagem ou medicina se referem exclusivamente àquele momento.
O que a reportagem original registra é um retrato de transição, e não um desfecho: uma trabalhadora concursada, com diploma recém-obtido, salário de auxiliar de limpeza, duas filhas para criar e um plano de mudar de cargo pela via do concurso público. O que aconteceu depois disso não consta das publicações disponíveis sobre o caso.
E você, acha que trabalhar em limpeza para pagar a faculdade deveria ser motivo de orgulho exibido em foto de formatura, ou entende quem prefere deixar essa parte da história fora do enquadramento? Conta nos comentários o que você fez para bancar os próprios estudos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

