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Aos 31 anos, gari concursado que estudava no horário de almoço e à noite após o trabalho entra na UEPB, deixa para trás o receio de mostrar a profissão, defende o TCC vestido com a própria farda e tira nota 10 ao pesquisar a invisibilidade dos colegas da limpeza pública

Aos 31 anos, gari concursado que estudava no horário de almoço e à noite após o trabalho entra na UEPB, deixa para trás o receio de mostrar a profissão, defende o TCC vestido com a própria farda e tira nota 10 ao pesquisar a invisibilidade dos colegas da limpeza pública

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Aos 31 anos, gari concursado que estudava no horário de almoço e à noite após o trabalho entra na UEPB, deixa para trás o receio de mostrar a profissão, defende o TCC vestido com a própria farda e tira nota 10 ao pesquisar a invisibilidade dos colegas da limpeza pública

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 17/08/2026 às 16:16

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Gari concursado se forma em História pela UEPB com TCC sobre invisibilidade dos trabalhadores da limpeza pública. (Foto: Dje Silva)

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Filho de gari e de dona de casa, Ednilson de Pontes Silva conciliou trabalho e estudo até conquistar uma vaga em História, transformou a própria profissão em objeto de pesquisa e levou para dentro da universidade relatos de trabalhadores que diziam passar despercebidos nas ruas

Aos 31 anos, Ednilson de Pontes Silva chegou à etapa final da graduação em História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) carregando uma trajetória que havia começado muito antes da sala de aula. Gari concursado em Pirpirituba, no Brejo paraibano, ele decidiu defender o Trabalho de Conclusão de Curso vestido com a mesma farda que usava diariamente para trabalhar na limpeza das ruas.

A apresentação aconteceu no campus da UEPB em Guarabira. O trabalho recebeu nota 10 e tratou de um assunto que Ednilson conhecia fora dos livros, a invisibilidade social enfrentada pelos agentes de limpeza pública.

O uniforme não fazia parte de nenhuma exigência acadêmica. Ednilson o vestiu pouco antes de entrar na sala porque queria que a defesa representasse também os trabalhadores que participaram da pesquisa e as situações que ele próprio havia enfrentado nas ruas.

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A cena encerrava uma etapa iniciada anos antes, quando ele dividia os dias entre emprego e estudos. No horário de almoço e novamente à noite, depois do trabalho, Ednilson estudava, primeiro em busca de estabilidade no serviço público e depois para tentar realizar o antigo objetivo de cursar uma universidade.

Antes da universidade vieram duas reprovações no vestibular, trabalho no comércio e um concurso para gari

Ednilson concluiu o ensino médio em 2006 na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Augusto de Almeida, onde havia feito sua formação na rede pública. Filho de um gari e de uma dona de casa, precisava trabalhar para ajudar em casa e passou anos no comércio de Guarabira enquanto continuava tentando melhorar sua formação.

A entrada no ensino superior não aconteceu de imediato. Segundo reportagem do G1 reproduzida pelo Geledés, ele tentou o vestibular depois do ensino médio, não conseguiu a aprovação nas primeiras oportunidades e passou a prestar concursos para diferentes cargos e municípios.

Em determinado momento, resolveu concorrer justamente a uma vaga de gari, profissão exercida pelo pai. A aprovação veio em 2011, quando passou a integrar o quadro da Prefeitura de Pirpirituba, mas a estabilidade não encerrou o plano de chegar à universidade.

Dois anos depois do concurso, a aprovação na UEPB abriu uma rotina entre as ruas e as aulas de História

Foto: Dje Silva

Em 2013, Ednilson conseguiu aprovação no último vestibular próprio realizado pela UEPB e entrou no curso de História. Ele continuou trabalhando como gari enquanto cursava a graduação em Guarabira, conciliando a atividade profissional com a rotina acadêmica durante os anos seguintes.

No início, porém, havia uma barreira que não aparecia nas provas ou nos livros. Ednilson tinha receio de contar aos colegas que trabalhava como gari e demorou cerca de um ano para falar abertamente sobre a profissão, situação que ele relacionava ao preconceito que percebia fora da universidade.

A percepção começou a mudar quando os colegas souberam do trabalho e reagiram de forma positiva. Para ele, havia uma contradição visível no ambiente universitário, já que estudantes de algumas áreas circulavam naturalmente usando jalecos, fardas policiais ou outras roupas profissionais, enquanto ele próprio hesitava em aparecer com o uniforme de gari.

Essa experiência acabou se aproximando de uma pergunta maior que acompanharia o restante do curso. Por que trabalhadores responsáveis por um serviço usado diariamente por toda a população podiam passar pelas ruas sem sequer receber um cumprimento ou ter o rosto reconhecido?

O trabalho recebeu o título “Trabalho, desigualdade social na contemporaneidade: reflexões sobre a invisibilidade dos agentes de limpeza pública (garis)”. A pesquisa ganhou forma depois que Ednilson entrou em contato com estudos do psicólogo Fernando Braga da Costa, que investigou a invisibilidade pública a partir da experiência de trabalhar durante anos ao lado de garis na Universidade de São Paulo.

Ednilson passou então a relacionar a bibliografia às situações que presenciava no cotidiano. O trabalho, com 48 páginas, também recorreu a autores como José Saramago, Ricardo Antunes e Janaína Amado para discutir trabalho, desigualdade, relações sociais e aquilo que ele descrevia como uma espécie de cegueira em relação a determinados trabalhadores.

Mas o TCC não ficou restrito à experiência pessoal do estudante. Dos 21 garis que estavam na ativa no município naquele período, dez aceitaram participar de entrevistas para a pesquisa, embora inicialmente alguns demonstrassem receio de se expor ao falar sobre preconceito e constrangimentos ligados à profissão.

A orientadora Verônica Pessoa avaliou que um dos desafios era justamente manter o rigor acadêmico quando o pesquisador fazia parte do grupo estudado. Segundo a docente, Ednilson conseguiu articular os referenciais teóricos aos depoimentos dos trabalhadores e construir uma pesquisa em que apareciam simultaneamente o estudante de História e a experiência concreta de quem trabalhava na limpeza pública.

Na defesa, ele saiu da sala, colocou a farda de gari e voltou para apresentar a pesquisa

A decisão de usar o uniforme foi tomada sem que a própria orientadora soubesse. Instantes antes da apresentação, Ednilson deixou a sala, vestiu a roupa de trabalho e retornou diante da banca, da família, de amigos e de colegas da limpeza urbana que haviam ajudado na construção do estudo.

O gesto resumiu uma mudança ocorrida ao longo da graduação. O estudante que inicialmente evitava revelar a profissão passou a apresentá-la diante da universidade justamente no momento mais simbólico da conclusão do curso, e o TCC terminou avaliado com nota máxima pela banca.

Também estavam presentes a esposa, Thaís Pereira Felipe, e a filha Laís, então com dois anos. Parte dos garis entrevistados acompanhou a defesa, levando para dentro da sala alguns dos trabalhadores cujas experiências haviam servido de base para a pesquisa.

A repercussão levou o trabalho para fora da UEPB e devolveu a discussão aos próprios garis

A história ganhou repercussão nacional nas semanas seguintes. Em julho de 2019, Ednilson foi convidado para participar do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, depois que imagens da defesa e a discussão sobre a invisibilidade dos garis começaram a circular em diferentes veículos.

Meses depois, o trabalho voltou ao local de onde parte da pesquisa havia saído. Em setembro, Ednilson apresentou o TCC aos colegas na Secretaria de Urbanismo de Pirpirituba, acompanhado da orientadora e de Fernando Braga da Costa, pesquisador que havia servido de referência para o estudo.

A discussão não desapareceu com a formatura. Em reportagem publicada em 2023 pelo Instituto Claro, já apresentado como gari e historiador, Ednilson voltou a relatar que amigos podiam não reconhecê-lo quando estava uniformizado e afirmou que sua experiência na universidade mudou a maneira como ele próprio enxergava o trabalho que também havia sido realizado pelo pai.

A trajetória de Ednilson deixa uma pergunta que ultrapassa a nota 10 ou a imagem da defesa de TCC. Quantos trabalhadores responsáveis por serviços essenciais ainda passam diariamente diante de milhares de pessoas sem serem reconhecidos como indivíduos? Deixe nos comentários o que você pensa sobre a invisibilidade dos profissionais da limpeza pública e se já presenciou uma situação semelhante.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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