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Aos 34 anos, jovem indígena que deixou aldeia no Alto Xingu, enfrentou dificuldades até para falar português e trabalhou como servente, diarista e em fazendas para conseguir comer durante o curso se formou técnico em enfermagem e conquistou o 1º lugar na UFMT após anos de estudo e dificuldades financeiras

Aos 34 anos, jovem indígena que deixou aldeia no Alto Xingu, enfrentou dificuldades até para falar português e trabalhou como servente, diarista e em fazendas para conseguir comer durante o curso se formou técnico em enfermagem e conquistou o 1º lugar na UFMT após anos de estudo e dificuldades financeiras

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Aos 34 anos, jovem indígena que deixou aldeia no Alto Xingu, enfrentou dificuldades até para falar português e trabalhou como servente, diarista e em fazendas para conseguir comer durante o curso se formou técnico em enfermagem e conquistou o 1º lugar na UFMT após anos de estudo e dificuldades financeiras

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 10/08/2026 às 16:15

Atualizado em 10/08/2026 às 16:16

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Indígena do Alto Xingu supera dificuldades, vira técnico em enfermagem e conquista 1º lugar na UFMT.

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Dyakalo Farato Matipu saiu da Aldeia Buritizal com o objetivo de trabalhar na saúde, enfrentou falta de dinheiro, preconceito e barreiras com o português, concluiu o curso técnico em 2018 e depois avançou para a universidade

Uma fotografia usando jaleco branco, publicada ao lado de outra imagem tirada dez anos antes na aldeia, tornou conhecida uma trajetória que havia começado muito antes das redes sociais. Dyakalo Farato Matipu, indígena da etnia Matipu e conhecido como Farato, tinha 34 anos quando sua história ganhou repercussão nacional em 2019.

Nascido na Aldeia Kuikuro e criado na Aldeia Buritizal, no Alto Xingu, em Mato Grosso, ele passou parte da vida tentando transformar um interesse despertado ainda na infância em profissão. Aos 13 anos, acompanhava agentes indígenas de saúde e começou, aos poucos, a ajudá-los em atividades simples de atendimento.

O caminho até o diploma passou por uma realidade bem diferente daquela mostrada na fotografia de jaleco. Farato precisou trabalhar como servente, diarista e em fazendas, enfrentou períodos em que faltava dinheiro até para alimentação e chegou a pensar em abandonar os estudos.

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O esforço levou à conclusão do curso técnico de enfermagem em dezembro de 2018. Pouco depois, reportagens da época registraram que ele havia obtido o 1º lugar em Ciências Naturais e Matemática na Universidade Federal de Mato Grosso, em Canarana, abrindo uma nova etapa de uma trajetória que ainda teria outro avanço na área da saúde.

O interesse pela saúde começou ainda na aldeia e mudou os planos que sua família tinha para ele

Farato cresceu em uma região onde a presença dos profissionais de saúde dentro das comunidades indígenas tem uma função que vai além do atendimento convencional. O Ministério da Saúde informa que, no DSEI Xingu, a atenção básica nas aldeias envolve equipes com agentes indígenas de saúde, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem atuando em contextos culturais e linguísticos distintos.

Foi observando esse trabalho que ele decidiu seguir pela saúde. Farato contou que inicialmente apenas acompanhava os agentes e executava pequenas tarefas, até ganhar confiança para aprender mais sobre medicamentos, curativos e cuidados com pacientes.

Sua decisão também significava seguir um caminho diferente daquele imaginado dentro da família. Segundo reportagem baseada em informações da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia de Mato Grosso, seus dois avôs eram pajés e seu pai era cacique, enquanto o próprio Farato dizia ter sido orientado desde pequeno a cuidar de seu povo.

Aprender português virou uma das primeiras barreiras para continuar estudando fora da comunidade

Dyakalo Farato Matipu. (Foto: Arquivo pessoal)

Antes de enfrentar vestibulares e aulas técnicas, Farato precisou vencer uma dificuldade básica para quem pretendia estudar na cidade. Uma mudança de aldeia havia interrompido sua alfabetização, e parte de sua formação ocorreu de maneira irregular enquanto acompanhava o pai na pesca, na caça e na produção de artesanato.

Quando passou a frequentar uma escola na cidade, o português ainda causava insegurança. Ele relatou que ficava nervoso ao tentar falar diante da turma e que chegou a desistir de se manifestar mesmo quando sabia o que pretendia dizer.

O contexto linguístico ajuda a dimensionar essa dificuldade. Segundo o Inventário Nacional da Diversidade Linguística do Iphan, os Matipu integram os povos de língua Karib do Alto Xingu, e a língua Matipu continua presente nas situações cotidianas dentro das comunidades.

A mudança para a cidade significava, portanto, estudar conteúdos novos ao mesmo tempo em que precisava dominar melhor uma segunda língua. Farato contou posteriormente que anotava termos que não compreendia durante as aulas para pesquisá-los depois, uma rotina necessária para acompanhar a formação técnica.

Sem dinheiro suficiente, ele conciliou o curso com trabalhos pesados e chegou a passar o dia praticamente sem comer

Em Canarana, a dificuldade deixou de ser apenas acadêmica. Farato precisava pagar despesas básicas e continuar estudando, enquanto encontrava poucas oportunidades de trabalho, situação que o levou a aceitar serviços como servente, diarista e trabalhador em fazendas.

A falta de dinheiro chegou ao ponto de afetar diretamente sua alimentação. Em outro relato publicado em 2019, afirmou que houve dias em que tomou apenas água para controlar a fome e admitiu que as dificuldades financeiras foram o motivo que mais o aproximou de abandonar o curso.

O curso técnico de enfermagem começou em 2016 na unidade remota de Canarana da Escola Técnica de Barra do Garças. Dos 39 estudantes que iniciaram a formação, apenas 14 chegaram à formatura em 8 de dezembro de 2018, entre eles Farato e outro aluno indígena da etnia Kamayurá.

O diploma de técnico foi seguido por uma vaga na UFMT e a documentação oficial confirma seu nome na primeira chamada

A formação em enfermagem entregou a Farato o jaleco branco que havia se tornado um símbolo pessoal de sua mudança de vida. A fotografia de 2019 comparada à imagem de 2009 acabou circulando nas redes durante o chamado “Desafio dos Dez Anos”.

No mesmo período, veio outra conquista. A documentação oficial da Universidade Federal de Mato Grosso registra Dyakalo Foratu Matipu entre os homologados da primeira chamada para a licenciatura em Ciências Naturais e Matemática, no polo de Canarana, dentro da modalidade de ação afirmativa para candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas oriundos de escolas públicas.

A aprovação, porém, não encerrou o projeto que ele carregava desde a adolescência. O objetivo declarado por Farato era tornar-se médico e voltar ao Xingu com uma formação que lhe permitisse assumir responsabilidades maiores no atendimento de sua própria comunidade.

Depois da UFMT, uma viagem de 340 quilômetros abriu caminho para o sonho de cursar Medicina

Em fevereiro de 2019, Farato alcançou outro resultado. Ele soube apenas um dia antes que haveria um processo seletivo para Medicina na Aldeia Kuikuro, pegou uma motocicleta emprestada e percorreu cerca de 340 quilômetros desde Canarana, em uma viagem por estrada de terra e lama que durou praticamente o dia inteiro.

O indígena ficou em 1º lugar para Medicina no vestibular promovido pela Universidade Brasil, que oferecia seis vagas para o curso destinadas naquele processo. A seleção também tinha vagas para Odontologia e Medicina Veterinária, e Farato posteriormente se mudou para Fernandópolis, no interior de São Paulo, para estudar.

A própria Universidade Brasil informou, em 2022, que Farato havia ingressado em Medicina em 2019 e continuava como estudante da instituição. O projeto voltado a estudantes indígenas do Xingu oferecia bolsa integral, moradia, pagamento de água e energia e ajuda de custo, estrutura criada justamente para reduzir obstáculos financeiros semelhantes aos que ele havia enfrentado durante o curso técnico.

Anos depois, o conhecimento adquirido na faculdade começou a ser levado de volta às aldeias

Em 2021, enquanto cursava o terceiro semestre de Medicina, Farato voltou ao Xingu e passou a realizar conversas com indígenas sobre a Covid-19 e a vacinação. Ele explicava informações sobre a doença e os imunizantes na língua de sua comunidade, em uma época marcada pela circulação de boatos sobre as vacinas.

Era, na prática, uma aproximação com o objetivo que ele havia repetido desde o início da trajetória. O rapaz que precisou aprender português, trabalhou para conseguir comer durante o curso e vestiu o primeiro jaleco após concluir a formação técnica começava a usar o conhecimento médico dentro do próprio território onde havia decidido seguir a profissão.

A história de Farato também mostra uma questão concreta enfrentada por estudantes indígenas que deixam suas comunidades para estudar nas cidades. O próprio levantamento do Iphan registra que jovens Matipu fazem esse deslocamento em busca de educação formal, muitas vezes conciliando trabalhos temporários durante o dia com estudos à noite, com a expectativa de retornar posteriormente às aldeias.

O que mais chama sua atenção na trajetória de Farato, a dificuldade com o português, os trabalhos que precisou aceitar para continuar estudando ou a decisão de voltar seu conhecimento para a própria comunidade? Deixe sua opinião nos comentários e conte o que essa história representa para você.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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