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Aos 39 anos e cego de um olho, Cassimiro Gonçalves concluiu o ensino médio pela EJA enquanto morava em um abrigo público de Belo Horizonte, estudou em bibliotecas, ficou em primeiro lugar para camareiro hospitalar e entrou em Engenharia Mecânica na UFMG
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 19/08/2026 às 14:23
Atualizado 19/08/2026 às 14:24
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Depois de perder o emprego, a casa e o noivado, um homem cego de um olho encontrou nos estudos uma oportunidade de reconstruir a própria vida enquanto morava em um abrigo público. A conclusão do ensino médio pela EJA e a preparação em bibliotecas terminaram em primeiro lugar para camareiro hospitalar e uma vaga em Engenharia Mecânica na UFMG.
Cassimiro Gonçalves dos Santos Neto tinha 39 anos e morava em um abrigo público de Belo Horizonte quando conquistou o primeiro lugar em um concurso para camareiro hospitalar do governo de Minas Gerais.
Cego de um olho e com visão parcial no outro, ele também concluiu o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos, participou do Enem e entrou no curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG.
A história foi publicada em abril de 2019. Naquele momento, Cassimiro já havia garantido as duas aprovações, mas ainda aguardava uma possível convocação para assumir o cargo público.
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Cassimiro perdeu o emprego, a casa e o noivado
Em 2017, a realidade vivida por Cassimiro era diferente daquela encontrada dois anos depois.
Ele trabalhava como técnico em mecânica, mantinha uma casa alugada e estava noivo. A rotina, porém, começou a mudar depois de uma sequência de conflitos familiares.
A depressão e o consumo de bebidas alcoólicas afetaram seu comportamento e sua estabilidade profissional. Cassimiro passou a faltar ao trabalho e acabou perdendo o emprego.
O noivado também chegou ao fim.
Sem salário e sem outra fonte de renda, ele começou a vender os móveis e os eletrodomésticos que havia adquirido. O dinheiro obtido ajudou temporariamente, mas não resolveu a falta de recursos.
Quando já não conseguiu pagar o aluguel, Cassimiro perdeu também a casa onde vivia.
Tentativas de morar com familiares não deram resultado
Cassimiro tentou deixar Belo Horizonte e procurar apoio entre familiares que moravam no interior de Minas Gerais.
As tentativas não funcionaram, e ele precisou retornar à capital mineira sem emprego, renda ou uma residência onde pudesse permanecer.
A assistência social apareceu como uma das poucas alternativas disponíveis naquele momento.
Cassimiro procurou atendimento e recebeu encaminhamento para o Abrigo São Paulo, localizado na região central de Belo Horizonte.
A entrada na rede de acolhimento público garantiu uma estrutura temporária para dormir e reorganizar aspectos básicos da rotina, enquanto ele buscava um caminho para reconstruir a própria vida.
Retorno aos estudos começou pela EJA
A mudança começou quando Cassimiro decidiu voltar à sala de aula.
Ele havia iniciado a vida profissional ainda jovem e não tinha concluído todas as etapas da educação básica. Já adulto, matriculou-se na Educação de Jovens e Adultos, conhecida como EJA.
A modalidade permitiu que Cassimiro retomasse o conteúdo escolar e concluísse o ensino médio enquanto ainda enfrentava as consequências das perdas acumuladas.
Os professores perceberam seu interesse pelos estudos e o incentivaram a dar um passo que até então parecia distante: participar do Exame Nacional do Ensino Médio.
O Enem poderia abrir o caminho para uma vaga no ensino superior, mas exigiria uma preparação mais intensa e uma rotina diferente daquela mantida até então.
Bibliotecas públicas viraram espaços de preparação
Sem uma casa ou um ambiente particular reservado aos estudos, Cassimiro recorreu às bibliotecas públicas de Belo Horizonte.
Os locais ofereciam livros, materiais de consulta e o silêncio necessário para manter a concentração. O abrigo, por sua vez, garantia a estrutura básica durante aquela fase.
O estudo passou a ocupar grande parte dos dias.
Cassimiro dizia que havia começado a demonstrar verdadeiro interesse pela educação somente na vida adulta, depois de anos dedicados principalmente ao trabalho.
A retomada escolar não ficou limitada à conclusão do ensino médio. O incentivo recebido na EJA levou o estudante ao Enem e colocou uma universidade federal entre as possibilidades de futuro.
Experiência em oficinas influenciou escolha do curso
A escolha por Engenharia Mecânica estava diretamente relacionada à trajetória profissional de Cassimiro.
Antes de perder o emprego, ele havia trabalhado como técnico em mecânica e acumulado experiência em oficinas. O curso superior representava uma continuação daquele conhecimento prático.
Depois de concluir o ensino médio e participar do Enem, Cassimiro conquistou uma vaga pelo sistema de cotas da Universidade Federal de Minas Gerais.
A aprovação permitiu que ele ingressasse em uma das principais universidades públicas do país, mesmo ainda vivendo em um abrigo e enfrentando dificuldades financeiras.
Mais do que iniciar uma graduação, a entrada na UFMG representava a possibilidade de transformar uma experiência profissional construída nas oficinas em formação acadêmica.
Deficiência visual não interrompeu a trajetória
Cassimiro nasceu cego de um olho e possuía visão parcial no outro, conforme as reportagens publicadas sobre sua história.
A deficiência visual esteve presente durante toda a trajetória, mas não o impediu de concluir o curso técnico, trabalhar com mecânica ou participar das seleções.
Ele também precisou enfrentar a preparação acadêmica e as provas enquanto reorganizava a vida dentro da rede pública de acolhimento.
A aprovação em Engenharia Mecânica demonstrou que a limitação visual não havia interrompido o objetivo construído depois do retorno aos estudos.
Na mesma fase, outro resultado colocou Cassimiro diante de uma possibilidade mais imediata de renda e estabilidade profissional.
Assista o vídeo
Primeiro lugar veio em concurso para camareiro hospitalar
Além do Enem, Cassimiro participou de um concurso do governo mineiro para trabalhar como camareiro hospitalar.
O candidato terminou a seleção em primeiro lugar.
A classificação chamou atenção pelas condições em que a preparação ocorreu. Cassimiro morava em um abrigo público, havia retomado recentemente a escolarização e ainda enfrentava uma deficiência visual.
O resultado, entretanto, não significava que ele assumiria imediatamente a função.
Na época em que a história foi publicada, Cassimiro ainda não sabia quando seria convocado. A situação financeira mencionada por ele gerava incerteza sobre o preenchimento da vaga.
As informações disponíveis confirmavam a primeira colocação, mas não registravam a posse no cargo.
Duas aprovações marcaram o início de uma nova fase
A falta de confirmação sobre a convocação não reduzia a importância da classificação.
Cassimiro havia saído de uma sequência marcada pela perda do emprego, pelo fim do noivado e pela impossibilidade de continuar pagando o aluguel.
Depois de procurar assistência social, encontrou no abrigo a estrutura necessária para reorganizar a rotina e, nas bibliotecas, um ambiente onde pudesse estudar.
A EJA permitiu concluir o ensino médio. O Enem abriu as portas da UFMG. O concurso colocou seu nome no primeiro lugar da classificação para camareiro hospitalar.
Em abril de 2019, a trajetória que antes era definida pelas perdas passou a reunir duas aprovações e a possibilidade de construir uma nova vida por meio dos estudos.
Cassimiro afirmava que a educação começava a produzir mudanças que ele não havia conseguido realizar durante os 38 anos anteriores.
Se o retorno à escola levou um homem cego de um olho e morando em um abrigo ao primeiro lugar de um concurso e a uma vaga em Engenharia Mecânica na UFMG, quantas trajetórias semelhantes ainda poderiam mudar com acesso à educação e acolhimento público?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

