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Aos 43 anos, mineiro cego que só começou a educação básica depois dos 20 aprende Braille, faz o Enem, entra em Pedagogia e se torna o primeiro estudante cego a concluir o curso na Universidade Federal de Viçosa

Aos 43 anos, mineiro cego que só começou a educação básica depois dos 20 aprende Braille, faz o Enem, entra em Pedagogia e se torna o primeiro estudante cego a concluir o curso na Universidade Federal de Viçosa

MG

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Aos 43 anos, mineiro cego que só começou a educação básica depois dos 20 aprende Braille, faz o Enem, entra em Pedagogia e se torna o primeiro estudante cego a concluir o curso na Universidade Federal de Viçosa

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 10/08/2026 às 12:00

Atualizado em 10/08/2026 às 12:01

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Edmilson Anjos dos Santos defendendo seu tcc – reprodução

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Edmilson Anjos dos Santos começou a educação formal depois dos 20 anos, aprendeu Braille, passou no Enem e, aos 43, tornou-se o primeiro estudante cego a concluir Pedagogia na UFV, onde transformou as próprias experiências de acessibilidade em tema do TCC.

Edmilson Anjos dos Santos chegou aos 20 anos sem ter percorrido a trajetória escolar comum à maioria dos estudantes. Nascido em 1981 e criado na zona rural de Guaraciaba, em Minas Gerais, ele só teve acesso à educação formal depois dos 20 anos, aprendeu posteriormente o Sistema Braille, concluiu a educação básica e, depois de duas tentativas no Enem, ingressou em Pedagogia na Universidade Federal de Viçosa em 2018.

Em julho de 2025, aos 43 anos, Edmilson recebeu o diploma de Pedagogia. O Departamento de Educação da UFV o identifica como o primeiro estudante cego a concluir o curso de Pedagogia na instituição. Antes da formatura, ele também havia se tornado o primeiro estudante cego a defender um Trabalho de Conclusão de Curso na UFV, escolhendo justamente sua experiência de acessibilidade e inclusão dentro da universidade como objeto de estudo.

Educação formal começou somente depois dos 20 anos

Edmilson nasceu em 1981 em uma família da zona rural de Guaraciaba. Segundo o Departamento de Educação da UFV, sua deficiência visual não foi compreendida inicialmente e ele passou a infância sem acesso regular à educação formal, enquanto as instituições disponíveis também não tinham estrutura adequada para recebê-lo.

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Aos 20 anos, ele procurou a Escola Municipal José Tiago da Cunha e Castro disposto a começar a estudar. A reportagem local da Folha de Ponte Nova, baseada em entrevista com Edmilson e em informações da UFV, registra que ele iniciou sua escolarização ao lado de crianças de aproximadamente sete anos e concluiu ali os primeiros anos do ensino fundamental.

A diferença de idade era apenas uma das barreiras. A própria UFV relata que as escolas frequentadas por Edmilson não dispunham inicialmente dos recursos necessários para estudantes com deficiência visual. Ele chegou a utilizar cadernos sem pauta, réguas e letras em relevo enquanto buscava formas de acompanhar o conteúdo.

Braille abriu caminho para a conclusão do ensino médio

A mudança mais importante nessa etapa ocorreu quando Edmilson teve acesso ao Sistema Braille. A alfabetização em Braille foi realizada em uma sala de recursos e passou a oferecer uma ferramenta de leitura e escrita compatível com suas necessidades.

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Mais tarde, ele estudou no Centro Estadual de Educação Continuada Vera Parentoni, em Ponte Nova, onde concluiu o ensino fundamental e o ensino médio. Paralelamente, frequentou a Escola Estadual Senador Antônio Martins, também em Ponte Nova, para desenvolver sua alfabetização pelo Sistema Braille.

A trajetória que havia começado somente na vida adulta finalmente o colocou diante de uma possibilidade que anos antes parecia distante: disputar uma vaga em uma universidade federal. Depois da conclusão da educação básica, o próximo obstáculo seria o Exame Nacional do Ensino Médio.

Segunda tentativa no Enem terminou com vaga em Pedagogia na UFV

Edmilson realizou o Enem duas vezes. A UFV informa que, em 2017, na segunda tentativa, conseguiu a pontuação necessária para ingressar no curso que desejava. Sua entrada efetiva na Universidade Federal de Viçosa ocorreu no primeiro semestre de 2018, no curso de Pedagogia.

A chegada à universidade criou um novo conjunto de desafios. O Departamento de Educação registra que Edmilson encontrou barreiras físicas e pedagógicas e que parte dos materiais e procedimentos acadêmicos ainda precisava ser adaptada às necessidades de um estudante cego.

Desde o ingresso, ele passou a ser atendido pela Unidade Interdisciplinar de Políticas Inclusivas da UFV. O suporte institucional acompanharia sua graduação e seria importante para tarefas tão diferentes quanto leitura de materiais, realização de avaliações, organização dos estudos e adaptação do conteúdo utilizado pelos professores.

Braille, ledor e monitoria acompanharam os anos de graduação

Entre os recursos disponibilizados pela UFV estavam materiais impressos em Braille, ledor e transcritor para avaliações, suporte didático e pedagógico e, quando necessário, ampliação do prazo destinado à realização das provas. A universidade também oferecia orientação aos professores para preparar materiais acessíveis.

Edmilson Anjos dos Santos defendendo seu tcc – reprodução

Edmilson recebeu ainda monitoria inclusiva individualizada, com encontros semanais em dias e horários definidos.

O acompanhamento incluía montagem de cronogramas de estudo, preparação para provas, realização de trabalhos acadêmicos e identificação das disciplinas ou conteúdos em que adaptações adicionais eram necessárias.

Sua participação nas atividades de acessibilidade deixou de ocorrer apenas na condição de estudante atendido.

Em 2024, por exemplo, Edmilson participou como consultor em trabalhos de audiodescrição e integrou atividades da própria universidade voltadas à ampliação da acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

Primeiro estudante cego a defender um TCC na UFV

Em 26 de junho de 2025, Edmilson alcançou outro marco acadêmico. A Universidade Federal de Viçosa registrou oficialmente que ele se tornou o primeiro estudante cego a defender um Trabalho de Conclusão de Curso na instituição.

O trabalho recebeu o título Espaços e vivências pelos corredores da Universidade Federal de Viçosa: um relato de experiência de um estudante cego no ensino superior.

A orientação ficou a cargo da professora Bethania Medeiros Geremias, com coorientação de Janaína Torres Lopes.

Na foto, a coorientadora Janaína Torres, o prof. Arthur Meucci, a profa. Gabriela Silveira Meireles, o estudante Edmilson Anjos dos Santos e a orientadora Bethania Medeiros Geremias.

Em vez de escolher um tema distante de sua experiência, Edmilson transformou os próprios anos dentro do campus em objeto de investigação.

O estudo abordou suas vivências como estudante cego, as políticas de inclusão, a formação docente e o papel das tecnologias assistivas para garantir condições de acesso e permanência no ensino superior.

TCC registrou as barreiras encontradas dentro da universidade

O trabalho não apresentou a entrada na universidade como suficiente para garantir inclusão. Edmilson analisou também o que acontece depois que um estudante com deficiência consegue a vaga, especialmente as adaptações necessárias para acompanhar disciplinas, fazer provas, acessar materiais e circular pelo ambiente universitário.

A banca foi formada pelos professores Arthur Meucci e Gabriela Silveira Meireles, além da orientação de Bethania Medeiros Geremias e da coorientação de Janaína Torres Lopes.

O Departamento de Educação destacou o trabalho como um registro das experiências de Edmilson e das mudanças necessárias para ampliar a inclusão no próprio campus.

O TCC também permitiu documentar como a estrutura oferecida pela UFV foi sendo utilizada ao longo da graduação.

Recursos de Braille, monitoria, tecnologias assistivas e acompanhamento pedagógico, que haviam sido necessários para sua permanência, passaram a integrar a análise acadêmica feita pelo próprio estudante.

Aos 43 anos, Edmilson recebeu o diploma de Pedagogia

A formatura ocorreu em 25 de julho de 2025. A Folha de Ponte Nova registrou que Edmilson tinha 43 anos quando foi diplomado em Pedagogia pela Universidade Federal de Viçosa, pouco menos de um mês depois da defesa do Trabalho de Conclusão de Curso.

O Departamento de Educação da UFV classifica Edmilson como o primeiro estudante cego a concluir o curso de Pedagogia na instituição. Essa formulação é mais precisa do que afirmar que ele foi o primeiro estudante cego a se formar em qualquer curso de toda a história da UFV, algo que as fontes oficiais consultadas não estabelecem.

O diploma encerrou uma trajetória educacional iniciada mais de duas décadas depois do período convencional de alfabetização.

Entre o começo da educação básica depois dos 20 anos e a formatura aos 43, vieram a aprendizagem do Braille, a conclusão do ensino médio, duas tentativas no Enem, o ingresso na UFV em 2018 e sete anos de graduação até a conclusão de Pedagogia.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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