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Aos 44 anos, formando em Direito atravessa o palco erguendo um facão e uma enxada para homenagear os pais cortadores de cana e revela que ele mesmo cortou cana dos 12 aos 23 anos
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 06/08/2026 às 21:35
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Agnaldo Araújo colou grau em 15 de janeiro segurando as duas ferramentas. A família saiu do norte do Paraná em 1982 para trabalhar nos canaviais do interior paulista, e o diploma de Direito é a segunda graduação dele, depois de administração de empresas.
O facão e a enxada que Agnaldo Araújo levou para a colação de grau em 15 de janeiro não eram adereço de fantasia, e sim os instrumentos de trabalho dos pais dele, ex-cortadores de cana, conforme reportagem publicada pelo Correio Braziliense. Ele tinha 44 anos e se formava em Direito.
A homenagem gerou estranhamento antes de gerar emoção. Segundo o relato dele, o público inicialmente se perguntou o que aquele homem estava fazendo com uma enxada e uma faca na mão, e só ao longo do discurso ficou claro que se tratava de uma referência aos pais e a todos os pais que trabalham pelos filhos.
Onze anos no canavial
A história não começa com os pais apenas. Ele também cortou cana, e por mais de uma década.
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Nascido em Peabiru, no norte do Paraná, ele tinha 4 anos quando a família migrou para o interior de São Paulo, em 1982, para trabalhar nos canaviais de Areiópolis. Era a única forma que encontraram de sustentar os filhos.
Aos 12 anos, ele entrou na lavoura junto com os pais e permaneceu até os 23. Foram onze anos com o facão na mão antes de qualquer sala de aula, período que ele encerrou com uma decisão comunicada em casa.
A conversa com a mãe
O momento que ele identifica como virada tem local e interlocutora definidos. Foi uma conversa com a mãe, dentro de casa.
Ele afirma ter dito a ela que mudaria a história da família, que quebraria aquele ciclo, que estudaria e seria alguém na vida.
A escolha do caminho veio de uma leitura prática da própria situação. Ele concluiu que estudar era a única forma de sair dali, e passou a organizar a vida em função disso, sem que houvesse qualquer garantia de que o plano daria certo.
O racismo que entrou na conta
Havia um obstáculo adicional no percurso, e ele fala abertamente sobre isso. Durante o período de transição, enfrentou preconceito e racismo.
A experiência funcionou como motivação adicional para insistir nos estudos. Segundo o relato, ele percebeu que teria de se esforçar muito mais que os outros e que só seria valorizado se tivesse conhecimento, e por isso persistiu.
A pauta antirracista deixou de ser questão pessoal e virou atuação pública. Ele assumiu a presidência do Conselho da Consciência Negra em Lençóis Paulista, cidade onde mora, e cita Martin Luther King e Nelson Mandela entre as inspirações, ao lado dos próprios pais.
De vigilante a diretor da empresa
A saída da lavoura não foi direto para a universidade. O primeiro passo foi um curso de vigilante, feito logo depois que ele deixou o corte de cana.
A partir dali, a progressão aconteceu dentro da mesma empresa. Ano após ano, ele foi assumindo cargos mais altos até chegar ao comando da companhia.
Foi esse percurso que definiu a área de atuação dele. Desde os 31 anos ele trabalha no ramo empresarial de segurança, e a escolha do primeiro curso superior seguiu essa lógica: administração de empresas, concluído em 2015 na mesma instituição onde depois cursaria Direito.
O pai que não viu a homenagem
A cena da colação carrega um peso que o público presente não conhecia naquele momento.
O pai dele, um dos homenageados pelas ferramentas erguidas no palco, havia morrido no ano anterior, de leucemia.
A mãe também não estava na cerimônia, por causa das restrições da pandemia, mas assistiu à homenagem em vídeo e se emocionou. A frase que ele usa para explicar o gesto resume a lógica dele: sozinho ninguém conquista nada e ninguém chega a lugar nenhum.
O que ele diz sobre o pai
A parte do relato dedicada ao pai não trata de sacrifício financeiro, mas de conduta.
Ele conta que foi incentivado a estudar e que o pai se alegrava com cada conquista da carreira dele, atitude que aponta como decisiva para ter chegado onde chegou.
A descrição que faz do pai é de caráter, não de esforço. Ele o define como exemplo de dignidade, honestidade e retidão, e diz nunca tê lo visto falar mal de alguém ou deixar de cumprir uma obrigação, valores que afirma ter absorvido observando.
A repercussão que ele não esperava
O alcance da cena surpreendeu o próprio autor dela. Ele se mostrou espantado com a dimensão que a história tomou.
Depois da formatura, passou a receber mensagens de apoio, muitas delas de pessoas relatando ter se inspirado no caso dele.
A reação que ele descreve diante disso é de gratidão. Ele afirma que aquilo enche o coração dele, e que se sente grato pelo retorno recebido de gente que nem conhece.
O que vem depois do segundo diploma
O próximo passo já está definido. Ele se prepara para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil, requisito para exercer a advocacia.
Além disso, há dois desejos que ele menciona sem cronograma. Um é permanecer ligado à sala de aula. O outro é criar algum projeto social voltado a comunidades em situação de vulnerabilidade.
O que orienta essas escolhas é o filho e a possibilidade de inspirar outras pessoas a superarem obstáculos. A frase que ele repete para resumir isso é que não importa de onde a pessoa veio, e sim aonde ela quer chegar.
Duas ferramentas em cima de um palco
O que torna essa cena forte não é o contraste entre a beca e a enxada. É o fato de que as duas coisas pertencem à mesma pessoa.
Ele não levou ao palco um objeto emprestado da história dos pais. Levou a ferramenta que ele próprio usou dos 12 aos 23 anos, no mesmo canavial em que eles trabalhavam.
E você, faria uma homenagem assim na sua formatura? Acha que gestos desse tipo emocionam ou incomodam em cerimônia formal? Conta nos comentários o que a sua família fez para você poder estudar.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

