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Aos 49 anos, passadeira que trabalhou por décadas para colocar comida dentro de casa ignorou quem dizia que ela estava velha demais, prestou vestibular 12 vezes e conquistou uma vaga em Medicina na Uneb, quase 500 km distante de Petrolina

Aos 49 anos, passadeira que trabalhou por décadas para colocar comida dentro de casa ignorou quem dizia que ela estava velha demais, prestou vestibular 12 vezes e conquistou uma vaga em Medicina na Uneb, quase 500 km distante de Petrolina

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Aos 49 anos, passadeira que trabalhou por décadas para colocar comida dentro de casa ignorou quem dizia que ela estava velha demais, prestou vestibular 12 vezes e conquistou uma vaga em Medicina na Uneb, quase 500 km distante de Petrolina

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 11/08/2026 às 16:57

Atualizado em 11/08/2026 às 16:58

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Passadeira conquista vaga em Medicina aos 49 anos após 12 tentativas

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Depois de mais de 15 anos longe dos estudos, Janecleia voltou às salas de aula sem dinheiro para cursinho, disputou bolsas em preparatórios e insistiu por 12 anos até ver o próprio nome entre os aprovados em Medicina

Aos 49 anos, depois de passar boa parte da vida trabalhando para sustentar a família, Janecleia Sueli Maia Martins conseguiu uma vaga no curso de Medicina da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Salvador. Moradora de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, ela precisaria deixar a família e percorrer quase 500 quilômetros para transformar um sonho de infância em rotina universitária.

Conhecida como Jane, ela havia passado por trabalhos como caixa de supermercado, faxineira, cozinheira e passadeira. O dinheiro era usado para as despesas de casa e, durante muitos anos, pagar uma faculdade ou mesmo um curso preparatório estava fora do orçamento.

A aprovação veio somente na 12ª tentativa, depois de anos enfrentando vestibulares e comentários de pessoas que consideravam sua idade um obstáculo. Quando o resultado da seleção da Uneb foi divulgado, em 27 de fevereiro de 2023, ela nem se lembrava de que a lista sairia naquele dia.

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Segundo reportagem publicada pelo UOL em 9 de março daquele ano, Janecleia recebeu as primeiras notícias da aprovação por mensagens de amigos e demorou alguns minutos para acreditar. A vaga significava entrar em Medicina aos 49 anos, mais de três décadas depois de ela ter colocado os estudos em segundo plano para trabalhar e criar os filhos.

O sonho de ser médica começou aos 11 anos, mas casamento, filhos e a necessidade de trabalhar mudaram seus planos

mulher aprovada em medicina, vestibular aos 49 anos, curso de medicina UNEB, passadeira virou universitária, 12 tentativas vestibular. (Foto: Arquivo pessoal)

Janecleia dizia querer ser médica desde os 11 anos. Aos 16, já havia concluído o ensino médio, casou-se e interrompeu a trajetória escolar. Um ano depois tornou-se mãe pela primeira vez e, aos 24, teve o segundo filho.

A prioridade passou a ser outra. Era preciso trabalhar para colocar comida dentro de casa, e a possibilidade de dedicar anos à preparação para um dos cursos mais disputados do país ficou distante.

A história começou a mudar em 2010, quando Jane, então com cerca de 36 anos, decidiu voltar a estudar e colocar Medicina novamente como objetivo. Depois de mais de 15 anos afastada das salas de aula, ela relatou ter encontrado conteúdos diferentes daqueles que conhecia e precisou praticamente recomeçar a preparação.

Sem dinheiro para pagar regularmente um cursinho particular, buscava bolsas destinadas a estudantes vindos de escolas públicas e também recorria a ajuda quando não conseguia uma vaga gratuita. Em entrevista reproduzida pela imprensa pernambucana na época, ela contou que estudava enquanto continuava trabalhando e cuidando das responsabilidades familiares.

Há ainda uma correção cronológica em relação a relatos publicados quando a história ganhou repercussão. Embora algumas reportagens tenham associado a retomada dos estudos em 2010 à chegada de Medicina à Univasf, a própria Universidade Federal do Vale do São Francisco informa que o curso de Medicina do Campus Sede de Petrolina foi criado em 2004, no início das atividades da instituição.

A cada tentativa frustrada, ela ouvia que estava velha demais para começar Medicina

A preparação se estendeu por anos. Janecleia passou a disputar seleções de instituições estaduais e federais no Nordeste enquanto continuava trabalhando, principalmente passando roupas.

Além da dificuldade acadêmica e financeira, surgiu outro obstáculo. Pessoas próximas questionavam o sentido de tentar começar uma graduação tão longa depois dos 40 anos. “O que eu mais ouvi é que estava velha para isso”, contou ela ao relembrar as reações que recebia quando dizia que prestaria Medicina.

Mesmo assim, os vestibulares continuaram. O período de preparação chegou a 12 anos e incluiu sucessivas reprovações até a seleção da Uneb de 2023.

Pouco antes da prova que finalmente mudaria a sequência de resultados, Janecleia enfrentou a morte do pai. Ela chegou a considerar desistir daquele vestibular, mas decidiu comparecer porque já havia feito a inscrição como candidata de baixa renda.

Foi justamente na prova feita em um momento de pouca expectativa que veio a aprovação. O curso escolhido era oferecido pela Uneb no Campus I, em Salvador, dentro do Departamento de Ciências da Vida, o que significava trocar Petrolina pela capital baiana para frequentar Medicina.

Depois da aprovação surgiu outro problema e ela chegou a Salvador com apenas R$ 30 no bolso

Passar no vestibular resolveu apenas uma parte da dificuldade. Janecleia precisava garantir a matrícula rapidamente e não tinha dinheiro sequer para a viagem completa entre Petrolina e Salvador.

A família se mobilizou para conseguir recursos. O custo estimado das passagens de ida e volta era de cerca de R$ 350, mas ela comprou inicialmente apenas o trecho de ida e viajou para a Bahia levando outros R$ 30.

Depois de entregar a documentação e efetuar a matrícula, voltou para a rodoviária de Salvador. Enquanto aguardava, a filha buscava ajuda de amigos para conseguir dinheiro suficiente para comprar a passagem de volta a Petrolina.

Outro relato publicado sobre a viagem informa que Janecleia levou água e biscoitos de casa e ficou na rodoviária até que a família conseguisse os recursos necessários. A situação mostrava que, mesmo depois de 12 tentativas e da aprovação, permanecer no curso seria uma dificuldade financeira tão concreta quanto entrar nele.

Uma vaquinha foi criada para bancar os primeiros meses longe de casa

Com a matrícula garantida, a preocupação passou a ser como morar em Salvador e frequentar um curso integral distante de Petrolina. A filha criou uma campanha de arrecadação para ajudar a mãe nos primeiros meses.

Jane também pretendia procurar a assistência estudantil da universidade e verificar a possibilidade de conseguir apoio para moradia. Caso o dinheiro não fosse suficiente, dizia estar preparada para continuar passando roupas ou fazendo faxinas enquanto estudava.

A UNEB mantém uma Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, estrutura responsável por programas e atendimento voltados à permanência de estudantes na instituição. Para alguém que chegava a Salvador sem renda suficiente para manter aluguel e despesas por vários anos, esse tipo de suporte poderia ser decisivo.

As aulas estavam previstas para começar em 13 de março de 2023. Naquele momento, a meta declarada por Janecleia era concluir a graduação e tornar-se a primeira médica da família.

A história, porém, ganhou um novo capítulo depois da aprovação

A repercussão nacional da aprovação foi seguida por uma controvérsia envolvendo a modalidade pela qual Janecleia entrou na universidade. Ela havia concorrido por uma vaga reservada a candidatos negros oriundos de escola pública, e sua autodeclaração racial passou a ser questionada.

Em fevereiro de 2024, o Ministério Público da Bahia recomendou oficialmente que a Uneb instaurasse procedimentos administrativos para analisar a autodeclaração de sete estudantes cotistas matriculados em Medicina. O MP-BA afirmou que a universidade deveria garantir análise por comissão especializada, contraditório e ampla defesa antes das decisões finais.

Em abril de 2024, a Agência Sertão informou, com base em portaria publicada no Diário Oficial da Bahia, que a Uneb decidiu cancelar a matrícula de Janecleia após o processo administrativo. A reportagem também registrou que uma comissão departamental havia anteriormente emitido parecer favorável à estudante, mostrando que o caso passou por diferentes etapas de avaliação dentro da instituição.

A controvérsia não desapareceu naquele momento. Em 28 de novembro de 2024, Janecleia participou de uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados sobre os desafios das bancas de heteroidentificação. No registro oficial do evento, ela aparece identificada como “estudante – UNEB” e participou de diferentes momentos do debate.

Não foi localizado, nas fontes públicas consultadas, um documento oficial posterior que permita afirmar com segurança qual é sua situação acadêmica definitiva atualmente. Por isso, a aprovação obtida aos 49 anos continua sendo um fato documentado, mas o desdobramento envolvendo a matrícula precisa acompanhar a história para que o relato não pare em março de 2023.

A trajetória de Janecleia chama atenção pela sequência de mais de 15 anos longe dos estudos, 12 tentativas, trabalho para sustentar a família e uma aprovação em Medicina aos 49 anos, além da controvérsia que surgiu posteriormente sobre a vaga. E você, o que pensa sobre alguém voltar a estudar depois de décadas e insistir tantas vezes por uma graduação? Deixe sua opinião nos comentários e conte se você conhece uma história parecida.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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