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Aos 61 anos e aposentado após 33 anos como auxiliar de maquinista, maranhense conclui o ensino médio em três anos com ajuda das netas, tira 620 na redação do Enem, passa para Turismo na UFMA e segue como aluno ativo quatro anos depois

Aos 61 anos e aposentado após 33 anos como auxiliar de maquinista, maranhense conclui o ensino médio em três anos com ajuda das netas, tira 620 na redação do Enem, passa para Turismo na UFMA e segue como aluno ativo quatro anos depois

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Aos 61 anos e aposentado após 33 anos como auxiliar de maquinista, maranhense conclui o ensino médio em três anos com ajuda das netas, tira 620 na redação do Enem, passa para Turismo na UFMA e segue como aluno ativo quatro anos depois

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 18/08/2026 às 19:43

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Trajetória marcada por décadas de trabalho, estudos interrompidos e apoio familiar revela como uma decisão tomada depois da aposentadoria abriu espaço para uma experiência universitária inesperada, construída entre lembranças da ferrovia, preparação dentro de casa e uma nova rotina acadêmica em uma universidade federal.

Depois de passar mais de três décadas trabalhando como auxiliar de maquinista, Antônio Jorge Dinis Almeida retomou uma etapa da vida que havia sido interrompida ainda na juventude e transformou a aposentadoria em ponto de partida para voltar aos estudos.

Aos 61 anos, o maranhense concluiu o ensino médio após três anos de preparação, recebeu ajuda das netas, obteve 620 pontos na redação do Enem e conquistou uma vaga no curso de Turismo da Universidade Federal do Maranhão, a UFMA.

Mais do que marcar sua entrada tardia no ensino superior, a aprovação iniciou uma trajetória acadêmica que permaneceu ativa nos anos seguintes, já que Antônio continua aparecendo na relação pública de alunos do curso de Turismo da universidade quatro anos após conquistar a vaga.

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Mais de 33 anos de trabalho na ferrovia antes da universidade

Muito antes de chegar a uma sala universitária, Antônio construiu a maior parte da vida profissional dentro do setor ferroviário, onde trabalhou durante 33 anos e seis meses como auxiliar de maquinista, primeiro em trens de passageiros e depois em operações de transporte de cargas.

A longa carreira, porém, havia sido precedida por uma interrupção escolar ainda na juventude, quando a morte do pai alterou as prioridades da família e levou Antônio a deixar o segundo ano do ensino médio para trabalhar e ajudar a mãe e os irmãos.

Segundo reportagem do Brasil Escola, a necessidade de contribuir com a renda doméstica colocou a educação em segundo plano durante décadas, enquanto diferentes experiências profissionais passaram a ocupar uma rotina que acabaria afastando, por muito tempo, a possibilidade de concluir a formação básica.

Entre essas experiências esteve uma passagem de quatro anos pelo Exército, período em que Antônio chegou à graduação de cabo e ainda tentou voltar aos estudos, embora não tenha conseguido terminar o ensino médio enquanto conciliava as obrigações profissionais daquela fase.

Depois de deixar a instituição militar, ele passou aproximadamente um ano trabalhando como segurança na antiga Rede Ferroviária Federal, experiência que antecedeu a oportunidade que definiria grande parte de sua vida profissional e estabeleceria uma ligação duradoura com o setor ferroviário.

Ao saber da realização de um concurso para auxiliar de maquinista, Antônio participou da seleção, foi aprovado e iniciou uma carreira que começou nos trens de passageiros, seguiu posteriormente nas composições de carga e ultrapassou três décadas de atividade antes da aposentadoria.

Aposentadoria abriu caminho para a retomada dos estudos

Encerrada a carreira profissional entre 2015 e 2016, o retorno à escola ainda demorou alguns anos, até que Antônio decidiu recuperar o conteúdo perdido e começou a revisar em casa as disciplinas do ensino médio com apostilas da Educação de Jovens e Adultos, a EJA.

Ao longo dessa retomada, parte das avaliações ocorreu presencialmente e outra parcela foi realizada pela internet durante o período de restrições provocado pela pandemia, enquanto videoaulas e pesquisas online passaram a complementar o material utilizado para reconstruir conhecimentos deixados para trás.

Aos 61 anos, aposentado retoma os estudos, tira 620 no Enem, entra em Turismo na UFMA e segue como aluno ativo quatro anos depois.

Como havia permanecido muitos anos distante de matérias como Matemática, Física e Química, o ex-ferroviário precisou reorganizar a rotina de aprendizagem e encontrou dentro da própria família uma rede de apoio capaz de ajudá-lo a avançar até a conclusão do ensino médio.

Netas tiveram papel direto na preparação

Nesse processo, as irmãs gêmeas Yngridy e Yasmin, filhas de sua enteada e tratadas por Antônio como netas, participaram diretamente da preparação, dividindo a ajuda conforme as áreas de conhecimento relacionadas aos cursos universitários que cada uma frequentava naquele período.

Yngridy, estudante de Engenharia Civil na UFMA, auxiliava principalmente em Matemática, Física e Química, enquanto Yasmin, que cursava Direito, contribuía nas disciplinas ligadas às Ciências Humanas, formando uma espécie de apoio doméstico para a nova rotina de estudos do avô.

O incentivo familiar também veio do filho de Antônio, professor universitário, que o estimulou a concluir a formação interrompida na adolescência, enquanto as netas passaram a enxergar no Enem uma oportunidade concreta para levar o projeto educacional além da conclusão do ensino médio.

Depois dessa etapa, elas incentivaram o avô a participar do Exame Nacional do Ensino Médio e acompanharam a preparação necessária para transformar o desempenho obtido na prova em uma candidatura real a uma vaga no ensino superior público.

Redação do Enem terminou com 620 pontos

Na prova de redação, Antônio alcançou 620 pontos, resultado obtido depois de décadas afastado da educação formal e de uma retomada relativamente recente das disciplinas escolares, construída principalmente com estudo em casa, conteúdos disponíveis na internet e colaboração direta da família.

Durante a preparação, ele pesquisou vídeos relacionados à redação do Enem, embora não tivesse adotado uma rotina frequente de produção de textos antes do exame, estratégia diferente daquela utilizada por muitos candidatos que passam meses treinando modelos de escrita para a prova.

Quando as notas ficaram disponíveis, as netas apresentaram ao avô a possibilidade de usar o desempenho no Sistema de Seleção Unificada, o SiSU, abrindo uma nova etapa na trajetória que inicialmente tinha como objetivo principal apenas concluir os estudos interrompidos na juventude.

Antônio procurava uma graduação com a qual pudesse se identificar e chegou a considerar Ciências Contábeis, mas a pontuação disponível levou a família a avaliar outras alternativas compatíveis com o resultado obtido e com os interesses pessoais desenvolvidos ao longo da vida.

Turismo na UFMA tornou-se a primeira escolha

Entre as possibilidades avaliadas, Turismo passou a ocupar a primeira opção, enquanto Ciências Imobiliárias ficou como segunda alternativa, em uma decisão que também dialogava com as viagens realizadas pelo ex-ferroviário durante a carreira e com seu interesse pela cultura maranhense.

A escolha pelo curso ganhou sentido adicional pela relação de Antônio com São Luís e com diferentes regiões conhecidas durante os anos de trabalho, aproximando a nova formação universitária de experiências acumuladas muito antes de ele retornar formalmente aos estudos.

A inscrição terminou com a aprovação para Turismo na UFMA pela lista de espera do SiSU, resultado acompanhado pelas próprias netas, que localizaram o nome de Antônio entre os convocados e comunicaram à família que a tentativa havia se transformado em uma vaga universitária.

Assim, aos 61 anos, o antigo auxiliar de maquinista passou diretamente da retomada do ensino médio para a condição de calouro de uma universidade federal, depois de uma sequência marcada pelo serviço militar, pela ferrovia, pela aposentadoria e pela volta à educação formal.

Antônio Jorge permanece como aluno ativo da UFMA

Embora a aprovação tenha chamado atenção pelo momento da vida em que ocorreu, o vínculo com a universidade não terminou naquele episódio, porque quatro anos depois o nome de Antonio Jorge Dinis Almeida continua registrado entre os alunos ativos do curso de Turismo da UFMA.

A permanência acadêmica acrescenta uma nova etapa a uma história iniciada muito antes do vestibular, quando circunstâncias familiares interromperam os estudos e transformaram o trabalho em prioridade, deixando a formação escolar para ser retomada somente décadas depois.

Entre o abandono do ensino médio e a chegada à universidade ficaram mais de 33 anos como auxiliar de maquinista, a aposentadoria, três anos dedicados à conclusão da educação básica, o apoio das netas e uma nota de 620 pontos na redação do Enem.

Quantos brasileiros que interromperam os estudos para trabalhar ainda podem encontrar, depois de décadas longe da escola, uma oportunidade semelhante para retomar a formação e construir uma nova etapa dentro de uma universidade?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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