RS
7 min de leitura
Aos 70 anos, aposentada de Porto Alegre viu R$ 37 milhões de uma herança desaparecerem no golpe do “abate de porcos”; ela denunciou à polícia, que chegou a um esquema com movimentações atípicas acima de R$ 30 bilhões — quantas pessoas podem ter caído no mesmo golpe?
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 15/08/2026 às 21:24
Atualizado em 15/08/2026 às 21:25
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Investigação da Polícia Civil começou com o relato de uma única vítima e avançou sobre uma estrutura financeira que teria usado empresas, contas bancárias, “laranjas” e criptoativos; ao menos 140 potenciais vítimas já aparecem no radar dos investigadores
Tudo começou com uma aposentada de 70 anos, moradora de Porto Alegre, e um patrimônio construído a partir de uma herança e de rendimentos acumulados ao longo dos anos. Ela já investia no mercado financeiro, mantinha recursos em uma corretora legítima e tinha experiência com aplicações. Em algum momento, porém, surgiu uma oportunidade que parecia oferecer algo melhor.
Era uma falsa plataforma de investimentos.
A aposentada foi convencida a retirar o dinheiro que mantinha na corretora e transferi-lo para a estrutura apresentada pelos golpistas. Os números exibidos na plataforma davam a impressão de que os investimentos estavam funcionando. Quanto maior a confiança, maiores eram os aportes.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Quando percebeu o que havia acontecido, mais de R$ 37 milhões tinham desaparecido.
A denúncia feita à Polícia Civil em fevereiro do ano passado transformou um caso individual em uma investigação muito maior. Segundo informações publicadas pelo G1, a apuração passou a rastrear empresas, contas bancárias e operações com criptoativos e encontrou movimentações consideradas atípicas superiores a R$ 30 bilhões.
O caso resultou na Operação Criptoabate, deflagrada pela Polícia Civil gaúcha contra uma organização investigada pela prática conhecida internacionalmente como “pig butchering”, ou “abate de porcos”.
De uma vítima de R$ 37 milhões a pelo menos 140 potenciais vítimas
A dimensão encontrada pelos investigadores ajuda a explicar por que a denúncia da aposentada ganhou outra escala.
A Polícia Civil identificou pelo menos 140 potenciais vítimas relacionadas à mesma dinâmica investigada. A operação reúne 90 ordens judiciais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
São 10 mandados de prisão preventiva, 16 mandados de busca e apreensão, bloqueios de contas bancárias e medidas cautelares impostas a outros oito investigados. Dois alvos já haviam sido presos no momento da divulgação da operação.
Entre os investigados aparecem três proprietários de instituições financeiras que trabalham com conversão de moeda fiduciária em criptoativos, dois estrangeiros — sendo um deles também proprietário de uma dessas empresas — e uma gerente ligada a uma instituição financeira tradicional.
A suspeita é de que essa profissional tenha facilitado a abertura de contas utilizadas pela estrutura investigada. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados pela Polícia Civil nesta fase.
O salto entre uma denúncia de R$ 37 milhões e uma investigação que alcança movimentações superiores a R$ 30 bilhões mostra justamente a complexidade desse tipo de fraude. O golpe aplicado à vítima pode ser apenas a porta de entrada para uma estrutura financeira muito mais ampla, cuja extensão só aparece quando investigadores começam a seguir o caminho percorrido pelo dinheiro.
Há uma ressalva importante: os R$ 30 bilhões não representam o prejuízo das vítimas. A própria Polícia Civil destaca que a cifra corresponde ao volume de movimentações consideradas atípicas entre pessoas físicas e jurídicas analisadas. Isso também não significa que todo esse dinheiro tenha origem criminosa.
Como R$ 37 milhões desapareceram em uma falsa plataforma
A principal vítima não era uma pessoa completamente alheia ao mercado financeiro.
Segundo o delegado Eibert Moreira, responsável pela investigação, a aposentada já investia por meio de uma corretora legítima e contava com o acompanhamento de um corretor. Seu perfil era considerado agressivo, com interesse por aplicações capazes de proporcionar rentabilidade mais elevada.
O profissional que a atendia teria recomendado cautela com aportes elevados em investimentos de maior risco.
Os criminosos conseguiram convencê-la.
A aposentada retirou os recursos da corretora legítima e passou a direcioná-los para a falsa plataforma. Parte significativa daquele patrimônio vinha de uma herança, somada aos rendimentos obtidos em investimentos anteriores.
Ela perdeu mais de R$ 37 milhões.
Esse é um dos elementos que tornam o “abate de porcos” particularmente perigoso. O objetivo não é necessariamente arrancar uma pequena transferência da vítima e desaparecer imediatamente. O criminoso trabalha para construir confiança e aumentar gradualmente o valor entregue.
O que é o golpe do “abate de porcos”
O nome vem da expressão inglesa “pig butchering” e descreve uma fraude na qual a vítima é preparada durante determinado período antes de sofrer grandes perdas financeiras.
Segundo a Polícia Civil, pessoas abordadas pelo grupo eram colocadas em grupos de mensagens que simulavam comunidades voltadas ao estudo do mercado financeiro e a investimentos.
A encenação tinha vários personagens.
Supostos especialistas apresentavam análises. Assistentes ajudavam a transmitir profissionalismo. Outros participantes interagiam como se fossem investidores comuns e reforçavam a impressão de que estavam ganhando dinheiro.
A plataforma exibia resultados aparentemente positivos. A vítima via o patrimônio crescer na tela e, acreditando no retorno apresentado, era estimulada a colocar mais dinheiro.
Até tentar sacar.
Nesse momento, os valores podiam ser bloqueados. Surgiam então cobranças adicionais apresentadas como impostos, taxas ou pagamentos necessários para liberar o patrimônio.
A vítima, já comprometida financeiramente e convencida de que possui uma quantia elevada esperando para ser resgatada, pode acabar transferindo ainda mais recursos na tentativa de recuperar aquilo que colocou na plataforma.
É uma diferença importante em relação aos golpes digitais de grande escala baseados em milhares de mensagens disparadas indiscriminadamente. Aqui, segundo a própria investigação, havia uma seleção mais restrita de alvos e um trabalho prolongado de convencimento.
Vítimas ajudavam a levar outras pessoas para a plataforma
O delegado Eibert Moreira descreveu a atuação como “low profile”.
Não haveria uma campanha publicitária ampla destinada a atingir indiscriminadamente milhares de pessoas. Algumas vítimas eram selecionadas pelo perfil, enquanto outras chegavam à plataforma por indicação.
Esse detalhe cria um mecanismo especialmente eficiente para os criminosos.
Enquanto acredita que está obtendo rendimentos, a própria vítima pode recomendar o investimento a familiares, amigos ou conhecidos. Para quem recebe a indicação, a recomendação de alguém de confiança funciona como uma camada adicional de credibilidade.
Quando os problemas aparecem, outras pessoas já podem ter colocado dinheiro no esquema.
Segundo Moreira, as vítimas “vão indicando outras vítimas enquanto ainda estão enxergando os rendimentos”.
Polícia encontrou movimentação de R$ 295 milhões em apenas um dia
O rastreamento financeiro revelou números que chamaram a atenção dos investigadores.
A Polícia Civil encontrou empresas cujas movimentações seriam incompatíveis com o faturamento e com as atividades econômicas declaradas.
Em uma das estruturas analisadas, aproximadamente R$ 295 milhões foram movimentados em um único dia em operações envolvendo a conversão de moeda fiduciária para criptoativos.
Quando consideradas as pessoas físicas e jurídicas relacionadas à investigação, o volume de transações classificadas como atípicas ultrapassa R$ 30 bilhões.
Criptoativos aparecem nesse cenário não necessariamente como origem da fraude, mas como uma das etapas utilizadas para movimentar e dificultar o rastreamento dos recursos. Para os investigadores, entender quem recebeu o dinheiro, por quais contas ele passou e em que momento houve conversão para ativos digitais será uma das peças centrais da apuração.
Polícia investiga possível facilitação dentro do sistema financeiro
Outro ponto da Operação Criptoabate está dentro do próprio sistema financeiro.
Entre os alvos está uma profissional vinculada a uma instituição bancária, investigada por possível atuação em procedimentos relacionados às contas utilizadas pelo grupo.
Um dado chamou particularmente a atenção da polícia: entre os 25 primeiros destinatários empresariais do dinheiro transferido pela aposentada, 24 mantinham contas na mesma instituição financeira.
A investigação também encontrou indícios do recrutamento de “laranjas”.
Essas pessoas teriam fornecido documentos, fotografias e credenciais digitais, além de participar dos procedimentos de validação biométrica necessários para abertura de empresas e contas bancárias.
Formalmente, apareciam como titulares.
Depois da abertura, porém, as contas poderiam passar ao controle de integrantes do grupo investigado.
Operação agora tenta localizar dinheiro e identificar novos envolvidos
A Operação Criptoabate tenta atingir diferentes pontos da engrenagem: quem abordava as vítimas, quem controlava empresas e contas, quem movimentava os recursos e quem participava da conversão do dinheiro para criptoativos.
A investigação está longe de terminar.
Com o cumprimento das buscas, a Polícia Civil deverá analisar documentos, dispositivos eletrônicos e outros materiais apreendidos. O objetivo é identificar novos envolvidos, reconstruir o fluxo financeiro e localizar bens ou valores que eventualmente possam ser recuperados.
Os 140 potenciais casos identificados até agora também deverão ser examinados para determinar quantas pessoas efetivamente sofreram prejuízos e se todas estão ligadas à mesma estrutura.
A história que começou com uma aposentada procurando a polícia depois de perder R$ 37 milhões, portanto, ainda pode ganhar outra dimensão. A próxima etapa será descobrir até onde a rede alcançava — e quanto do patrimônio movimentado poderá ser localizado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

