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Aos 72 anos e aposentada, Edicleia Zanini voltou à escola, concluiu o ensino médio pela EJA aos 66 e, seis anos depois, conquistou o segundo lugar em Letras na UFSM
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 15/08/2026 às 13:24
Atualizado em 15/08/2026 às 13:27
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Edicleia de Arruda Zanini tinha 72 anos quando viu o próprio nome no listão da UFSM em 25 de novembro de 2020, a aposentada achou que a lista fosse exame médico, chorou ao entender, e o post da neta fotógrafa passou de 120 mil interações nas redes em poucos dias
Uma aposentada de 72 anos transformou uma vida inteira de adiamentos numa das aprovações mais comemoradas da história recente dos vestibulares brasileiros. Edicleia de Arruda Zanini, do Rio Grande do Sul, foi aprovada em segundo lugar no vestibular do curso de Letras da Universidade Federal de Santa Maria, a UFSM, com resultado divulgado em 25 de novembro de 2020. O caso foi noticiado à época por veículos como CNN Brasil e Correio Braziliense e viralizou a partir da publicação da neta da estudante.
A conquista fechava um percurso improvável: Edicleia havia deixado a escola na adolescência para trabalhar, só concluiu o ensino médio aos 66 anos, pelo EJA, e ainda enfrentou no meio do caminho um câncer no sistema linfático, com cerca de três anos de tratamento, antes de ver o próprio nome no listão de uma universidade federal.
Segundo lugar saiu no listão de 25 de novembro de 2020
A vaga conquistada pela aposentada foi no curso de Licenciatura em Letras Português da UFSM, na modalidade a distância, com polo na cidade de Restinga Seca, a cerca de 50 quilômetros de Santa Maria. As aulas da nova caloura começariam em 2021.
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A colocação surpreendeu até a própria candidata. Edicleia passou em segundo lugar na classificação geral do curso, mesmo afirmando que não havia estudado muito para a prova e que fez o vestibular “sem pretensão nenhuma”. A preparação contou com o reforço caseiro da neta, que ajudava a avó com dicas de redação, e com a bagagem de décadas de leitura que a aposentada carregava.
Almoço surpresa revelou a aprovação à nova caloura
A notícia chegou a Edicleia do jeito mais gaúcho possível: em volta da mesa. A família descobriu o resultado antes dela e organizou um almoço especialmente preparado para revelar a aprovação, transformando a divulgação do listão numa celebração doméstica.
A reação virou a cena que o Brasil inteiro veria depois. Ao ler o próprio nome no celular, a aposentada achou primeiro que se tratava de um exame médico, e só então entendeu que era a lista de aprovados da UFSM, caindo no choro diante dos parentes. Na comemoração, Edicleia fez tudo o que manda a tradição dos calouros: pintou os braços e o rosto de “bixo”, com a inscrição “letras português” escrita no braço, registrada nas fotos que correriam as redes.
Escola ficou para trás na adolescência e voltou pelo EJA
O segundo lugar aos 72 anos foi a correção de uma dívida antiga da vida com a estudante. Edicleia precisou abandonar os estudos muito cedo, ainda na adolescência, para trabalhar e ajudar no sustento da casa. Casou aos 20 anos, teve três filhos e dedicou as décadas seguintes à criação da família.
A volta aos livros só veio com a aposentadoria. Em 2013, já aposentada, ela retomou os estudos pelo EJA, a Educação de Jovens e Adultos, e concluiu o ensino médio aos 66 anos, diploma que a maioria conquista aos 17. Ainda tentou um vestibular alguns anos depois, sem sucesso na primeira investida, e o sonho da universidade parecia ter ficado pelo caminho mais uma vez.
Linfoma adiou o sonho por três anos de tratamento
O maior adversário da trajetória apareceu logo depois do diploma do ensino médio. Edicleia foi diagnosticada com um linfoma, câncer do sistema linfático, e o tratamento, incluindo quimioterapia, se estendeu por cerca de três anos, encerrado em 2018, segundo os relatos da família à imprensa.
A pandemia trouxe o empurrão final, pelo caminho da dor. Isolada e abatida durante a quarentena, a aposentada aceitou prestar o vestibular por insistência de uma das filhas, que enxergou nos estudos um antídoto para a tristeza do confinamento. A própria Edicleia resumiu a espera de uma vida: “Sempre tive vontade, mas faltou oportunidade. Precisei terminar o ensino médio, depois enfrentei um câncer, o que me fez adiar um pouquinho mais o sonho”.
Paixão por Machado e Alencar guiou a escolha de Letras
A escolha do curso não exigiu reflexão. Apaixonada por literatura clássica, leitora de Machado de Assis e José de Alencar, Edicleia escreveu a redação do vestibular apoiada em décadas de convivência com os livros. “Eu sempre gostei muito de ler, escrever, faço muitos poemas”, contou a caloura, que ainda citou os parentes professores da área de Letras como inspiração.
O objetivo declarado também desarmava qualquer cinismo. “É uma realização pessoal. O que eu espero é mais conhecimento. Não é para trabalho, já que vou estar com 75 anos quando me formar”, afirmou a aposentada em entrevista ao g1 na época da aprovação. Era a definição mais pura de estudar pelo prazer de aprender, vinda de quem esperou meio século pela chance.
Post da neta virou fenômeno com 120 mil interações
A história saiu do almoço de família para o país pelas mãos de Alice Siqueira, neta de Edicleia, fotógrafa de 21 anos e também estudante da UFSM. Alice registrou a avó pintada de caloura e publicou as fotos nas redes sociais, com um relato do momento da descoberta.
O alcance surpreendeu até a autora. A publicação passou de 120 mil interações, e como o perfil da neta era trancado, os prints da comemoração é que rodaram a internet, rendendo à nova estudante presentes de material escolar dos netos e um notebook comprado em promoção de Black Friday para acompanhar as aulas a distância. Nos comentários, a cena da aposentada emocionada com o listão virou combustível coletivo para quem também adiou algum sonho.
Matrícula aos 72 anos virou aula sobre o tempo
Entre a menina que saiu da escola para trabalhar, a senhora que concluiu o ensino médio aos 66, a paciente que venceu um linfoma e a caloura de braços pintados aos 72, existe uma única certeza costurando a história de Edicleia Zanini: nenhum prazo da vida é definitivo para quem continua tentando. O segundo lugar no vestibular da UFSM provou que a sala de aula não tem idade de entrada, e a comoção nacional em torno do post da neta mostrou quantos brasileiros guardam um sonho parecido na gaveta. A poesia que ela sempre escreveu, no fim, virou a própria biografia.
E você, qual sonho de estudo ainda guarda na gaveta e o que falta para tirá-lo de lá? Conte nos comentários se conhece alguém que voltou a estudar depois dos 60 e mereceria ter a história contada.
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aposentada
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

