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Aos 76 anos, homem percebeu que havia garrafas de cerveja por toda parte e quase nenhuma árvore no deserto de Nevada, então recolheu 51 mil delas em 53 bares, misturou vidro e barro e ergueu uma casa inteira que sobreviveu à cidade ao redor e virou atração de uma cidade fantasma

Aos 76 anos, homem percebeu que havia garrafas de cerveja por toda parte e quase nenhuma árvore no deserto de Nevada, então recolheu 51 mil delas em 53 bares, misturou vidro e barro e ergueu uma casa inteira que sobreviveu à cidade ao redor e virou atração de uma cidade fantasma

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Aos 76 anos, homem percebeu que havia garrafas de cerveja por toda parte e quase nenhuma árvore no deserto de Nevada, então recolheu 51 mil delas em 53 bares, misturou vidro e barro e ergueu uma casa inteira que sobreviveu à cidade ao redor e virou atração de uma cidade fantasma

Escrito por Ana Alice

Publicado em 07/08/2026 às 23:10

Curiosidades

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Tom Kelly construiu em Rhyolite uma casa com cerca de 50 mil garrafas, aproveitando vidro descartado onde madeira era rara e cara. – Imagem: Mike McBey/Wikimedia Commons

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No auge de uma cidade mineradora no deserto de Nevada, um pedreiro encontrou nas garrafas descartadas pelos saloons uma alternativa incomum aos materiais caros e deixou uma construção que sobreviveu à própria cidade.

No início do século 20, enquanto uma corrida por ouro fazia nascer quase do nada a cidade de Rhyolite, no deserto de Nevada, o australiano Tom Kelly encontrou uma solução improvável para um problema básico de construção.

Com madeira cara e difícil de obter, mas milhares de garrafas descartadas pelos bares da cidade, ele passou a encaixar recipientes de vidro em adobe até formar as paredes de uma casa de três cômodos.

A construção começou por volta de 1905 e foi concluída em 1906.

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A quantidade exata de garrafas varia conforme a fonte: registros modernos falam em aproximadamente 30 mil, 50 mil ou até 51 mil unidades.

O National Park Service adota cerca de 50 mil garrafas de cerveja e bebidas alcoólicas, enquanto publicações históricas de Nevada registram números diferentes.

Boa parte do material veio de saloons de Rhyolite, que cresciam rapidamente ao lado das minas.

Garrafas de cerveja eram predominantes, muitas associadas à Adolphus Busch, mas as paredes também incorporaram recipientes de bebidas destiladas, água mineral e medicamentos.

Mais de um século depois, a Tom Kelly Bottle House ainda está de pé.

O Bureau of Land Management identifica o imóvel como a casa de garrafas mais bem preservada de Nevada e mantém Rhyolite como área histórica aberta à visitação diurna.

Rhyolite cresceu rapidamente durante a corrida do ouro

A história da casa está diretamente ligada ao crescimento extraordinariamente rápido de Rhyolite.

Em 1904, os prospectores Frank “Shorty” Harris e E. L. Cross encontraram ouro na região de Bullfrog Hills.

A notícia desencadeou uma corrida para o local, e centenas de concessões minerais foram registradas nos arredores.

Em fevereiro de 1905, o núcleo urbano de Rhyolite já estava estabelecido próximo às minas mais promissoras.

A expansão aconteceu em ritmo difícil de imaginar hoje.

O National Park Service registra que a cidade cresceu rapidamente até reunir hotéis, lojas, escola, hospital, instalações elétricas, fundições, oficinas, bolsa de valores e diversas opções de entretenimento.

Algumas estimativas da época chegaram a apontar uma população próxima de 10 mil habitantes, embora outras avaliações indiquem números menores.

Com milhares de mineradores, trabalhadores e comerciantes chegando à região, os saloons prosperaram.

Há registros de aproximadamente 48, 50 ou mais estabelecimentos desse tipo durante diferentes fases do crescimento da cidade.

Para Tom Kelly, isso significava que um material de construção incomum estava disponível em abundância: garrafas vazias.

Tom Kelly Bottle House, em Rhyolite, Nevada, construída no início do século 20 com dezenas de milhares de garrafas de cerveja e outras bebidas incorporadas às paredes. Crédito: U.S. Geological Survey

Madeira era cara e garrafas estavam por toda parte

No começo do desenvolvimento de Rhyolite, levar materiais de construção ao meio do deserto era complicado.

Antes da chegada plena das ferrovias e de uma infraestrutura de abastecimento mais organizada, mercadorias precisavam percorrer longas distâncias.

Fontes históricas de Nevada registram que materiais convencionais eram caros e que a madeira nem sempre chegava à cidade na quantidade necessária.

O ambiente local também não oferecia uma floresta capaz de fornecer madeira estrutural adequada.

Relatos posteriores atribuem a Kelly uma frase que resume sua escolha: seria muito difícil construir uma casa usando madeira de Joshua tree.

A formulação se tornou parte da tradição associada ao imóvel, mas não foi localizada uma fonte primária contemporânea que confirme quando exatamente Kelly teria feito a declaração.

O princípio por trás da decisão, no entanto, é bem documentado.

Garrafas eram abundantes e materiais tradicionais eram caros.

Uma exposição histórica da Utah State University, baseada em memórias e documentos sobre Rhyolite, registra que Kelly recorreu a garrafas de cerveja, uísque e champanhe porque materiais convencionais tinham preços elevados.

Tom Kelly começou a Bottle House aos 76 anos

Kelly não era um jovem tentando improvisar sua primeira moradia.

Registros históricos consultados pelo Pahrump Valley Times indicam que ele tinha 76 anos quando iniciou a construção, em setembro de 1905.

O censo de 1900 o identificava como pedreiro, enquanto em 1910 ele aparecia como mason, ofício diretamente relacionado ao trabalho de alvenaria.

Isso ajuda a contextualizar a capacidade necessária para erguer a Bottle House.

A ideia podia ser improvisada, mas montar paredes inteiras com recipientes de vidro exigia uma técnica minimamente consistente.

Kelly colocava as garrafas horizontalmente e usava uma mistura de adobe preparada com terra local como argamassa.

Os gargalos ficavam voltados para o interior da parede, enquanto os fundos de vidro permaneciam visíveis na face externa.

Por dentro, as paredes foram revestidas, de maneira que um visitante no interior não necessariamente perceberia de imediato que estava cercado por milhares de recipientes.

Casa de garrafas de Tom Kelly preservada em Rhyolite, cidade mineradora que virou uma das mais conhecidas cidades fantasmas de Nevada. Crédito: Mike McBey/Wikimedia Commons

Garrafas foram usadas sem gastar a pouca água do deserto

A falta de água ajuda a explicar outro detalhe curioso da construção.

No começo de 1905, antes da instalação de sistemas mais eficientes, água precisava ser transportada até Rhyolite.

Registros históricos indicam preços que podiam chegar a US$ 5 por barril, valor elevado para um recurso usado diariamente.

Kelly aparentemente não gastou esse recurso lavando suas garrafas.

Resíduos ainda encontrados dentro de alguns recipientes dão sustentação à história de que eles foram colocados nas paredes praticamente como eram recolhidos.

Um dos detalhes mais conhecidos permanece visível em parte da estrutura.

Dentro de uma garrafa ficaram presos restos de pequenos grilos, que entraram no recipiente e acabaram selados quando ele foi incorporado à parede.

Uma reportagem histórica da Nevada Magazine já mencionava os insetos preservados no imóvel décadas atrás.

Assim, parte do lixo produzido por uma cidade de mineração acabou encapsulada em sua própria arquitetura.

Cerca de 50 mil garrafas formaram uma casa de três cômodos

A Bottle House possui apenas um pavimento e três cômodos, mas demandou dezenas de milhares de recipientes.

Fontes federais, estaduais e locais não chegam ao mesmo total.

O U.S. Geological Survey registra quase 50 mil garrafas, enquanto o National Park Service menciona 50 mil.

Uma publicação histórica da Nevada Magazine reconhece explicitamente a divergência e registra aproximadamente 30 mil, “50 mil segundo alguns relatos”.

Outras fontes popularizaram a cifra de 51 mil.

A dificuldade de chegar a uma contagem definitiva é compreensível.

Parte das garrafas está escondida na fundação e dentro das paredes, tornando impossível simplesmente contá-las hoje sem desmontar a estrutura.

Por isso, 51 mil deve ser entendido como uma das estimativas históricas mais divulgadas, e não como uma contagem física moderna e certificada.

A maioria dos recipientes identificáveis é de cerveja.

Muitos apresentam as letras “AB”, associadas à Adolphus Busch, empresa ligada à cerveja que posteriormente se consolidaria mundialmente sob a marca Budweiser.

Há, contudo, garrafas de outros produtos misturadas às paredes.

Fachada da Tom Kelly Bottle House mostra milhares de fundos de garrafas incorporados ao adobe, solução adotada em uma região onde materiais tradicionais de construção eram caros. Crédito: Finetooth/Wikimedia Commons

Construção da Bottle House teria levado cerca de seis meses

Também há divergências nas fontes sobre quanto tempo Kelly levou para terminar o imóvel.

Alguns relatos populares falam em mais de um ano.

Uma reconstrução histórica mais detalhada publicada pelo Pahrump Valley Times registra, porém, que a construção começou em setembro de 1905 e terminou em fevereiro de 1906, aproximadamente seis meses depois.

Uma publicação dedicada à história de Rhyolite apresenta cronologia semelhante e afirma que Kelly terminou a casa após seis meses de trabalho.

O resultado tinha acabamento mais elaborado do que uma simples cabana improvisada.

Além das paredes de garrafa, a casa recebeu varanda coberta, acabamento decorativo de madeira e um caminho no qual recipientes também foram enterrados no solo.

O investimento financeiro aparece em algumas fontes secundárias como próximo de US$ 2.500, principalmente para madeira e acessórios, mas não foi localizado um documento primário confiável que permita confirmar com precisão esse valor.

Kelly terminou a casa e decidiu não morar nela

Talvez o detalhe mais inesperado seja que Tom Kelly aparentemente não aproveitou a construção como residência pessoal.

Depois de terminar a Bottle House, ele a colocou em uma rifa.

Segundo a reconstrução histórica local, os bilhetes custavam US$ 5 cada, e a família Bennet venceu a propriedade.

Os Bennet teriam permanecido na casa até 1914, quando Rhyolite já havia perdido grande parte da população.

Kelly continuou na região por algum tempo.

Registros censitários o mostram em Rhyolite em 1910, mas morando em Golden Street e trabalhando como pedreiro.

Ele mais tarde se mudou para Eureka, em Nevada, e morreu em Yerington em 1928, aos 95 anos.

A casa que construiu acabaria sobrevivendo não apenas a ele, mas à própria cidade que forneceu suas garrafas.

Rhyolite virou cidade fantasma em poucos anos

A prosperidade de Rhyolite durou pouco.

A crise financeira de 1907 atingiu investimentos em mineração, empresas começaram a fechar e a produção das minas perdeu força.

Em 1910, o National Park Service registra apenas 611 moradores.

Em 1911, a Montgomery Shoshone Mine encerrou suas operações e, em 1916, a energia elétrica da cidade foi desligada.

A cidade que havia recebido milhares de pessoas passou rapidamente a acumular edifícios abandonados.

Muitas estruturas desapareceram ao longo das décadas seguintes.

Paredes de bancos e escolas permaneceram como ruínas, enquanto outros imóveis foram desmontados ou deteriorados pelo clima.

A casa feita de garrafas acabou se tornando uma das poucas construções completas que atravessaram esse processo.

Hoje, o Bureau of Land Management destaca justamente a Bottle House entre os principais remanescentes da área histórica de Rhyolite.

Hollywood ajudou a preservar a Bottle House em 1925

Quase vinte anos depois da construção, o cinema entrou na história.

Em 1925, uma produção da Famous Players-Lasky, distribuída pela Paramount Pictures, chegou a Rhyolite para filmar o longa-metragem mudo The Air Mail.

O American Film Institute confirma que a equipe permaneceu entre duas e três semanas na cidade fantasma e que a atriz Billie Dove ficou hospedada justamente no singular edifício construído com garrafas recolhidas nas proximidades dos antigos saloons.

A produção realizou reparos na Bottle House, incluindo trabalhos no telhado, ajudando a preservar uma estrutura que já começava a envelhecer.

O National Park Service também registra que a Paramount restaurou o imóvel em janeiro de 1925.

Há uma correção importante em relação a algumas versões populares da história: The Air Mail era estrelado por Warner Baxter, Billie Dove e Mary Brian, com Douglas Fairbanks Jr. no elenco.

Não se tratava de Douglas Fairbanks, o pai.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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