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Após mais de 100 anos declarado extinto nos campos uruguaios, pecari-de-colar volta a caminhar em liberdade e marca uma das reintroduções mais emocionantes da conservação na América do Sul
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 18/08/2026 às 12:13
Ciência e Tecnologia
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Após desaparecer da natureza no Uruguai por mais de 100 anos, o pecari-de-colar voltou a viver em liberdade graças a um projeto iniciado por volta de 2000. Depois de 17 anos de reprodução, planejamento e preparação, quase 100 animais foram soltos em 2017, começaram a se reproduzir, tiveram filhotes na natureza e hoje voltam a ocupar campos e bosques do país.
Durante mais de um século, os campos e bosques uruguaios permaneceram sem um mamífero que havia feito parte naturalmente daquela paisagem. O pecari-de-colar desapareceu do país, mas voltou à natureza depois de um projeto de conservação que exigiu 17 anos de preparação. Segundo o jornal Los Andes, quase 100 exemplares foram inicialmente devolvidos ao ambiente natural após um longo trabalho de reprodução, avaliação genética, cuidados sanitários e adaptação.
A soltura ocorreu em 2017, mas o momento realmente decisivo veio depois. Monitoramentos por câmeras registraram os animais longe do ponto original de liberação e, principalmente, filhotes nascidos em liberdade, evidência de que os grupos haviam conseguido sobreviver, se adaptar e iniciar uma nova geração sem depender exclusivamente dos criadouros. Cinco anos após a reintrodução, pesquisadores já encontravam pecaris a mais de 10 quilômetros do local onde haviam sido soltos.
Pecari-de-colar desapareceu do Uruguai por mais de 100 anos
O pecari-de-colar é uma espécie nativa das Américas e havia ocupado naturalmente diferentes ambientes uruguaios, particularmente áreas do litoral e do leste do país. Apesar disso, desapareceu da fauna selvagem nacional e passou a ser considerado localmente extinto no Uruguai.
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A extinção era local, e não mundial. Populações continuaram existindo em outras regiões do continente, condição fundamental para que décadas depois fosse possível pensar em uma reintrodução utilizando animais provenientes de populações mantidas e manejadas fora da natureza uruguaia.
Quando o governo anunciou a soltura em 2017, classificou o pecari como uma espécie prioritária para conservação. O objetivo não era simplesmente devolver um animal conhecido à paisagem, mas recuperar uma peça que havia desaparecido do funcionamento dos ecossistemas do país.
Projeto para trazer o animal de volta começou cerca de 17 anos antes
O retorno não aconteceu depois de alguns meses de preparação. A iniciativa começou por volta do ano 2000, associada ao Bioparque M’Bopicuá e ao trabalho conjunto com a então Direção Nacional de Meio Ambiente do Uruguai.
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Foram aproximadamente 17 anos entre o início do projeto e a grande liberação de 2017. Durante esse período, os responsáveis trabalharam com reprodução em cativeiro, diversidade genética, condições sanitárias, alimentação e preparação dos animais para uma vida muito diferente daquela encontrada em um recinto controlado.
O Bioparque M’Bopicuá, localizado próximo a Fray Bentos, mantém uma estação dedicada à criação e conservação de fauna nativa. A própria instituição destaca a reintrodução do pecari entre seus projetos de conservação realizados depois de cerca de um século de desaparecimento da espécie no país.
Quase 100 pecaris foram libertados em duas etapas em 2017
Em julho de 2017, a Presidência do Uruguai anunciou oficialmente que quase 100 exemplares haviam sido devolvidos ao meio silvestre. A operação aconteceu em duas etapas e foi tratada como parte da Estratégia Nacional de Biodiversidade uruguaia.
A quantidade chama atenção porque uma reintrodução dessa escala exige muito mais do que transportar animais de um ponto para outro. Cada grupo precisava chegar em condições sanitárias adequadas, possuir diversidade genética suficiente e encontrar uma área capaz de fornecer alimento, água, abrigo e espaço.
A operação também precisava ser seguida por monitoramento. Depois que os animais desapareceram entre a vegetação, começava outra etapa do projeto: descobrir se seriam capazes de permanecer no território, evitar ameaças, formar grupos e, principalmente, reproduzir-se.
Alimentação foi adaptada antes de os animais ganharem a liberdade
Antes da soltura, os responsáveis procuraram aproximar a alimentação dos pecaris daquela que encontrariam na natureza. Um dos alimentos mencionados pelo governo uruguaio foram os frutos da palmeira yatay, presentes no ambiente escolhido para a reintrodução.
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Esse tipo de preparação é fundamental porque animais criados sob cuidados humanos não podem simplesmente ser soltos sem avaliação de sua capacidade de encontrar alimento. O projeto trabalhou também com aspectos genéticos e sanitários antes da liberação.
A meta era fazer com que o comportamento desenvolvido no ambiente controlado interferisse o mínimo possível na sobrevivência dos grupos. A verdadeira prova começaria quando não houvesse mais cercas separando os animais do restante do ecossistema.
Filhotes nascidos na natureza mostraram que a reintrodução avançava
Um dos melhores sinais surgiu quando as equipes começaram a registrar crias acompanhando os grupos. Em 2022, cinco anos depois da liberação inicial, especialistas entrevistados pelo jornal uruguaio El País afirmavam que os pecaris permaneciam no território e haviam conseguido se reproduzir.
O nascimento de filhotes representa um avanço muito maior do que simplesmente encontrar os mesmos adultos libertados anos antes. Significa que os animais encontraram condições para formar grupos, sobreviver durante tempo suficiente para se reproduzir e iniciar uma geração completamente nascida em liberdade.
Câmeras de monitoramento, rastros, fezes e outros vestígios ajudaram pesquisadores a acompanhar essa ocupação. A presença das crias tornou-se uma das evidências mais visíveis de que a espécie estava tentando reconstruir seu lugar no ambiente uruguaio.
Pecaris já foram registrados a mais de 10 quilômetros da soltura
Outro sinal importante apareceu na distância percorrida. Cinco anos depois da reintrodução, monitoramentos já identificavam pecaris a mais de 10 quilômetros do ponto original de liberação.
A dispersão mostra que os grupos não permaneceram restritos à área em que as caixas foram abertas. Eles começaram a explorar a paisagem, encontrar novas fontes de alimento e utilizar diferentes áreas de pastagem e floresta.
Para uma espécie que havia desaparecido do país durante gerações humanas inteiras, cada novo registro além do núcleo inicial representava uma expansão de território. O desafio deixou de ser apenas sobreviver ao primeiro contato com a vida selvagem e passou a incluir a formação de uma população distribuída na paisagem.
Pecari-de-colar pesa até 40 kg e vive em grupos
O animal pode lembrar um pequeno javali à primeira vista, mas pertence à família dos taiassuídeos. Segundo o governo uruguaio, um pecari-de-colar adulto pesa aproximadamente 30 a 40 quilos e costuma viver em grupos que podem variar de dois a 30 indivíduos.
Seu nome vem da faixa mais clara de pelos ao redor da região do pescoço e dos ombros. Possui corpo compacto, pernas relativamente curtas e fortes e comportamento social, característica importante para sobrevivência e deslocamento.
Em 2022, especialistas relataram que os grupos observados no Uruguai costumavam reunir aproximadamente dez animais. As fêmeas podem ter duas parições por ano, geralmente com uma ou duas crias em cada nascimento.
Animal ajuda a espalhar sementes e movimentar o solo
A volta não interessa apenas pelo número de indivíduos recuperados. O pecari desempenha funções ecológicas enquanto procura alimentos e circula em grupo pelos ambientes naturais.
Ao buscar frutos e outras fontes de alimento, os animais removem e revolvem partes superficiais do solo. Por abrir caminhos durante seus deslocamentos, o governo uruguaio destacou que a espécie é conhecida como um animal que cria trilhas através da floresta.
Outro papel importante vem da alimentação. Ao consumir frutos, o pecari pode atuar na dispersão de sementes, transportando material vegetal e participando dos processos de regeneração do ambiente. Recuperar a espécie significa, portanto, tentar recuperar também parte das interações ecológicas que desapareceram com ela.
Pastagens e bosques formam o ambiente usado pela espécie
Os pecaris-de-colar conseguem utilizar diferentes tipos de habitat. No Uruguai, o governo descreve a espécie como habitante de pastagens abertas e bosques, desde que encontre cobertura vegetal adequada para abrigo e alimentação.
Essa combinação ajuda a explicar por que o animal tinha presença histórica em diferentes regiões do país. A paisagem fornece tanto áreas abertas para deslocamento quanto ambientes arborizados importantes para esconderijo, proteção e busca de frutos.
O retorno também exige que essas áreas continuem conectadas. Uma população isolada em um pequeno fragmento natural enfrenta mais dificuldades para se dispersar, reproduzir e manter diversidade genética ao longo das gerações.
Caça ilegal surgiu como uma das maiores ameaças depois da soltura
A liberdade também trouxe perigos. Cinco anos após a reintrodução, pesquisadores apontavam a caça furtiva como uma das principais pressões sofridas pelos animais. Houve registro de detenções e apreensão de veículos, armas e cães relacionados à atividade.
O impacto exato da caça sobre a população não havia sido quantificado, mas especialistas consideravam que a pressão poderia ter sido significativa especialmente no período posterior à liberação. Esse é um desafio comum em projetos de reintrodução: devolver animais ao ambiente não elimina automaticamente as ameaças que contribuíram para seu desaparecimento.
Por isso, monitoramento, fiscalização e conservação do habitat precisam continuar por anos. A presença de filhotes mostra reprodução; a sobrevivência de várias gerações é o que pode consolidar a volta no longo prazo.
Bioparque M’Bopicuá mantém conservação de dezenas de espécies
O trabalho com o pecari faz parte de uma estrutura maior. O Bioparque M’Bopicuá possui aproximadamente 150 hectares e mantém mais de 600 animais de cerca de 60 espécies, segundo informações da própria instituição.
Além dos pecaris, o centro desenvolve ações de reprodução, conservação e reintrodução envolvendo outras espécies nativas. O espaço reúne estação de criação de fauna, áreas de vegetação nativa e ações de educação ambiental.
A experiência acumulada com o pecari também passou a fornecer informações para outros projetos. Especialistas uruguaios já destacaram que os protocolos ecológicos, sanitários e sociais desenvolvidos durante a reintrodução podem ajudar na preparação de iniciativas futuras com outras espécies.
Mais de um século depois, uma nova geração volta a caminhar pelos campos
O detalhe mais marcante da história não está apenas nas quase 100 caixas abertas em 2017. Está nos animais que não estavam dentro delas: os filhotes que nasceram depois, já vivendo nos campos uruguaios.
Eles representam a primeira geração criada pela própria natureza depois de uma ausência superior a um século. Quando câmeras registram esses jovens seguindo os adultos, mostram que o projeto ultrapassou a simples transferência de animais e entrou na etapa mais difícil, a reconstrução de uma população selvagem.
Depois de 17 anos de preparação, duas etapas de soltura e anos adicionais de acompanhamento, o pecari-de-colar voltou a fazer algo que durante gerações havia desaparecido do Uruguai: caminhar em liberdade, abrir trilhas, dispersar sementes, formar grupos e criar seus próprios filhotes em uma paisagem da qual havia sumido havia mais de 100 anos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

