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Aposentada rural saiu de uma ilha levando nos braços a filha de 15 anos e acompanhada da neta de 8; diante da Justiça, ouviu que o INSS teria de garantir dois benefícios e exibiu as sentenças como troféus
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 06/08/2026 às 13:33
Atualizado em 06/08/2026 às 13:34
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Travessia de 14 horas pelos rios do Marajó levou três gerações da mesma família a um atendimento judicial em Breves, onde duas decisões garantiram proteção assistencial a uma adolescente e uma criança que dependiam da aposentada rural para alcançar serviços públicos distantes da comunidade.
Uma viagem de cerca de 14 horas de barco separava Helena Lima do atendimento judicial capaz de assegurar renda para duas integrantes de sua família, após uma travessia marcada pela distância, pela dependência de embarcações e pelos cuidados exigidos durante todo o percurso.
Moradora da Ilha de Aranaí, no município de Breves, no Arquipélago do Marajó, a aposentada rural deixou a comunidade levando nos braços a filha de 15 anos e acompanhada da neta de oito, ambas dependentes de cuidados permanentes.
O deslocamento terminou na Escola Professor Estevão Gomes, onde funcionava uma estrutura da Justiça Itinerante e onde Helena recebeu duas decisões homologadas após acordo com o Instituto Nacional do Seguro Social para garantir um benefício assistencial a cada uma das meninas.
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Travessia de 14 horas até Breves
Segundo a Seção Judiciária do Pará, vinculada ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Helena saiu de casa em um domingo e chegou a Breves na segunda-feira, depois de aproximadamente 14 horas de navegação pelos rios da região.
Durante a travessia, a adolescente permaneceu sob os cuidados diretos da mãe, que a carregava nos braços ao chegar ao ponto de atendimento, enquanto a neta de oito anos seguia com a família até o local da ação judicial.
A filha de Helena sofre de epilepsia e apresenta deficiências graves depois de ter sido vítima de um acidente vascular cerebral, condição que exige assistência contínua e tornou o deslocamento ainda mais complexo para a responsável durante a longa viagem fluvial.
Já a neta foi diagnosticada com osteogênese imperfeita, condição genética rara conhecida popularmente como doença dos ossos de vidro, caracterizada pela elevada fragilidade dos ossos e pela necessidade de cuidados redobrados em situações de transporte e mobilidade.
INSS garante dois benefícios assistenciais
As necessidades das duas foram analisadas durante a ação judicial concentrada no município, e o juiz federal Domingos Daniel Moutinho assinou duas sentenças homologatórias após o acordo firmado com o INSS, uma decisão destinada a cada beneficiária.
Ao receber os documentos, Helena demonstrou gratidão, destacou que a filha e a neta precisavam dos pagamentos e ergueu as sentenças diante das pessoas presentes, em um gesto comparado à exibição de troféus depois de uma vitória aguardada pela família.
A cena reuniu elementos que fazem parte da rotina de moradores de áreas isoladas da Amazônia, como viagens demoradas, dependência de embarcações, transporte de pessoas com mobilidade reduzida e concentração dos serviços públicos nas sedes municipais.
Para famílias ribeirinhas, apresentar um pedido pode exigir uma operação que começa antes do amanhecer, atravessa longos trechos de rio e envolve alimentação, permanência fora de casa, custos de transporte e cuidados ininterruptos com parentes vulneráveis.
No caso de Helena, a jornada não foi realizada por uma pessoa sozinha em busca de uma demanda individual, pois envolveu três gerações da mesma família, duas pessoas com condições incapacitantes e uma responsável encarregada de organizar todo o deslocamento.
Justiça Itinerante aproxima serviços públicos
A estrutura encontrada em Breves integrava a quarta edição da Justiça Itinerante Cooperativa na Amazônia Legal, realizada entre 18 e 22 de maio de 2026, com participação de órgãos judiciais federais e atendimento voltado a moradores da cidade e do interior.
Promovida pelo Conselho Nacional de Justiça, a iniciativa reuniu o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, por meio da Seção Judiciária do Pará, além de magistrados das seções judiciárias do Amapá e de Rondônia durante a operação.
Ao longo do atendimento, moradores puderam apresentar demandas previdenciárias e assistenciais sem viajar até uma unidade permanente da Justiça Federal instalada em outro centro urbano, reduzindo a necessidade de novos deslocamentos para cada etapa dos processos.
A operação reuniu ajuizamento de ações nos Juizados Especiais Federais, perícias, conciliações e audiências, permitindo que procedimentos normalmente realizados em momentos distintos fossem concentrados no mesmo período e no mesmo município durante os dias da iniciativa.
Entre os pedidos analisados estavam aposentadorias rurais e urbanas, benefícios por incapacidade, salário-maternidade, pensão por morte, auxílio-acidente e benefícios assistenciais, conforme as demandas levadas pelos moradores durante a passagem da estrutura itinerante pela região paraense.
Em Breves, os serviços judiciais e de cidadania foram instalados em unidades escolares, enquanto atendimentos de saúde também ocorreram em uma unidade básica fluvial ancorada no Porto do Açaí, formando uma estrutura temporária para a população.
Distância amplia dificuldade de acesso
A Ilha de Aranaí está inserida em uma região na qual a circulação entre comunidades e cidades ocorre predominantemente por vias fluviais, fazendo com que a distância seja medida também pelo número de horas dentro de uma embarcação.
Além do tempo de navegação, pesam sobre as famílias os custos da viagem, a disponibilidade de transporte e as condições necessárias para levar crianças, idosos ou pessoas com deficiência até os locais onde os serviços públicos são oferecidos.
Os benefícios concedidos à filha e à neta têm impacto direto na organização dos cuidados familiares, porque os pagamentos foram reconhecidos individualmente depois da análise dos pedidos e da formalização do acordo com o INSS.
Embora Helena já recebesse aposentadoria rural, a renda dela não substituía os benefícios requeridos para as duas meninas, cujas necessidades específicas foram apresentadas à Justiça e devidamente examinadas durante o atendimento concentrado realizado em Breves.
A demanda dependia da atuação da responsável para chegar ao local, explicar a situação e acompanhar os procedimentos, demonstrando como a existência formal de um serviço nem sempre representa acesso simples para quem vive em uma ilha distante.
Ao concentrar audiências e conciliações em Breves, a ação itinerante levou magistrados, servidores e representantes de órgãos públicos para mais perto da população, permitindo que a travessia iniciada na comunidade terminasse com dois documentos judiciais nas mãos de Helena.
Quantas famílias que vivem em ilhas e comunidades afastadas ainda precisam atravessar rios durante horas, carregando parentes nos braços, para conseguir acesso a benefícios destinados à própria sobrevivência sem percorrer longos trajetos até centros urbanos?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

