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Argamassa com os dias contados? Casa usa 1.268 blocos gigantes de cortiça encaixados sem cola nem cimento e pode ser desmontada para que todas as peças sejam usadas novamente

Argamassa com os dias contados? Casa usa 1.268 blocos gigantes de cortiça encaixados sem cola nem cimento e pode ser desmontada para que todas as peças sejam usadas novamente

6 min de leitura

Argamassa com os dias contados? Casa usa 1.268 blocos gigantes de cortiça encaixados sem cola nem cimento e pode ser desmontada para que todas as peças sejam usadas novamente

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 31/08/2026 às 15:32

Atualizado em 31/08/2026 às 15:35

Construção

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Casa construída com 1.268 blocos de cortiça

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Casa construída com 1.268 blocos de cortiça desafia a alvenaria tradicional ao dispensar cola e argamassa e permitir que as próprias paredes sejam desmontadas, reutilizadas e recicladas no futuro.

A Cork House, construída em Eton, no condado de Berkshire, no Reino Unido, levou ao canteiro uma ideia radicalmente diferente da alvenaria convencional: suas paredes e partes da cobertura foram montadas com 1.268 blocos de cortiça expandida que se encaixam a seco, sem cola ou argamassa entre as peças. Segundo a University College London, a UCL, responsável por parte da pesquisa que originou o sistema, a residência foi projetada para que esses mesmos blocos possam ser retirados no fim da vida útil do edifício e então reutilizados, reciclados ou devolvidos ao ciclo biológico.

Concluída no início de 2019, a casa não é apenas um revestimento de cortiça aplicado sobre uma estrutura convencional. A UCL descreve o projeto como o primeiro edifício do Reino Unido construído com essa nova forma de sistema sólido de cortiça e madeira.

Os grandes blocos intertravados participam das paredes e da cobertura, são montados manualmente e foram concebidos para permitir o processo inverso no futuro: em vez de demolir e triturar a construção, a proposta é desmontá-la e recuperar seus componentes.

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Os 1.268 blocos não precisam de uma camada de argamassa para permanecer unidos

A diferença mais visível em relação a uma parede tradicional aparece durante a montagem. Em uma alvenaria convencional, tijolos ou blocos são normalmente unidos por argamassa, criando juntas que endurecem e transformam peças separadas em um conjunto difícil de desmontar sem danos.

Na Cork House, a conexão funciona de outra maneira. Os blocos de cortiça expandida possuem geometria intertravada e são encaixados a seco. O Wood Awards, que documenta o projeto, informa que os componentes foram pré-fabricados, usinados fora do canteiro e depois montados manualmente sem argamassa nem cola.

Casa construída com 1.268 blocos de cortiça

A construção utiliza também madeira engenheirada e outros componentes. Portanto, não se trata de uma casa formada exclusivamente por 1.268 peças de cortiça empilhadas.

A cortiça deixou de ficar escondida dentro da parede e passou a formar a própria parede

Na construção civil, a cortiça já era conhecida por suas propriedades térmicas e acústicas. O salto proposto pela equipe foi perguntar se o mesmo material poderia assumir várias funções simultaneamente.

A pesquisa do Cork Construction Kit, publicada por Oliver Wilton e Matthew Barnett Howland no The Journal of Architecture, descreve o sistema como uma nova forma de construção sólida e desmontável feita de cortiça expandida e madeira engenheirada.

Os blocos intertravados são derivados de resíduos da cadeia florestal da cortiça e foram desenvolvidos para permitir montagem rápida e desmontagem posterior.

Na Cork House, isso reduz a necessidade de formar uma parede com várias camadas permanentemente aderidas umas às outras. A cortiça permanece exposta em grande parte do interior e participa simultaneamente da expressão arquitetônica e do desempenho do edifício.

A matéria-prima vem de resíduos da cadeia da cortiça e das rolhas

Outro elemento que diferencia o projeto está na origem dos blocos. A UCL informa que os grandes tarugos de cortiça expandida utilizados para produzir as peças foram fabricados em Portugal a partir de subprodutos e resíduos provenientes da exploração da cortiça e da indústria de rolhas.

A cortiça é retirada da casca do sobreiro sem que seja necessário derrubar a árvore. O projeto aproveita principalmente materiais associados a uma cadeia produtiva que já existe, em vez de criar uma matéria-prima totalmente nova para a construção.

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Essa característica foi central para a proposta ambiental da casa. A equipe não buscava apenas substituir argamassa por um encaixe diferente, mas criar um sistema no qual origem, fabricação, uso e destino final dos componentes fossem considerados desde o projeto.

Cada bloco precisou ser fabricado com precisão antes de chegar à obra

Eliminar a argamassa cria outra exigência: as peças precisam se encaixar corretamente. Uma camada tradicional de massa também consegue compensar pequenas irregularidades de dimensões e alinhamento entre blocos. Em um sistema seco, a própria geometria precisa assumir uma parcela maior desse trabalho.

Por isso, a fabricação digital teve papel decisivo. Segundo a UCL, os blocos utilizados durante o desenvolvimento do sistema foram produzidos no Bartlett Manufacture and Design Exchange, o B-made, usando um método de fresagem robótica criado especificamente para a pesquisa.

No projeto construído, os elementos foram usinados previamente e levados ao canteiro como partes de um grande kit. O Wood Awards descreve explicitamente a Cork House como um kit de peças pré-fabricadas montado no local.

Assim, parte do trabalho tradicionalmente realizado durante a execução da parede é transferida para uma etapa industrial controlada.

A casa foi projetada pensando no dia em que deixará de existir

Esse conceito é conhecido na construção circular como design para desmontagem. Em vez de pensar apenas na montagem inicial, arquitetos e engenheiros consideram desde o começo como cada componente poderá ser separado anos ou décadas depois.

casa com blocos de cortiça

O artigo científico sobre o Cork Construction Kit destaca justamente a possibilidade de desmontar o sistema ao fim da vida do edifício para reaproveitar seus elementos. A pesquisa ocorreu em três etapas entre 2014 e 2019, passando por experimentação, protótipos, testes de estrutura, fogo e estanqueidade até chegar à Cork House.

A residência, portanto, não apareceu como uma experiência improvisada na obra. Ela foi a terceira etapa de uma investigação que começou anos antes e incluiu estruturas experimentais menores antes da construção permanente.

A cobertura também usa grandes blocos de cortiça estrutural

A experiência não terminou quando as paredes atingiram a altura prevista. O sistema avançou também sobre a cobertura.

O Wood Awards descreve as paredes monolíticas e as coberturas piramidais escalonadas como elementos construídos com cortiça expandida portante. A casa combina esses blocos com componentes de madeira para formar sua estrutura arquitetônica.

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O resultado é visualmente muito diferente de uma residência convencional. Em vez de uma cobertura única, o edifício possui uma sequência de volumes superiores, enquanto a textura escura da cortiça permanece aparente nos ambientes internos.

A solução demonstra por que a pesquisa chama o sistema de construção sólida: os componentes de cortiça não são apenas inseridos entre montantes para evitar troca de calor. Eles participam fisicamente da configuração das paredes e do teto.

O projeto recebeu um dos principais reconhecimentos da arquitetura britânica

A experiência saiu do ambiente acadêmico e ganhou reconhecimento profissional. Em 2019, a Cork House foi selecionada para a lista final do RIBA Stirling Prize, prêmio concedido pelo Royal Institute of British Architects aos edifícios considerados mais relevantes do Reino Unido.

No mesmo ano, recebeu o Stephen Lawrence Prize, destinado à melhor construção britânica dentro da faixa de orçamento estabelecida pela premiação. A UCL registra que o projeto venceu a categoria de melhor edifício com orçamento inferior a £1 milhão.

Também recebeu RIBA South Award, RIBA South Sustainability Award e RIBA National Award em 2019.

Os mesmos 1.268 blocos poderão continuar existindo depois que a casa acabar

Talvez o aspecto mais radical da Cork House só possa ser comprovado completamente no futuro. Hoje, os 1.268 blocos formam paredes e cobertura. Quando o edifício chegar ao fim de sua utilização, o projeto prevê que eles não precisem terminar triturados em uma caçamba.

Como foram montados sem argamassa ou cola entre as peças, poderão ser retirados e classificados novamente. Alguns poderão voltar diretamente a uma construção; outros poderão ser reciclados; e o material de origem vegetal possui ainda a possibilidade de retornar ao ciclo biológico.

Esse é o contraste que transforma uma pequena residência britânica em um experimento relevante para uma indústria que produz enormes volumes de resíduos: a parede deixa de ser pensada como algo que inevitavelmente será quebrado e passa a funcionar como um estoque temporário de componentes.

A Cork House não decretou o fim da argamassa. Mas seus 1.268 blocos demonstraram que uma parede pode permanecer de pé sem que suas peças precisem ser coladas umas às outras para sempre.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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