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Arqueólogos retiram enormes blocos de pedra na Grécia e encontram tesouros mais antigos que Jesus, enterrados há mais de 2.300 anos, com joias de ouro, leões de mármore, tumbas de pessoas poderosas e um monumento dedicado a uma figura misteriosa que ninguém ainda conseguiu identificar
Escrito por Ana Alice
Publicado em 15/08/2026 às 23:54
Atualizado em 15/08/2026 às 23:55
Ciência e Tecnologia
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Uma escavação no Peloponeso reuniu ouro, esculturas e arquitetura monumental em um mesmo sítio, oferecendo novas pistas sobre rituais funerários, poder e memória em uma cidade grega desaparecida há mais de dois milênios.
Sob pedras que escondiam parte de um antigo edifício no Peloponeso, arqueólogos encontraram esculturas de leões em mármore, sepultamentos intactos e joias de ouro que permaneceram enterradas por séculos na região onde existiu a cidade grega de Rypes.
A descoberta foi feita durante a campanha arqueológica de 2024 no planalto de Trapeza, cerca de 8 quilômetros a sudoeste de Aigio, na Grécia, e divulgada oficialmente pelo Ministério da Cultura grego em 7 de dezembro daquele ano.
O próprio monumento é anterior a 300 a.C., o que significa que sua construção tem mais de 2,3 mil anos.
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Dentro dele, em sepultamentos pertencentes a uma fase posterior de utilização, apareceram um par de brincos de ouro com cabeças de leão, uma joia representando Eros alado, um colar de ouro, um anel e uma moeda funerária.
O conjunto chamou atenção não apenas pelo ouro.
Segundo os arqueólogos, a arquitetura permite identificar o chamado Edifício Gama como um heroon, tipo de monumento relacionado à memória ou ao culto de um personagem tratado como herói pela comunidade.
Quem exatamente foi homenageado naquele lugar continua desconhecido.
Mais de um ano depois da divulgação inicial, o achado continuou aparecendo na literatura arqueológica.
Em 2025, a revista Archaeological Reports, da Cambridge University Press, incluiu as escavações de Rypes em seu balanço de pesquisas na Grécia, destacando o edifício anterior a 300 a.C., os leões de mármore e os sepultamentos intactos com objetos de alto valor.
Edifício Gama escondia uma fachada monumental de 16,8 metros
A campanha de 2024 concentrou os trabalhos no Edifício Gama, localizado a sudeste do terraço onde ficam os templos da antiga cidade.
Quando os arqueólogos chegaram à estrutura, boa parte dela estava coberta pelos próprios restos da construção.
Blocos de calcário e de conglomerado haviam caído sobre o edifício ao longo do tempo.
Cada peça precisou ser registrada, numerada e retirada.
Só então apareceu completamente a base da longa fachada sul.
O trecho revelado mede 16,80 metros.
Detalhes de encaixe das pedras e elementos arquitetônicos permitiram aos pesquisadores situar a construção antes de 300 a.C.
A fachada teria ainda cerca de três metros de altura e utilizava elementos da ordem coríntia, estilo arquitetônico conhecido principalmente pelos capitéis ornamentados com folhas.
No caso de Rypes, os pesquisadores identificaram 20 folhas de acanto estilizadas na decoração do capitel.
Arquitetura coríntia está entre os detalhes mais raros da descoberta
O ouro chama atenção nas fotografias, mas um dos aspectos mais importantes para os arqueólogos está nas pedras do edifício.
Segundo o Ministério da Cultura da Grécia, o conjunto representa a mais antiga composição coríntia completa conhecida até agora no interior de um monumento.
Também seria a primeira associação direta desse tipo de composição arquitetônica com uso funerário identificada pela equipe.
Os pesquisadores compararam algumas características das colunas com elementos do Templo de Apolo em Bassae, também localizado no Peloponeso.
As semelhanças aparecem especialmente nas bases e na decoração de folhas de acanto.
A escavação ainda revelou peças arquitetônicas de estilo jônico que não pertenciam ao mesmo edifício.
Para os arqueólogos, elas provavelmente vieram de outra construção ainda a ser procurada nas proximidades.
Ou seja, retirar os escombros de um monumento acabou produzindo pistas sobre outro.
Leões de mármore apareceram sob os escombros de Rypes
Foi na região diante da fachada que surgiram algumas das peças mais visíveis da escavação.
Os arqueólogos encontraram um leão de mármore agachado, menor que o tamanho natural e ainda ligado à própria base.
Depois apareceu um segundo exemplar, maior, também em posição agachada.
Parte de sua anatomia e da juba ainda podia ser observada em relevo.
Uma terceira peça correspondia à cabeça de outro leão de tamanho menor.
Também surgiu a parte superior de uma grande estela funerária de mármore representando uma figura masculina jovem.
Todas essas esculturas foram produzidas em mármore pentélico, material associado às pedreiras da região do monte Pentélico, na Ática.
Os leões originalmente ocupavam bases de pedra separadas.
A disposição e o contexto funerário ajudaram a equipe a interpretar o Edifício Gama como um monumento ligado à memória de uma personalidade de destaque da antiga cidade.
Sepultamentos intactos guardavam joias de ouro
Outra surpresa surgiu no interior.
Em uma fase posterior da utilização do edifício, pessoas foram sepultadas ali em tumbas construídas com placas de pedra e em um sarcófago.
Algumas dessas sepulturas não haviam sido saqueadas.
Foi justamente dentro desse contexto que apareceram as peças de ouro.
Para o Ministério da Cultura grego, os objetos deixados junto aos mortos são indícios da prosperidade e da elevada posição social das pessoas enterradas no monumento.
Há, porém, uma diferença cronológica importante.
A data anterior a 300 a.C. se refere à arquitetura principal do edifício.
O comunicado oficial informa que os sepultamentos com as joias pertencem a uma fase posterior de uso, mas não fornece no texto uma data individual precisa para cada objeto de ouro.
Brincos de ouro terminavam em cabeças de leão
Entre as peças recuperadas estava um par de brincos de ouro decorados com cabeças de leão.
O motivo cria uma ligação visual curiosa com os grandes animais esculpidos em mármore encontrados diante da construção.
Outro brinco de ouro tinha uma representação muito diferente.
A joia mostra Eros nu e alado, segurando um cetro em uma das mãos e uma coroa na outra.
Os arqueólogos também encontraram um colar de ouro cujas extremidades terminam em bustos de leões, além de um anel de ouro.
Completavam o conjunto dois botões de ferro ainda associados a tecido e um strigil, instrumento metálico usado no mundo antigo para raspar óleo, suor e sujeira do corpo.
O conjunto mostra que os leões não apareciam apenas nas esculturas monumentais.
O mesmo animal estava presente em parte das joias depositadas junto aos mortos.
Moeda de ouro carregava significado funerário na Grécia antiga
Entre os objetos encontrados, o Ministério da Cultura cita ainda uma danake de ouro, descrita como um óbolo de Caronte e marcada por uma tartaruga no anverso.
A referência está ligada a uma antiga tradição funerária grega.
A chamada moeda de Caronte era depositada em contextos de sepultamento e ficou associada, na tradição mitológica, ao pagamento destinado ao barqueiro que transportaria os mortos para o outro mundo.
No caso de Rypes, a própria equipe arqueológica utilizou a expressão “óbolo de Caronte” ao descrever o achado.
Não é necessário imaginar a moeda apenas como dinheiro no sentido moderno.
Dentro do túmulo, ela fazia parte de um ritual e ajudava os arqueólogos a interpretar as práticas funerárias das pessoas que utilizaram aquele espaço.
Vestígios ainda mais antigos apareceram sob a fachada
O Edifício Gama não representa a camada mais antiga encontrada naquele ponto.
Uma pequena sondagem realizada abaixo e do lado externo da fachada revelou restos arquitetônicos e cerâmicas que remontam ao século 8 a.C.
Isso leva a história daquele trecho do planalto centenas de anos para trás em relação ao próprio monumento funerário.
Os pesquisadores ainda precisam compreender como essas estruturas mais antigas se relacionam com a cidade que se desenvolveria posteriormente no local.
A presença desse material também ajuda a explicar por que Trapeza é investigada como uma área arqueológica complexa, com diferentes períodos de ocupação sobrepostos.
Antiga cidade de Rypes fazia parte da Acaia
O planalto de Trapeza é identificado pelos pesquisadores com Rypes, antiga cidade da Acaia.
A área fica no norte do Peloponeso, aproximadamente 8 quilômetros a sudoeste da atual cidade de Aigio.
Segundo o Ministério da Cultura da Grécia, Rypes prosperou nos períodos históricos iniciais e participou do movimento de colonização grega no Mediterrâneo.
A fonte oficial relaciona a comunidade à fundação de Crotona, na Magna Grécia, no território que atualmente faz parte do sul da Itália.
Isso coloca o local dentro de uma rede muito maior do que aquela sugerida pelas ruínas atualmente visíveis.
Pessoas, costumes, objetos e modelos arquitetônicos circulavam pelo Mediterrâneo muito antes de as fronteiras modernas existirem.
Identidade do personagem homenageado no heroon permanece desconhecida
A palavra heroon pode dar a impressão de que os arqueólogos encontraram o túmulo de algum herói conhecido da mitologia.
Não foi isso que aconteceu.
A interpretação se refere ao tipo e à função provável do monumento, e não à identificação de uma personalidade famosa.
Até agora, não há nome confirmado para a pessoa ou grupo que teria recebido aquela forma de homenagem.
A combinação de arquitetura monumental, esculturas, estela funerária e sepultamentos ajudou os pesquisadores a chegar à interpretação do edifício como heroon da cidade antiga.
O Ministério da Cultura também deixou claro, ao divulgar os resultados, que a investigação ainda não estava encerrada.
O plano anunciado em dezembro de 2024 previa continuar a pesquisa depois da aprovação de um novo programa de escavações com duração de cinco anos.
Estudo acadêmico retomou as descobertas arqueológicas em 2025
A importância da campanha não ficou restrita ao comunicado do governo grego.
O balanço publicado em 2025 pela revista Archaeological Reports voltou a registrar o Edifício Gama, mencionando a fachada de 16,8 metros, a data anterior a 300 a.C., pelo menos três representações de leões em mármore e a estela funerária masculina.
A publicação também destacou as sepulturas intactas e os objetos associados a indivíduos de posição social elevada.
Entre eles aparecem brincos, colar e anel de ouro.
O relatório acadêmico reforça ainda a existência de cerâmica do século 8 a.C. em uma área próxima ao monumento.
Até 15 de agosto de 2026, não foi localizado nas fontes oficiais consultadas um novo relatório detalhado do Ministério da Cultura com resultados de uma campanha posterior especificamente sobre esse heroon.
Por isso, os achados de 2024 continuam sendo o conjunto público mais detalhado disponível para esse monumento.
O que já veio à luz, porém, deixa perguntas suficientes para as próximas escavações.
Há elementos arquitetônicos que parecem pertencer a outro edifício ainda não localizado, sepultamentos de uma fase posterior e restos muito mais antigos sob a própria fachada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

