Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Arquiteto brasileiro construiu sobre o próprio escritório uma Casa Bola de 8 metros, planejou seu transporte pelo ar e viveu nela por 50 anos

Arquiteto brasileiro construiu sobre o próprio escritório uma Casa Bola de 8 metros, planejou seu transporte pelo ar e viveu nela por 50 anos

6 min de leitura

Arquiteto brasileiro construiu sobre o próprio escritório uma Casa Bola de 8 metros, planejou seu transporte pelo ar e viveu nela por 50 anos

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 26/08/2026 às 16:36

Atualizado em 26/08/2026 às 16:37

Assista o vídeo
Casa Bola de Eduardo Longo uniu tubos de aço curvados e ferrocimento em uma esfera habitável

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Construída à mão entre 1974 e 1979, a Casa Bola de Eduardo Longo uniu tubos de aço curvados e ferrocimento em uma esfera habitável, abriu caminho para uma ideia radical de moradia transportável e voltou ao centro da arquitetura brasileira com sua abertura inédita ao público em 2026.

O arquiteto Eduardo Longo pretendia manter a esfera apenas por algum tempo, mas a Casa Bola de 8 metros virou sua residência por cerca de 50 anos no topo do edifício onde ficava seu escritório, em São Paulo.

A programação foi publicada pela ABERTO, plataforma brasileira de exposições de arte, arquitetura e design. A entidade abriu a Casa Bola ao público pela primeira vez entre 8 de março e 31 de maio de 2026.

Construída manualmente entre 1974 e 1979, a moradia nasceu como um teste para casas esféricas leves que poderiam ser produzidas e deslocadas pelo ar. A ideia não seguiu esse caminho, mas a experiência permaneceu no mesmo lugar e se transformou em um dos projetos mais incomuns da arquitetura brasileira.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

A casa que parece um OVNI sobre um prédio de São Paulo

Vista de fora, a Casa Bola de Eduardo Longo parece um objeto pousado sobre a cobertura de um edifício baixo. Sua forma arredondada, elevada acima da laje, quebra a sequência de paredes retas que domina a paisagem e cria uma imagem semelhante à de um OVNI, sigla usada para objeto voador não identificado.

A esfera tem aproximadamente 8 metros de diâmetro. Esse espaço teve divisão em níveis internos para aproveitar a altura e separar as funções da casa. Na parte inferior ficavam quartos e áreas de armazenamento. O nível central reunia entrada e cozinha, enquanto a parte superior abrigava a sala com visão ampla do entorno.

Assista o vídeo

Essa organização faz o morador circular por mudanças de nível, em vez de atravessar cômodos alinhados em um corredor comum. A curva acompanha quase todo o percurso e altera a percepção de distância, altura e tamanho dentro da residência.

Tubos de aço e ferrocimento deram forma à esfera

Longo construiu a casa com as próprias mãos. Primeiro, tubos de aço curvados formaram uma trama capaz de desenhar o volume arredondado. Depois, essa base recebeu ferrocimento, material feito com argamassa aplicada sobre uma rede metálica resistente.

O método permitiu criar uma superfície contínua, sem a separação comum entre paredes e teto. Partes do mobiliário, pontos de iluminação e elementos do banheiro também foram integrados à forma interna, porque objetos retos e prontos nem sempre se encaixavam bem nas paredes curvas.

O resultado destoava do brutalismo brasileiro presente em muitas obras daquele período. Esse estilo usava com frequência grandes massas de concreto, linhas retas e estruturas pesadas à vista. A Casa Bola seguiu outra direção, com escala doméstica, aparência leve e desenho arredondado.

A ABERTO, plataforma brasileira de exposições de arte, arquitetura e design, apresentou a residência como uma escultura habitável. A expressão resume a união entre estrutura, móveis, circulação e experiência visual em um único volume.

O plano de transportar moradias inteiras pelo ar

A esfera não foi escolhida apenas pela aparência. Longo procurava uma forma que envolvesse um bom volume interno com pouca superfície e menos material. O projeto poderia servir como modelo para unidades habitacionais leves, produzidas de maneira organizada e levadas até o local de instalação pelo ar.

No conceito inicial, portanto, a casa era transportável. A unidade poderia sair pronta de um ponto e chegar a outro sem depender de uma construção convencional completa no destino. Essa possibilidade fazia parte de uma visão maior de conjuntos formados por várias esferas suspensas.

Na prática, a Casa Bola construída em São Paulo não ficou pronta para uma mudança simples. O uso de ferrocimento, a ligação com o edifício e a integração dos ambientes deram ao protótipo um caráter permanente. Um transporte real exigiria separar a esfera da base, conhecer seu peso, equilibrar a carga e definir pontos seguros para o levantamento.

Também seria necessário vencer obstáculos de espaço, distância e segurança. Assim, a ideia de transporte pelo ar existia, mas sua realização dependeria de uma operação complexa. A prova mais clara dessa dificuldade é que a estrutura permaneceu sobre o mesmo prédio e nunca cumpriu a viagem imaginada.

Cinco décadas dentro de uma casa sem paredes retas

O que deveria ser temporário se tornou cotidiano. Eduardo Longo viveu na esfera por cerca de cinco décadas, período em que o experimento deixou de ser apenas uma proposta arquitetônica e passou a enfrentar as necessidades reais de uma residência.

Uma planta curva muda tarefas simples. Armários, prateleiras, camas e bancadas retas deixam espaços vazios quando encostados numa superfície arredondada. Portas, divisões e áreas de armazenamento também precisam acompanhar medidas específicas, o que explica a presença de soluções feitas para o próprio interior.

Tubos de aço e ferrocimento deram forma à esfera

Ao mesmo tempo, a divisão em níveis permitiu aproveitar a altura da esfera e manter funções diferentes dentro de um diâmetro limitado. A sala na parte superior recebeu a área mais aberta, enquanto espaços de descanso e guarda ocuparam regiões mais baixas.

A longa permanência de Longo mostra que a Casa Bola foi além de uma maquete em tamanho real. Ela funcionou como moradia, mesmo exigindo adaptações que uma casa de paredes retas normalmente não impõe.

A redescoberta da Casa Bola em 2026

A quinta edição da mostra transformou a residência em espaço de visitação pela primeira vez. O evento ocorreu de 8 de março a 31 de maio de 2026 e reuniu cerca de 60 obras de arte e design, assinadas por mais de 50 artistas brasileiros e estrangeiros.

Os trabalhos ocuparam a Casa Bola, outras áreas do imóvel e pontos do entorno, num percurso de aproximadamente 1.000 metros quadrados. Grande parte das obras foi criada para dialogar com as curvas, os níveis e o caráter experimental do projeto de Longo.

A exposição também reuniu desenhos, fotografias, projetos e maquetes produzidos durante décadas. Esse material ajudou o público a enxergar a esfera não apenas como curiosidade visual, mas como parte de uma pesquisa sobre novas formas de morar.

Depois de permanecer discreta na paisagem de São Paulo, a Casa Bola ganhou acesso público inédito e voltou a provocar a pergunta que deu origem ao projeto: até onde a forma de uma casa pode mudar a maneira de viver dentro dela?

A esfera de 8 metros nunca foi levada pelo ar, mas atravessou 50 anos no mesmo endereço e preservou uma ideia radical dos anos 1970. O protótipo temporário acabou demonstrando sua permanência pelo uso diário.

Feita à mão com aço e ferrocimento, a residência resume uma experiência rara: um arquiteto desenhou uma forma incomum, construiu cada parte e viveu dentro do próprio teste por décadas.

Você moraria numa casa completamente esférica, com móveis feitos para acompanhar as curvas? Conte sua opinião nos comentários e compartilhe esta história com quem gosta de arquitetura diferente.

Fonte

ABERTO


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

Sair da versão mobile