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Arquivos dos EUA resgatam o relato de uma ‘esfera metálica’ com um ‘tripulante morto’ que teria caído na Bahia em 1963, mas os próprios telegramas revelam o desfecho, a história foi desmentida e classificada como invenção

Arquivos dos EUA resgatam o relato de uma ‘esfera metálica’ com um ‘tripulante morto’ que teria caído na Bahia em 1963, mas os próprios telegramas revelam o desfecho, a história foi desmentida e classificada como invenção

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Arquivos dos EUA resgatam o relato de uma ‘esfera metálica’ com um ‘tripulante morto’ que teria caído na Bahia em 1963, mas os próprios telegramas revelam o desfecho, a história foi desmentida e classificada como invenção

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 07/08/2026 às 23:16

Ciência e Tecnologia

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Arquivos dos EUA trazem o relato da esfera metálica com tripulante morto na Bahia em 1963, e os próprios telegramas mostram que tudo era invenção.

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Uma esfera metálica caída no centro de uma cidade baiana, um buraco de quatro metros de profundidade e um corpo de uniforme com inscrições indecifráveis. Foi assim que a história chegou aos diplomatas americanos em 1963. Poucos dias depois, o mesmo canal diplomático registrou que nada daquilo tinha acontecido.

O governo dos Estados Unidos divulgou nesta sexta-feira, 7 de agosto de 2026, uma nova leva de documentos que traz de volta um episódio ocorrido no interior da Bahia em novembro de 1963, quando telegramas diplomáticos americanos passaram a descrever o relato de uma esfera metálica tripulada que teria caído em Conde, no litoral norte do estado, segundo reportagem publicada pelo portal ND Mais na mesma data. Os papéis mencionam janelas de vidro espesso, um ocupante encontrado morto e inscrições que ninguém conseguiu decifrar.

O que os documentos também mostram, e essa é a parte que costuma ficar de fora quando o caso reaparece, é o desfecho. Menos de uma semana depois do primeiro telegrama, o consulado americano em Salvador enviou ao Departamento de Estado um relatório que classificava a história como fabricação. O Ministério da Aeronáutica brasileiro negou categoricamente a existência de qualquer objeto estranho na cidade.

O que dizia o telegrama de novembro de 1963

Ovni na Bahia: documentos americanos citam uma “grande esfera metálica” em relato registrado em 1963Foto: Reprodução War.Gov/

O primeiro documento não é um relato de testemunha americana. É a reprodução, feita por diplomatas dos Estados Unidos, do que emissoras de rádio e jornais brasileiros estavam noticiando naqueles dias. O texto descreve uma grande esfera metálica que teria caído no centro de Conde, abrindo no chão um buraco de quatro metros de profundidade.

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A descrição do objeto é o que deu força à história. O telegrama menciona aberturas em formato de janela, cobertas com vidro grosso, e diz que dentro da estrutura havia um corpo humano vestido com roupas pesadas, com inscrições que não podiam ser decifradas. A esfera metálica aparecia nos relatos não como objeto vazio, mas como veículo tripulado, com um ocupante morto a bordo. O documento registra ainda que a população local estava intrigada e que as autoridades tinham sido informadas.

Vale reparar na estrutura desse primeiro papel. Ele não afirma que os fatos ocorreram. Ele registra o que a imprensa brasileira estava dizendo, o que é uma diferença enorme do ponto de vista documental. Diplomatas fazem isso rotineiramente: reportam o que circula no país onde estão lotados, sem endossar o conteúdo.

O pedido de verificação partiu de Washington

Arquivos desclassificados mostram como diplomatas dos Estados Unidos investigaram um suposto caso de OVNI na BahiaFoto: Reprodução War.Gov

O passo seguinte foi burocrático e revelador. Outro documento registra que autoridades americanas pediram uma verificação oficial para confirmar se o episódio tinha mesmo acontecido. Não houve mobilização militar, envio de equipe nem operação secreta. Houve pedido de checagem por via diplomática comum.

O telegrama que aciona essa verificação é identificado como Embtel 94, enviado ao consulado americano em Salvador, com número 1054 para o secretário de Estado, datado de 14 de novembro de 1963. Cópias informativas do documento foram encaminhadas ao Departamento de Estado, com solicitação de que seguissem também para a Defesa, especificamente para a Força Aérea, e para a NASA. O caso da esfera metálica baiana chegou formalmente à mesa da agência espacial americana.

O assunto registrado no documento não deixa dúvida sobre o tom da apuração: relatório negativo sobre objeto voador não identificado, com referência ao avistamento supostamente ocorrido perto de Salvador em 8 de novembro de 1963.

A resposta veio em seis dias

O cônsul americano em Salvador, Harold Midkiff, respondeu por telegrama de número 157, também datado de 14 de novembro. O conteúdo é direto e não deixa espaço para interpretação ambígua. A história do objeto estranho que teria descido na região de Conde aparece descrita como aparentemente fabricada no Rio de Janeiro.

A justificativa apresentada por Midkiff é factual e verificável. Nenhum objeto desse tipo foi visto por ninguém na área, segundo repórteres de jornais e outras pessoas que se deslocaram rapidamente até o local antes mesmo de os relatórios da investigação ficarem prontos. Quem correu para Conde para ver a esfera metálica não encontrou nem esfera, nem buraco, nem corpo. O adido científico do consulado americano em Salvador confirmou que não havia evidências capazes de comprovar o suposto acidente.

O documento registra ainda uma hipótese levantada localmente. O secretário de Segurança Pública especulou que o objeto poderia ser um balão meteorológico, mas nenhum avistamento desse tipo foi verificado. A explicação alternativa também não se sustentou, e a conclusão do consulado foi a ausência total de registros locais sobre o caso.

O que os jornais baianos publicaram na época

Junto com o telegrama, Midkiff enviou por mala diplomática, no mesmo 14 de novembro, dois recortes de jornais de Salvador que sustentavam a conclusão. O primeiro era do Diário de Notícias, edição de 9 de novembro, um dia depois da data em que o objeto teria sido avistado.

Esse recorte trazia a negativa oficial. O Ministério da Aeronáutica desmentia categoricamente que houvesse qualquer objeto estranho em Conde. A desmentida veio da autoridade aeronáutica brasileira menos de 24 horas depois do suposto avistamento, o que ajuda a explicar por que o consulado americano encerrou a apuração tão rápido.

O segundo recorte era do Jornal da Bahia, e o título dispensava explicação: “O dirigível que não estava lá”. A imprensa local já tinha, na prática, enterrado a história antes que os documentos americanos chegassem a Washington.

O detalhe mais curioso do episódio não tem nada de extraterrestre

Há uma passagem nos documentos que virou a melhor piada do caso. Segundo o repórter do Jornal da Bahia, o único aspecto realmente noticioso do episódio foi um subproduto completamente terrestre da própria cobertura.

Ele contou que enviou o telegrama para a redação a partir da estação telegráfica federal de Conde, usando um antigo transmissor de código Morse ainda em operação na cidade. A esfera metálica não existia, mas o telégrafo de código Morse existia e funcionava, e foi por ele que a reportagem sobre o objeto inexistente saiu da cidade. É o tipo de detalhe que diz mais sobre o Brasil de 1963 do que qualquer relato de disco voador.

Esse registro também dá a medida de como a informação circulava naquela época. Uma história nascida em uma redação podia atravessar o país por rádio e jornal em questão de horas, chegar a um consulado estrangeiro, virar telegrama diplomático e ser encaminhada à NASA antes que alguém tivesse ido ao local conferir.

O que é o programa PURSUE e por que o caso reaparece agora

Os telegramas fazem parte da quinta leva de documentos divulgada pelo PURSUE, sigla em inglês para Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters, criado durante o governo de Donald Trump para tornar públicos registros históricos sobre fenômenos aéreos não identificados. O programa começou a liberar material em maio de 2026 e vem publicando novos lotes a cada poucas semanas.

A quinta leva, divulgada nesta sexta-feira pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos, acrescentou dezenas de documentos, imagens e vídeos ao acervo. O material inclui desde relatos de militares americanos sobre objetos triangulares e esferas em alta velocidade até papéis antigos como os telegramas sobre Conde. O critério de publicação é a ausência de conclusão definitiva por parte do governo, e não a confirmação de qualquer fenômeno.

O episódio baiano já era conhecido por pesquisadores de ufologia havia décadas. A novidade é que esta é a primeira vez que os telegramas diplomáticos completos são divulgados oficialmente pelo governo dos Estados Unidos dentro do programa. O que os documentos mostram é o passo a passo de uma apuração que começou com um relato espalhafatoso e terminou, poucos dias depois, com a constatação de que não havia nada.

Por que uma história desmentida continua circulando

O caso de Conde tem todos os ingredientes que fazem uma narrativa sobreviver por décadas: uma esfera metálica, um corpo de uniforme, símbolos indecifráveis, um buraco no chão e um documento oficial de governo estrangeiro mencionando tudo isso. O que quase nunca acompanha esses elementos, quando a história é recontada, é a segunda metade do arquivo.

A leitura completa dos telegramas conta uma história diferente e igualmente interessante. Ela mostra um sistema diplomático funcionando exatamente como deveria: registrar o que circula, pedir verificação, apurar no local, ouvir a autoridade competente, consultar a imprensa e concluir. Entre o primeiro relato e o relatório negativo passaram-se seis dias. O arquivo que hoje alimenta a especulação é o mesmo arquivo que já continha o desmentido desde 1963.

E você, acha que casos assim reaparecem porque as pessoas querem acreditar, ou porque a parte que desmente nunca circula tanto quanto a parte que impressiona? Conta nos comentários qual história de OVNI você já viu ser desmontada por um documento simples.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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