7 min de leitura
Atleta Rebeca Andrade usou as primeiras medalhas para dar uma vida mais confortável à mãe, empregada doméstica que criou oito filhos sozinha em Guarulhos
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 03/08/2026 às 16:36
Atualizado em 03/08/2026 às 16:43
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Antes de qualquer pódio olímpico, a ginasta caminhava até duas horas para chegar ao ginásio porque não havia dinheiro para a passagem. Com o dinheiro das primeiras conquistas, comprou um apartamento melhor em Guarulhos para a família. Dona Rosa criou os oito filhos trabalhando como empregada doméstica.
O trajeto até o treino era feito a pé. Quando a crise apertava em casa, a atleta Rebeca Andrade e o irmão mais velho, Roger, caminhavam até duas horas para chegar ao Ginásio Bonifácio Cardoso, na Vila Tijuco, em Guarulhos, na Grande São Paulo, porque não sobrava dinheiro para a passagem de ônibus. Depois ele comprou uma bicicleta usada, que quebrava com frequência.
Anos mais tarde, com as primeiras medalhas da carreira, ela comprou um apartamento mais confortável em Guarulhos para a família, conforme reportagem publicada pela revista IstoÉ em julho de 2021. Quem sustentou a casa até ali foi dona Rosa, empregada doméstica que criou os oito filhos sozinha depois da separação do marido.
Quem é a mulher por trás da história
Dona Rosa aparece nas reportagens com sobrenomes diferentes: o Metrópoles e o portal Remessa Online a identificam como Rosa Santos, enquanto O Liberal e a IstoÉ a chamam de Rosa Rodrigues. O nome de registro da ginasta é Rebeca Rodrigues de Andrade, o que indica que o sobrenome materno é Rodrigues.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Ela trabalhou como empregada doméstica para sustentar a família em Guarulhos. O pai, Ricardo Andrade, saiu de casa cedo, e a ginasta pouco conviveu com ele, embora use o sobrenome dele nas competições. Sobre o próprio papel, dona Rosa resumiu em uma frase dita durante os Jogos de Paris: sente-se honrada por ter oito filhos e uma medalhista.
O número de irmãos que ninguém acerta
Os veículos divergem sobre o tamanho da família, e vale registrar como. O Metrópoles, o portal TopMídia News e o Brasil 247 informam oito filhos, número que coincide com a fala da própria dona Rosa.
O BNews fala em Rebeca e seis irmãos, o que daria sete filhos. Já o SBT News afirma que ela tem seis irmãos, mas lista sete nomes na sequência: Roger, Emerson, Elisama, Robert, Ezequiel, Yago e Henrique. A contagem mais consistente, e a que a mãe confirma diretamente, é de oito filhos no total.
Como a ginástica entrou nessa casa
A modalidade não foi escolha da menina nem projeto da família. Uma tia trabalhava em um ginásio de Guarulhos e levava as primas para treinar no local.
Rebeca começou aos 4 anos no projeto social Iniciação Esportiva, mantido pela prefeitura de Guarulhos para crianças e jovens de 7 a 17 anos. Ela mesma descreveu o começo dizendo que assistia ginástica pela televisão, mas que o esporte entrou na vida dela como surpresa, e que sempre gostou de subir em árvore e dar estrelinha. Foi no dia da inscrição que ganhou o apelido de Daianinha, referência à ginasta Daiane dos Santos. O mesmo projeto formou outras atletas que chegaram à seleção brasileira, entre elas Júlia Cerqueira, Mariana Oliveira, Bruna Perandré, Marina Silva e Priscila Cobelo.
As duas horas de caminhada
O detalhe do deslocamento é o que dá dimensão real da dificuldade. Não havia dinheiro para condução, e a mãe não conseguia garantir sozinha que a filha chegasse aos treinos.
A solução foi o irmão mais velho assumir a tarefa. Roger levava Rebeca a pé quando não havia alternativa, percurso que consumia até duas horas de ida. Depois conseguiu uma bicicleta usada para encurtar o trajeto, mas ela quebrava com frequência e a caminhada voltava ao cardápio. Ela relatou também que a mãe pedia dinheiro emprestado para que não faltasse comida em casa e que roupa ela ganhava de pessoas conhecidas que doavam.
A decisão que a mãe tomou aos 9 anos da filha
O momento mais duro veio quando a menina foi convidada a treinar longe. Aos 9 anos, Rebeca saiu de casa para o Centro de Excelência de Ginástica do Paraná, mantido pela prefeitura de Curitiba, onde foi criada a primeira seleção brasileira permanente da modalidade.
A decisão rendeu críticas pesadas à mãe. Dona Rosa contou que ouviu que era doida por deixar a filha ir embora, e explicou que teve a sabedoria e a mente aberta para permitir que ela seguisse os próprios sonhos. Deixou claro, segundo o relato, que se não desse certo as portas de casa estariam sempre abertas. A avaliação que ela faz hoje é de que agiu certo por ter ouvido o próprio coração.
O período em que a menina queria voltar
A adaptação não foi tranquila e essa parte costuma sumir das versões resumidas. Em Curitiba, a jovem ligava chorando para a mãe pedindo para voltar para casa, porque não conseguia executar os movimentos difíceis que os técnicos pediam.
Ela permaneceu. Em 2011, recebeu convite para integrar a equipe juvenil do Flamengo e se mudou para o Rio de Janeiro, acompanhada da técnica Keli Kitaura, que havia proposto o arranjo ainda em Guarulhos quando a família não conseguia garantir a frequência aos treinos. É esse encadeamento de decisões, e não um talento isolado, que explica a trajetória: uma tia que abriu a porta, um projeto público, um irmão disponível, uma técnica que assumiu responsabilidade e uma mãe que autorizou a saída.
O apartamento comprado com as primeiras medalhas
O gesto que dá título a esta matéria aconteceu antes da fama nacional. Com o dinheiro obtido nas primeiras conquistas da carreira, ela comprou um apartamento mais confortável em Guarulhos, destinado à família.
Vale ser preciso sobre o que isso significa. Medalha não se converte diretamente em dinheiro, e o que financia esse tipo de compra é a combinação de premiação, bolsa atleta e patrocínio que acompanha o resultado esportivo. A ginasta nunca transformou o assunto em campanha nem divulgou valores. A informação aparece de forma lateral em reportagem de julho de 2021 e nunca foi convertida em publicidade pessoal por ela.
O que ela diz sobre a mãe
A relação entre as duas é descrita por Rebeca em termos diretos. Ela afirma que a mãe sempre esteve presente, levando a para os treinos e apoiando todas as decisões, e a chama de verdadeira campeã.
Em outra declaração, feita durante os Jogos de Paris, resumiu o próprio sentido de carreira: disse que a mãe é a melhor do mundo, que ela ora, vibra, chora e manda mensagem dizendo estar orgulhosa, e que a vida dela é justamente poder orgulhar a mãe. Foi em Paris 2024 que dona Rosa acompanhou pela primeira vez uma competição internacional da filha, e as reações dela na arquibancada viralizaram nas redes.
O que a atleta conquistou desde então
A trajetória esportiva dá contexto ao restante da história. Rebeca disputou os Jogos do Rio, em 2016, encerrando na nona posição do individual geral e sem alcançar a final do salto.
Em Tóquio, nos Jogos disputados em 2021, conquistou o ouro no salto e a prata no individual geral, tornando-se a primeira ginasta brasileira a subir ao pódio olímpico na modalidade. Em Paris, em 2024, ganhou o ouro no solo e chegou a seis medalhas olímpicas, tornando-se a maior medalhista olímpica da história do Brasil. Ela nasceu em 8 de maio de 1999, em Guarulhos, e hoje mora no Rio de Janeiro, perto do centro de treinamento do Time Brasil, na Barra da Tijuca.
Um detalhe descoberto por acaso
Existe um capítulo curioso que só apareceu por causa de uma dificuldade prática durante uma competição. Em Tóquio, ela percebeu que não conseguia enxergar as letras do telão do ginásio.
O episódio levou ao diagnóstico de problema de visão. Em entrevista à revista Marie Claire, ela contou ter pelo menos 2,5 graus de miopia em um olho e mais de 2 graus de astigmatismo no outro. Ou seja, boa parte da carreira até ali foi construída sem correção visual adequada, em um esporte que depende de percepção espacial precisa durante saltos e giros.
O que essa história mostra e o que não mostra
Convém fechar com honestidade sobre o alcance do caso. A trajetória demonstra o efeito concreto de política pública: sem o projeto de iniciação esportiva mantido pela prefeitura de Guarulhos e sem o centro de treinamento mantido pela prefeitura de Curitiba, aquela menina simplesmente não teria acesso à modalidade.
O que ela não demonstra é que basta talento e dedicação. Foi preciso também que existisse um irmão disponível para caminhar duas horas por dia, uma técnica disposta a assumir a responsabilidade por uma criança de outra cidade e uma mãe que aceitou enfrentar críticas para deixar a filha ir. Retire qualquer uma dessas peças e a história termina antes de começar, e reconhecer isso não diminui em nada o que a atleta construiu.
E você, conhece algum projeto social de esporte que mudou a vida de alguém na sua região? Conta aqui nos comentários qual foi e o que aconteceu com essa pessoa, e diga também se você acha que o Brasil aproveita bem os talentos que aparecem na periferia.
Tags
Rebeca Andrade
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

