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Autoridades britânicas soltaram um peixe predador no maior lago da África para turbinar a pesca, a espécie de 180 quilos dizimou os peixes nativos, virou exportação que só perde para o café e obrigou o presidente a mandar o exército

Autoridades britânicas soltaram um peixe predador no maior lago da África para turbinar a pesca, a espécie de 180 quilos dizimou os peixes nativos, virou exportação que só perde para o café e obrigou o presidente a mandar o exército

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Autoridades britânicas soltaram um peixe predador no maior lago da África para turbinar a pesca, a espécie de 180 quilos dizimou os peixes nativos, virou exportação que só perde para o café e obrigou o presidente a mandar o exército

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 17/08/2026 às 12:12

Atualizado em 17/08/2026 às 12:27

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Britânicos soltaram a perca-do-nilo, peixe predador de 180 kg, no lago Vitória; a espécie dizimou peixes nativos, virou exportação e fez Uganda mandar tropa

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O peixe predador é a perca-do-nilo, introduzida pelos britânicos no lago Vitória nas décadas de 1950 e 1960, a pesca explodiu para 200 mil barcos, entrou em colapso e só começou a se recuperar depois que soldados de Uganda ocuparam as praias em 2017 para acabar com a pesca ilegal

Um peixe predador solto por autoridades coloniais britânicas no lago Vitória, o maior da África, criou uma indústria de exportação, dizimou os peixes nativos e terminou colocando soldados nas praias de Uganda. A perca-do-nilo, que pode passar de 180 quilos, foi introduzida nas décadas de 1950 e 1960 para engordar a pesca comercial e hoje sustenta o segundo maior produto de exportação do país, atrás apenas do café. As informações são da National Geographic Brasil, em reportagem de Alec Jacobson publicada em 17 de maio de 2019 a partir da cidade pesqueira de Kasensero, em Uganda.

A mesma espécie que encheu os cofres provocou um declínio devastador dos peixes nativos, no episódio que a própria National Geographic descreve como um exemplo clássico de extinção causada pelo homem. No meio do caminho, a corrida pelo pescado inflou uma frota de 200 mil barcos, derrubou os estoques e levou o presidente Yoweri Museveni a despachar o exército para o lago em 2017.

Plano colonial ignorou o alerta dos cientistas

Britânicos soltaram a perca-do-nilo, peixe predador de 180 kg, no lago Vitória; a espécie dizimou peixes nativos, virou exportação e fez Uganda mandar tropa

Nas décadas de 1950 e 1960, administradores do império britânico soltaram no lago Vitória duas espécies de fora, a perca-do-nilo e a tilápia-do-nilo, com um objetivo simples: criar uma pesca comercial que rendesse dinheiro de verdade numa região onde os peixes nativos, pequenos, valiam pouco no mercado. Cientistas da época avisaram que soltar um predador de topo num lago sem inimigo natural ia acabar mal. O plano seguiu assim mesmo, e nos anos 1970 a perca já nadava em todos os cantos do lago.

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A perca-do-nilo cresce até passar de 180 quilos, mais que o peso de dois homens adultos juntos, e a carne caiu no gosto do mercado europeu, onde é vendida como pescada branca ao lado do bacalhau, rendendo exatamente o dinheiro que o plano colonial prometia. Na China, as bexigas natatórias desidratadas do peixe saem por preços altos. Debaixo d’água, porém, o peixe predador comia o lago por dentro: as espécies nativas despencaram na mesma velocidade em que a exportação subia, e Uganda passou a depender do pescado como segunda maior fonte de divisas, atrás só do café.

Lago 45 vezes maior que a cidade de São Paulo virou febre de 200 mil barcos

O lago Vitória espalha cerca de 68.900 quilômetros quadrados por Uganda, Quênia e Tanzânia, o que dá 45 vezes a área da cidade de São Paulo, e carrega o título de segundo maior corpo de água doce do planeta. Pensa no tamanho disso: um mar interno onde três países pescam ao mesmo tempo e do qual milhões de pessoas tiram o sustento nas margens.

Nos anos 1990, a população da perca explodiu de vez sobre os peixes menores, e a pesca virou a porta de saída da pobreza para quem vivia de roça de subsistência na beira do lago. A pequena frota de canoas artesanais inchou até bater em 200 mil barcos, boa parte motorizada, todos brigando pelo mesmo peixe. Em Kasensero, o dinheiro entrava à noite e saía na madrugada: pescador recebia e gastava na sequência em bar, aposta e bordel, aproveitando enquanto o estoque durava.

Auge em 2002, metade em 2008 e usina fechada em 2014

Britânicos soltaram a perca-do-nilo, peixe predador de 180 kg, no lago Vitória; a espécie dizimou peixes nativos, virou exportação e fez Uganda mandar tropa

A população de perca-do-nilo bateu o pico em 2002 e caiu pela metade até 2008, quando a primeira geração de peixes grandes já tinha saído da água. Sem os gigantes, a frota passou a mirar a perca miúda, capturada antes da idade de reprodução com redes de malha fina proibidas, em parte para abastecer o mercado clandestino da vizinha República Democrática do Congo, onde a guerra tinha acabado com a produção local de pescado.

As exportações legais de peixe caíram 30% até 2013, e a usina de processamento de Kasensero fechou as portas em 2014, levando embora o principal empregador formal da cidade. Pescadores contaram à National Geographic que parte dos fiscais de pesca lucrava com a ilegalidade, e quem denunciava acabava ameaçado ou processado em tribunais comprados. Faz a conta: com o estoque caindo, o preço subindo e o fiscal no esquema, sobrava para cada pescador escolher entre a rede ilegal e a mesa vazia.

Pescador criticou o presidente e saiu do palácio com o exército

Em 2016, em plena temporada eleitoral, Museveni visitou as cidades do lago e acusou os pescadores de terem destruído o próprio sustento. Kwiizera Fred, dono de barcos em Kasensero, levantou-se no meio da multidão e devolveu: quem punia os denunciantes eram os oficiais do próprio governo. Em vez de retaliação, Fred recebeu convite para uma reunião particular no palácio presidencial de Entebbe, ao lado de outros cinco pescadores que também tinham peitado o presidente em público.

Dentro do palácio, o grupo tocou na ferida certa: descreveu o contrabando de peixe para o Congo, onde operavam grupos rebeldes, o tipo de ameaça que mais preocupava um presidente que chegou ao poder liderando uma rebelião. “Pedi o exército”, contou Fred à National Geographic. Meses depois, a Força de Defesa Popular de Uganda recebeu autoridade sobre o lago; o governo já tinha dissolvido, em novembro de 2015, as unidades locais de administração pesqueira e esvaziado o escritório federal de Pesca, ambos acusados de corrupção. No fim de 2017, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisa de Recursos Pesqueiros, Anthony Tabuu-Munyaho, anunciou um aumento de 30% na biomassa de perca-do-nilo.

Renda multiplicou por 16 de um lado, casa virou cinza do outro

Britânicos soltaram a perca-do-nilo, peixe predador de 180 kg, no lago Vitória; a espécie dizimou peixes nativos, virou exportação e fez Uganda mandar tropa

O pescador Kaweesi William, que nos piores meses faturava menos de 500 mil xelins por barco, uns 135 dólares, e chegou a tirar a filha de oito anos da escola por falta de dinheiro, passou a lucrar 8 milhões de xelins mensais por embarcação em 2018, multiplicação de 16 vezes que devolveu a menina à sala de aula. O construtor naval Joseph Tamale entregou mais de 180 barcos novos naquele ano e trabalhou sem folga, depois de anos parando no quinto mês por falta de encomenda.

Do outro lado da praia, soldados queimaram pilhas de redes ilegais, e os pescadores pobres, sem dinheiro para equipamento legalizado, quebraram quando o material virou fumaça, enquanto os donos de barcos grandes apenas compraram redes novas. Um morador de Kasensero conhecido como Kagalula perdeu a casa incendiada por militares depois que vizinhos, ameaçados, apontaram como dele uma pilha de redes proibidas que ele nega ter possuído.

Em janeiro de 2018, o editor investigativo Emmanuel Mutaizibwa, da NTV News e do jornal Daily Monitor, documentou mortes de pescadores durante buscas da tropa e acusou os soldados de execuções extrajudiciais; o governo negou oficialmente, e parlamentares protestaram contra o policiamento no lago. O contrabandista Paluku Theophile, refugiado congolês que vivia de salgar perca miúda e atravessá-la para o Congo, perdeu o negócio da noite para o dia: a mulher, Katungu Mwasimuke, voltou ao Congo com os filhos, e ele foi cortar cana nos arredores.

Lago segue sob pressão sete anos depois da reportagem

A reportagem da National Geographic é de 2019, e o lago continuou rendendo notícia ambiental desde então. Levantamento da União Internacional para a Conservação da Natureza, repercutido em maio de 2025 pelo site Travel and Tour World, aponta 86 espécies de peixes nativos do lago Vitória ameaçadas de extinção, de um total de 234 conhecidas, com a poluição, a pesca sem controle e a presença de espécies introduzidas, caso do peixe predador solto pelos britânicos, entre as causas listadas. Cerca de 30 milhões de pessoas vivem ao redor do lago e dependem dele em alguma medida.

Em setenta anos, o peixe predador criou uma indústria de exportação, apagou boa parte da fauna original de um dos maiores lagos do mundo, enriqueceu e quebrou gerações de pescadores e exigiu soldados para conter um estrago que começou num despacho de gabinete colonial. A perca segue no lago, a conta ecológica da decisão dos anos 1950 segue aberta, e quem paga as parcelas são três países ao mesmo tempo.

E para você, a intervenção militar de Uganda foi o remédio certo para salvar a pesca ou o preço social ficou alto demais? Conte nos comentários se você conhece um caso brasileiro de espécie introduzida que fugiu do controle, do javali à tilápia.

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peixe predador


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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