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Bilhões do BNDES vão fazer aviões brasileiros cruzarem a fronteira, o banco aprovou entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,7 bilhões para a Embraer entregar até 19 jatos a uma companhia do Canadá até 2030, na primeira operação do tipo entre os dois países
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 03/08/2026 às 11:24
Economia
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O financiamento sai pela linha BNDES Exim Pós-embarque e conta com cobertura do Seguro de Crédito à Exportação. As aeronaves são do modelo E195-E2 e vão para a Porter Airlines, de Toronto, que já recebeu 54 dos 75 jatos encomendados à fabricante brasileira.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou operação de financiamento estimada entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,7 bilhões para viabilizar a exportação de até 19 aeronaves da Embraer para a canadense Porter Aviation Holdings, conforme reportagem publicada pelo portal Brasil 247 com base em informações do jornal O Globo. As entregas devem ser concluídas até 2030.
O modelo contemplado é o E195-E2, e o comprador é a controladora da companhia aérea Porter Airlines. É a primeira vez que uma exportação de jatos da fabricante brasileira para uma empresa canadense recebe financiamento direto do banco de fomento, o que dá ao acordo caráter inédito na relação entre as instituições.
Como o financiamento foi estruturado
Os recursos serão canalizados pela linha BNDES Exim Pós-embarque, instrumento voltado a ampliar a competitividade e o comércio exterior de bens e serviços brasileiros.
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Essa modalidade atua depois que a mercadoria já foi despachada, financiando o comprador estrangeiro para que o exportador nacional receba à vista. Na prática, é o banco brasileiro que assume o prazo de pagamento, e não a fabricante.
Há uma segunda camada de proteção na operação. Ela conta com cobertura do Seguro de Crédito à Exportação, do Fundo de Garantia à Exportação, operado pela Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias. É esse seguro que cobre o risco de inadimplência do comprador estrangeiro, mecanismo padrão em financiamento de bens de alto valor com prazo longo.
Por que o Estado entra em uma venda de avião
Financiamento público a exportação de aeronave não é peculiaridade brasileira, e entender isso ajuda a dimensionar a operação. Aviões comerciais custam dezenas de milhões de dólares por unidade e são pagos ao longo de anos, o que torna o crédito parte inseparável do negócio.
Por isso, os principais países produtores mantêm agências de crédito à exportação que oferecem condições semelhantes às fabricantes nacionais. Sem esse instrumento, a companhia aérea compradora tende a escolher o concorrente que chega com o pacote financeiro montado.
A presidente da agência gestora dos fundos garantidores, Maíra Madrid, situou o mecanismo nesse contexto ao afirmar que o instrumento integra a política pública de apoio às exportações brasileiras e contribui para a competitividade dos produtos nacionais no mercado internacional. A disputa por um contrato de avião se decide tanto na ficha técnica quanto na taxa de juros.
O contrato maior de 75 jatos
A operação aprovada não é isolada. Ela integra um acordo mais amplo, no qual a companhia canadense encomendou 75 jatos do modelo E195-E2 à fabricante brasileira, com recebimentos graduais iniciados em 2023.
Do total contratado, 54 aeronaves já foram entregues. Três dessas unidades utilizaram o modelo de financiamento direto do banco brasileiro, acordado em dezembro de 2025.
A entrega mais recente ocorreu em 23 de junho de 2026, em cerimônia realizada na sede da fabricante, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O evento reuniu representantes do banco, da agência de garantias, da companhia aérea e da própria fabricante. Restam 21 aeronaves do contrato original, e a operação recém-aprovada cobre até 19 delas.
O argumento do banco: emprego e produção
O presidente do banco, Aloizio Mercadante, apresentou a justificativa da instituição para a operação em termos de cadeia produtiva.
Segundo ele, o apoio às exportações da fabricante garante a manutenção do nível de produção e do emprego na indústria aeronáutica nacional, além de ampliar o mercado para uma aeronave de maior conteúdo tecnológico.
O raciocínio se apoia na estrutura do setor. Produção aeronáutica envolve uma cadeia extensa de fornecedores de componentes, sistemas e serviços de engenharia, e a maior parte desse encadeamento fica no Brasil. Contrato de exportação sustenta linha de montagem, e linha de montagem sustenta fornecedor, efeito que não aparece diretamente no valor do financiamento.
Vale registrar que a apuração não traz números que quantifiquem esse impacto. Não há informação sobre quantos empregos estariam vinculados a essa produção específica nem sobre o conteúdo nacional das aeronaves.
Quem é a compradora canadense
A Porter Airlines foi criada em 2006 e tem sede em Toronto, no Canadá. A malha aérea da companhia cobre o próprio território canadense, os Estados Unidos, o México, o Caribe e a América Central.
O diferencial apontado pela empresa está na configuração de cabine. O modelo adotado elimina o assento do meio, distribuindo quatro poltronas por fileira, sendo duas de cada lado do corredor, formato incomum na classe econômica.
A companhia também oferece internet sem fio, bebidas como vinho e cerveja, além de lanches a bordo, sem cobrança adicional. É um posicionamento que vai na direção oposta da tendência de cobrar separadamente por cada item, adotada por boa parte do setor nos últimos anos.
O peso do cliente na estratégia da fabricante
A relevância do contrato para a fabricante brasileira foi destacada por Felipe Santana, vice-presidente executivo financeiro e de relações com investidores da companhia.
Ele afirmou considerar uma satisfação acompanhar o crescimento da frota desse cliente e poder conectar mais pessoas por meio das aeronaves, além de destacar a parceria com o banco no apoio às exportações.
Segundo ele, a companhia canadense é atualmente uma das maiores operadoras globais dos jatos de segunda geração da família E2. Um cliente que encomenda 75 unidades de um mesmo modelo funciona como vitrine comercial, porque demonstra a outros compradores que a aeronave opera em escala e com regularidade.
O que a apuração não esclarece
Alguns pontos ficam em aberto e são relevantes para avaliar a operação. Não há informação sobre a taxa de juros aplicada, o prazo de pagamento concedido ou as condições de amortização do financiamento.
Também não constam o valor unitário das aeronaves, o percentual do preço coberto pelo crédito nem o custo do seguro de exportação para a operação.
Falta ainda a razão do intervalo apresentado no valor total. A estimativa varia entre R$ 3,3 bilhões e R$ 3,7 bilhões, faixa que provavelmente se explica pela variação cambial e pelo número final de aeronaves efetivamente entregues, mas a reportagem não detalha o critério.
Uma operação que se estende até 2030
O cronograma previsto coloca as entregas até o fim da década, o que significa um compromisso financeiro de longo prazo para as três partes envolvidas.
Prazo estendido é característica desse tipo de contrato e traz riscos próprios. Variação cambial, mudança nas condições do mercado aéreo e alteração na saúde financeira da companhia compradora são fatores que podem interferir na execução ao longo de vários anos, e é justamente por isso que existe a cobertura de seguro.
O caráter inédito da operação também aponta uma direção. Sendo o primeiro financiamento direto do banco brasileiro para exportação de jatos ao Canadá, ela abre precedente para negociações futuras no mesmo mercado, ainda que a apuração não informe se há outras tratativas em andamento.
E você, acha que banco público deveria financiar cliente estrangeiro para viabilizar exportação brasileira, ou que esse dinheiro faria mais efeito aplicado internamente? Conta nos comentários o que você pensa sobre esse tipo de apoio à indústria nacional.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

