Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Bilionária ex-mulher de Jeff Bezos usa parte da fortuna para atacar dívidas médicas nos EUA, injeta milhões em organização que compra contas impagáveis por uma fração do preço e ajuda a libertar famílias de mais de US$ 40 bilhões em cobranças

Bilionária ex-mulher de Jeff Bezos usa parte da fortuna para atacar dívidas médicas nos EUA, injeta milhões em organização que compra contas impagáveis por uma fração do preço e ajuda a libertar famílias de mais de US$ 40 bilhões em cobranças

9 min de leitura

Bilionária ex-mulher de Jeff Bezos usa parte da fortuna para atacar dívidas médicas nos EUA, injeta milhões em organização que compra contas impagáveis por uma fração do preço e ajuda a libertar famílias de mais de US$ 40 bilhões em cobranças

Escrito por Ana Alice

Publicado em 17/08/2026 às 23:30

Atualizado em 17/08/2026 às 23:31

Curiosidades

Canal

MacKenzie Scott doou US$ 130 milhões à Undue Medical Debt, que compra dívidas com desconto e já eliminou US$ 49,6 bilhões em cobranças. – Imagem: Ilustrativa

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Uma estratégia filantrópica pouco conhecida transforma milhões de dólares em alívio para famílias endividadas, usando o mercado de cobranças médicas dos Estados Unidos para multiplicar o alcance das doações e cancelar valores muito maiores.

Como uma doação de US$ 1 pode ajudar a fazer desaparecer, em média, cerca de US$ 100 em contas médicas?

A resposta está em um mercado pouco conhecido fora dos Estados Unidos, no qual dívidas que dificilmente serão pagas podem ser negociadas por uma pequena parcela do valor originalmente cobrado.

É justamente nesse espaço que atua a Undue Medical Debt, organização sem fins lucrativos que compra grandes carteiras de contas médicas vencidas e, em vez de tentar cobrá-las dos pacientes, simplesmente cancela os débitos.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O projeto ganhou impulso com grandes doações privadas, entre elas US$ 130 milhões repassados por MacKenzie Scott, filantropa e ex-mulher do fundador da Amazon, Jeff Bezos, em três contribuições realizadas desde 2020.

O alcance da organização cresceu muito além dos números que tornaram a história conhecida inicialmente.

Em 2026, a própria Undue informa já ter eliminado aproximadamente US$ 49,6 bilhões em dívidas médicas de mais de 31,6 milhões de pessoas nos Estados Unidos.

O valor corresponde ao total de dívidas canceladas pela organização ao longo de sua atuação e não apenas ao dinheiro proveniente de Scott.

A diferença entre o dinheiro efetivamente doado e os bilhões eliminados é justamente a parte mais curiosa desse modelo.

Como a Undue Medical Debt compra dívidas por uma fração do valor

Uma conta médica de US$ 10 mil não significa necessariamente que alguém precise desembolsar US$ 10 mil para retirá-la do mercado.

Quando hospitais, grupos médicos ou empresas de cobrança avaliam que determinados pacientes dificilmente conseguirão pagar seus débitos, essas contas podem perder grande parte de seu valor comercial.

Em vez de continuar tentando receber integralmente, o credor pode negociar uma carteira contendo milhares de dívidas por apenas uma fração do valor nominal.

A Undue Medical Debt aproveita justamente esse mecanismo.

A entidade reúne dinheiro de doadores e parceiros públicos, negocia grandes lotes de débitos e, depois da compra, não tenta recuperar o dinheiro dos pacientes.

O saldo adquirido é cancelado.

Segundo a própria organização, cada US$ 10 doados permitem eliminar, em média, cerca de US$ 1 mil em dívida médica, uma relação aproximada de cem para um.

Isso explica por que milhões de dólares em filantropia podem estar relacionados a bilhões em contas apagadas sem que os doadores tenham pago integralmente todos aqueles tratamentos.

MacKenzie Scott doou US$ 130 milhões à organização

A ligação entre MacKenzie Scott e a organização começou em 2020.

Naquele ano, ela destinou US$ 50 milhões à entidade, então conhecida como RIP Medical Debt.

Dois anos depois, Scott voltou a contribuir, dessa vez com US$ 30 milhões.

Em dezembro de 2024 veio uma terceira doação, novamente de US$ 50 milhões, elevando o total destinado por ela à organização para US$ 130 milhões.

Receber três aportes da mesma filantropa chamou atenção porque repasses repetidos não são comuns na estratégia de doações de Scott.

Quando a terceira contribuição foi anunciada, a Associated Press informou que poucas organizações haviam recebido múltiplos aportes dela.

Naquela época, a Undue havia eliminado aproximadamente US$ 14,8 bilhões em dívidas médicas desde sua fundação.

O salto ocorrido posteriormente ajuda a mostrar a velocidade com que a operação ganhou escala.

Dívidas médicas eliminadas se aproximam de US$ 50 bilhões

Os números mudaram rapidamente depois da terceira doação.

Em maio de 2025, a Undue informou que havia lançado sua maior aquisição de dívida médica até então, uma operação planejada para eliminar cerca de US$ 30 bilhões em débitos elegíveis de aproximadamente 20 milhões de pessoas.

Em março de 2026, a organização já registrava mais de US$ 40 bilhões cancelados para mais de 27 milhões de pessoas.

A atualização disponível em agosto eleva o acumulado para aproximadamente US$ 49,6 bilhões e 31,6 milhões de beneficiados.

Esses números incluem diferentes fontes de financiamento.

Além de doadores privados como MacKenzie Scott, a Undue passou a trabalhar com governos estaduais, municípios, hospitais, fundações e outras organizações.

Por isso, atribuir todos os quase US$ 50 bilhões exclusivamente à ex-mulher de Jeff Bezos seria incorreto.

O que os aportes dela fizeram foi fornecer uma quantidade excepcional de recursos para ampliar uma organização que já comprava e eliminava débitos médicos.

Pacientes beneficiados não precisam solicitar o cancelamento

Outro aspecto incomum aparece na forma como as pessoas entram no programa.

Em geral, não existe um formulário que o paciente preenche para pedir que sua dívida seja cancelada.

Primeiro, a Undue precisa conseguir comprar a carteira de débitos de um hospital, grupo médico, empresa de cobrança ou outro parceiro participante.

Depois, sistemas de análise identificam quais dívidas daquela carteira atendem aos critérios financeiros usados pela organização.

Atualmente, podem se qualificar pessoas cuja renda esteja em até 400% do nível federal de pobreza dos Estados Unidos ou cujo débito médico represente mais de 5% de sua renda anual.

A pessoa não paga taxa nem precisa negociar parcelas com a instituição.

Quando a dívida elegível é eliminada, normalmente recebe uma correspondência informando que determinada cobrança deixou de existir.

A própria Undue afirma que não compra dívidas para fazer cobrança e que sua comunicação com os beneficiados serve para informar sobre o cancelamento.

Nem todo paciente com dívida médica pode ser escolhido

O modelo possui uma limitação importante.

Mesmo que alguém cumpra os critérios financeiros, a Undue não consegue simplesmente pesquisar o nome dessa pessoa e comprar sua conta individualmente.

O alívio depende de a dívida estar dentro de uma carteira que um hospital, grupo médico ou empresa de cobrança aceite vender ou transferir para a organização.

Por isso, a entidade chama o processo de baseado na origem da dívida.

Em outras palavras, um paciente não pode solicitar individualmente que a Undue compre sua conta.

Uma iniciativa divulgada em Michigan em julho de 2026 voltou a explicar esse mecanismo: o benefício é automático para quem se enquadra nos critérios dentro das carteiras adquiridas, e os selecionados recebem uma carta sem precisar tomar qualquer providência.

Essa característica produz situações pouco comuns.

Uma pessoa pode passar anos convivendo com uma conta hospitalar vencida e descobrir pelo correio que aquele débito deixou de existir sem nunca ter feito inscrição em um programa.

Dívida médica atinge milhões de pessoas nos Estados Unidos

A estratégia só consegue alcançar uma escala tão grande porque o problema também é enorme.

Uma análise da KFF estimou que os americanos deviam pelo menos US$ 220 bilhões em dívidas médicas, considerando dados disponíveis sobre contas de saúde não pagas.

O problema não se limita às pessoas completamente sem seguro.

Custos que ficam a cargo do paciente, franquias elevadas, coparticipações e tratamentos parcialmente cobertos podem gerar contas difíceis de absorver até para famílias seguradas.

Uma atualização publicada pela KFF em abril de 2026 aponta que 41% dos adultos americanos tinham algum tipo de dívida relacionada a gastos médicos ou odontológicos, considerando diferentes formas de endividamento.

Nesse sistema, uma doença ou acidente pode produzir dois problemas ao mesmo tempo.

Primeiro vem a questão médica.

Depois pode surgir uma cobrança que continua acompanhando a família mesmo quando o tratamento já terminou.

Cancelar US$ 100 milhões em dívidas não exige pagar US$ 100 milhões

Esse é um ponto fundamental para entender os bilhões envolvidos.

Quando a Undue anuncia que eliminou, por exemplo, US$ 100 milhões em dívidas, isso não significa que pagou US$ 100 milhões aos hospitais.

O número representa o valor nominal das contas que os pacientes originalmente deviam.

Como essas carteiras são compradas com grande desconto, a quantidade de dinheiro necessária para cancelar os débitos pode ser muito menor.

Essa diferença é o que permite à organização afirmar que cada dólar doado elimina, em média, cerca de cem dólares de dívida.

Para o paciente beneficiado, porém, a lógica é diferente.

Se uma conta de US$ 5 mil elegível for adquirida e cancelada, são aqueles US$ 5 mil que deixam de ser cobrados, independentemente de quanto a entidade gastou para comprar aquele débito dentro da carteira.

Governos passaram a financiar cancelamento de dívidas médicas

O modelo deixou de depender apenas da filantropia privada.

Nos últimos anos, governos estaduais e administrações locais começaram a destinar recursos públicos a parcerias com a Undue para eliminar dívidas de moradores.

Em janeiro de 2026, por exemplo, uma parceria em Nova Jersey alcançou aproximadamente US$ 1,6 bilhão em dívidas eliminadas de mais de 907 mil pessoas ao longo de diferentes rodadas.

Em julho, Michigan anunciou outra rodada, desta vez envolvendo mais de US$ 74 milhões em dívidas de quase 72 mil moradores.

Essas ações mostram que a ideia inicialmente conhecida por campanhas de arrecadação passou a ser usada também como instrumento de políticas públicas locais.

A própria organização, porém, reconhece que apagar dívidas antigas funciona como uma intervenção imediata e não elimina a causa que faz novas contas médicas surgirem.

Cancelamento de dívida não impede novas cobranças médicas

Esse limite impede que o projeto seja tratado como solução completa para os custos de saúde nos Estados Unidos.

Uma família pode receber a notícia de que uma conta antiga foi eliminada e, meses depois, voltar ao hospital e acumular um novo débito.

A Undue ampliou sua atuação justamente por causa desse problema.

Além de comprar carteiras, passou a investir em pesquisas e defender mudanças nas práticas de cobrança e nos programas de assistência financeira de hospitais.

Em pesquisa divulgada em 2026 com pessoas beneficiadas pelo programa, a organização identificou dificuldades persistentes relacionadas ao acesso a ajuda financeira hospitalar e aos custos que permanecem mesmo entre pacientes segurados.

Assim, cancelar uma cobrança pode resolver um problema concreto daquela família, mas não muda sozinho a forma como o sistema produz novas dívidas.

Doações de MacKenzie Scott ajudaram a ampliar uma operação bilionária

Quando MacKenzie Scott fez sua primeira contribuição de US$ 50 milhões, em 2020, a organização tinha uma escala muito menor.

Seis anos depois, o total informado pela Undue se aproxima dos US$ 50 bilhões em contas eliminadas.

O crescimento veio acompanhado de outros grandes doadores, governos, hospitais e parceiros, mas os US$ 130 milhões repassados pela filantropa ajudaram a organização a expandir equipe, tecnologia, pesquisa e capacidade de comprar carteiras maiores, segundo a própria Undue e a Associated Press.

É isso que torna a história diferente de uma doação convencional.

MacKenzie Scott não distribuiu dezenas de bilhões de dólares entre pacientes e também não pagou diretamente todas as contas médicas canceladas.

Ela colocou parte de sua fortuna em uma estrutura capaz de comprar dívidas que valiam muito menos no mercado do que os valores impressos nas cobranças enviadas às famílias.

A diferença entre esses dois números permitiu multiplicar o alcance de cada dólar recebido.

Hoje, com US$ 49,6 bilhões em dívidas eliminadas, o mecanismo mostra até onde pode chegar a combinação entre filantropia, negociação de carteiras e uma característica pouco conhecida do mercado de cobrança americano.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

Sair da versão mobile