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Brasil esconde uma “Veneza da Amazônia” onde carros e motos são proibidos desde 2002, as ruas são passarelas suspensas sobre palafitas e moradores fazem quase tudo de bicicleta, criando no Pará uma rotina com bicitáxis, policiais ciclistas e até “bicilância” para atender emergências

Brasil esconde uma “Veneza da Amazônia” onde carros e motos são proibidos desde 2002, as ruas são passarelas suspensas sobre palafitas e moradores fazem quase tudo de bicicleta, criando no Pará uma rotina com bicitáxis, policiais ciclistas e até “bicilância” para atender emergências

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Brasil esconde uma “Veneza da Amazônia” onde carros e motos são proibidos desde 2002, as ruas são passarelas suspensas sobre palafitas e moradores fazem quase tudo de bicicleta, criando no Pará uma rotina com bicitáxis, policiais ciclistas e até “bicilância” para atender emergências

Escrito por Ana Alice

Publicado em 26/08/2026 às 23:54

Atualizado em 26/08/2026 às 23:55

Curiosidades

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Afuá, no Pará, vive sem carros desde 2002 e usa bicicletas, bicitáxis e até bicilância nas passarelas elevadas sobre a várzea amazônica. – Imagem: Ilustrativa

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Em uma cidade moldada pelas águas do Marajó, passarelas substituem ruas convencionais e bicicletas assumem funções de transporte, policiamento e emergência, criando uma rotina urbana muito diferente da encontrada na maior parte do Brasil.

Em Afuá, no arquipélago do Marajó, no Pará, a paisagem urbana desafia a imagem tradicional de uma cidade brasileira.

Carros e motocicletas não circulam pelas passarelas, boa parte das vias fica elevada sobre palafitas e a bicicleta ocupa o espaço que, em outros municípios, pertence aos automóveis.

Localizada em uma região de várzea sujeita às cheias, Afuá desenvolveu casas, comércios e caminhos acima do nível alcançado pela água.

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Em vez de avenidas asfaltadas, moradores circulam por uma rede de passarelas e pontes que conecta diferentes pontos da área urbana.

A proibição de veículos motorizados remonta a 2002, segundo registros sobre o código de posturas municipal.

Duas décadas depois, a Lei Municipal nº 495, de novembro de 2022, voltou a estabelecer oficialmente restrições ao tráfego de veículos automotores no perímetro urbano e em passarelas da zona rural.

O resultado é uma cidade onde bicicletas ganharam funções que vão muito além do deslocamento individual.

Afuá adaptou a mobilidade urbana às cheias

A geografia ajuda a explicar por que o transporte de Afuá tomou um caminho tão diferente.

O município está cercado por rios, canais, igarapés e áreas sazonalmente inundáveis.

A própria Prefeitura de Afuá afirma que, devido à localização em região de várzea, a cidade foi construída de forma elevada, inclusive suas ruas.

As passarelas começaram com forte presença de madeira, embora determinados trechos tenham recebido posteriormente estruturas de concreto.

Nelas circulam crianças indo à escola, trabalhadores, comerciantes e famílias inteiras sobre bicicletas.

Segundo o IBGE, Afuá tinha 37.765 habitantes no Censo de 2022, enquanto a estimativa populacional para 2025 chegou a 40.473 pessoas.

Proibição de carros e motos começou em 2002

A ausência de automóveis não ocorre apenas porque as ruas são estreitas.

O município adotou uma restrição específica ao transporte motorizado.

Registros publicados pela National Geographic apontam que, em 2002, o código de posturas de Afuá proibiu veículos movidos a motor nas vias da cidade, inclusive modelos elétricos.

A decisão também ajudou a preservar passarelas que não haviam sido projetadas para suportar continuamente o peso e a circulação de automóveis convencionais.

Em 2022, a prefeitura publicou a Lei nº 495, que trata expressamente da proibição do tráfego de veículos automotores no âmbito urbano e nas passarelas das vias rurais.

Assim, enquanto muitas cidades tentam reduzir a dependência do automóvel, Afuá mantém há décadas uma dinâmica urbana baseada principalmente em deslocamentos não motorizados.

Bicicletas respondem pela maior parte dos deslocamentos

Em Afuá, pedalar não é apenas atividade esportiva ou alternativa de lazer.

Um levantamento já citado em estudos sobre a mobilidade local apontou que cerca de 75% das viagens eram realizadas por bicicletas, triciclos e quadriciclos movidos por força humana.

Outros deslocamentos ocorrem a pé.

O movimento das bicicletas também acompanha a dinâmica dos barcos que chegam e partem para outras cidades, especialmente Macapá e Belém.

A prefeitura informa que Afuá está a aproximadamente 84 quilômetros de Macapá, capital mais próxima, apesar de estar localizada no Pará.

Belém fica a cerca de 320 quilômetros.

O acesso ao município depende principalmente das vias fluviais, enquanto a circulação interna muda quase completamente para os pedais.

Bicitáxi nasceu da adaptação de duas bicicletas

Uma das criações mais conhecidas da cidade é o bicitáxi.

O veículo utiliza duas estruturas de bicicleta combinadas para formar um transporte maior, movido exclusivamente pela força humana e capaz de levar passageiros e mercadorias.

O modelo ganhou espaço a partir da década de 1990.

Raimundo do Socorro Souza, conhecido como Sarito, é apontado em registros locais como criador do primeiro bicitáxi, desenvolvido em 1995 depois que ele uniu duas bicicletas para transportar os próprios filhos.

A ideia acabou sendo reproduzida e modificada por outros moradores.

Hoje, os veículos fazem parte da identidade visual da cidade e podem receber assentos, espaço para bagagem, iluminação e outros acessórios.

Afuá usa até “bicilância” em atendimentos de emergência

A adaptação das bicicletas chegou também aos serviços de emergência.

A chamada bicilância é uma estrutura preparada para transportar pacientes pelas passarelas, geralmente com espaço para uma maca e apoio de socorristas.

Registros do município e reportagens feitas em Afuá mostram o equipamento sendo utilizado em atendimentos nos quais uma ambulância convencional simplesmente não conseguiria circular pela rede urbana.

A solução nasceu da mesma lógica aplicada ao bicitáxi: utilizar veículos leves, estreitos e movidos por força humana para cumprir funções normalmente desempenhadas por automóveis.

Dessa maneira, até situações de resgate precisaram ser pensadas a partir das características físicas da cidade.

Polícia Militar também patrulha Afuá de bicicleta

A segurança pública seguiu o mesmo caminho.

Em agosto de 2025, a Agência Pará informou que 25 policiais militares atuavam no policiamento ciclístico de Afuá.

As bicicletas são utilizadas em rondas ostensivas, ações preventivas, pontos-base e operações conjuntas com outros órgãos.

Para a corporação, o modelo facilita a circulação pelas passarelas e permite maior proximidade com moradores.

Viaturas convencionais, comuns em praticamente qualquer município brasileiro, não conseguem desempenhar o mesmo papel naquele espaço urbano.

Afuá ficou conhecida como “Veneza Marajoara”

A água que moldou a arquitetura e o transporte também ajudou a criar um dos apelidos mais conhecidos de Afuá.

O município é chamado de “Veneza Marajoara”, referência aos rios, canais e passarelas que atravessam a paisagem urbana.

Outro apelido recorrente é “cidade das bicicletas”.

A própria prefeitura utiliza essas referências na divulgação turística do município.

O contraste chama atenção: numa época em que centros urbanos investem em ciclovias para tentar retirar parte dos carros das ruas, Afuá apresenta uma situação praticamente inversa.

Ali, a infraestrutura foi construída em torno das condições naturais e dos deslocamentos a pé ou sobre duas rodas.

Mais de duas décadas depois da proibição dos veículos motorizados, bicicletas continuam transportando moradores, passageiros, mercadorias, policiais e até pacientes pelas passarelas suspensas sobre uma cidade moldada pelas águas do Marajó.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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