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Brasil volta a escavar gruta abandonada por quase 40 anos e encontra um verdadeiro cemitério do passado em Minas, onde repousa a única múmia conhecida do país, uma menina preservada há cerca de 3.350 anos, além de vestígios de 78 indivíduos e mais de 300 partes de sepultamentos

Brasil volta a escavar gruta abandonada por quase 40 anos e encontra um verdadeiro cemitério do passado em Minas, onde repousa a única múmia conhecida do país, uma menina preservada há cerca de 3.350 anos, além de vestígios de 78 indivíduos e mais de 300 partes de sepultamentos

MG

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Brasil volta a escavar gruta abandonada por quase 40 anos e encontra um verdadeiro cemitério do passado em Minas, onde repousa a única múmia conhecida do país, uma menina preservada há cerca de 3.350 anos, além de vestígios de 78 indivíduos e mais de 300 partes de sepultamentos

Escrito por Ana Alice

Publicado em 22/08/2026 às 19:19

Atualizado em 22/08/2026 às 19:32

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Gruta do Gentio II volta a ser escavada após quase 40 anos e guarda Acauã, a única múmia conhecida do Brasil, preservada há 3.350 anos. – Imagem: Ilustrativa

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Uma gruta em Minas Gerais voltou a ser escavada após décadas de abandono e reúne vestígios humanos, objetos e materiais preservados que podem ampliar o conhecimento sobre milhares de anos de história indígena no Brasil Central.

Durante quase quatro décadas, uma das áreas arqueológicas mais importantes do Brasil permaneceu sem novas escavações sistemáticas.

Agora, pesquisadores voltaram a retirar cuidadosamente camadas de terra da Gruta do Gentio II, em Unaí, no noroeste de Minas Gerais, um sítio que conserva vestígios de milhares de anos de ocupação humana e onde foi encontrada Acauã, considerada pela Universidade de Brasília a única múmia conhecida do Brasil e das terras baixas da América do Sul.

A retomada começou em 2021, depois do longo período de abandono, e ganhou uma nova campanha de campo em 2026.

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Os trabalhos deste ano começaram em julho e terminaram em 14 de agosto, reunindo pesquisadores, estudantes e instituições brasileiras e estrangeiras para procurar novos sepultamentos e entender como diferentes populações utilizaram aquele abrigo ao longo do tempo.

O tamanho do acervo já conhecido ajuda a explicar o interesse científico.

As primeiras escavações identificaram remanescentes de 78 indivíduos, alguns deles com cabelos e tecidos moles preservados.

Entre 2021 e 2025, as novas campanhas recuperaram ainda mais de 300 partes associadas a sepultamentos humanos, hoje submetidas a diferentes tipos de análise.

No centro dessa história está uma menina que morreu há aproximadamente 3.350 anos e cuja preservação ocorreu naturalmente dentro da própria caverna.

Acauã, menina de aproximadamente 12 anos cuja mumificação natural ocorreu no ambiente seco da Gruta do Gentio II há cerca de 3.350 anos. Crédito: Divulgação / Acervo do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB).

Acauã foi encontrada em 1977 na Gruta do Gentio II

A múmia recebeu o nome de Acauã, referência à ave encontrada na região de Unaí.

Segundo o Instituto de Arqueologia Brasileira, ela foi descoberta em 1977 pelas equipes que escavavam a Gruta do Gentio II durante pesquisas desenvolvidas no Vale do São Francisco.

Tratava-se de uma menina com aproximadamente 12 anos.

O corpo foi colocado em uma fina rede de algodão e protegido por couro de veado, além de ter sido sepultado com objetos e elementos associados ao ritual funerário.

Diferentemente das múmias produzidas por processos deliberados de embalsamamento, Acauã é classificada como uma múmia natural.

As condições secas e relativamente estáveis dentro do abrigo reduziram a decomposição e permitiram a conservação de partes que normalmente desapareceriam depois de milhares de anos.

O Instituto de Arqueologia Brasileira atribui ao sepultamento uma datação de aproximadamente 3.350 anos antes do presente.

A conservação excepcional transformou o achado em uma fonte rara de informações sobre antigas populações indígenas do Brasil Central.

Gruta preservou cabelos e tecidos de outros indivíduos

Acauã é o caso mais conhecido, mas não é o único remanescente humano encontrado em condições incomuns no sítio.

As escavações realizadas nas décadas de 1970 e 1980 identificaram restos de 78 indivíduos, segundo Francisco Pugliese, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e coordenador do Projeto Arqueologia e História Indígena no Brasil Central, o Phibra.

Registro histórico das escavações realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira na Gruta do Gentio II, onde Acauã foi descoberta em 1977. Crédito: Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB).

Alguns desses vestígios mantiveram tecidos moles e cabelos preservados graças ao microclima da caverna.

Esse material amplia as possibilidades de investigação para além do que normalmente seria possível apenas com ossos.

Pesquisadores podem procurar sinais relacionados a doenças e parasitas, estudar alimentação, analisar isótopos e tentar recuperar material genético antigo.

Objetos encontrados junto aos sepultamentos também oferecem informações sobre práticas culturais, alimentação, tecnologia e relações sociais.

Além dos restos humanos, as primeiras campanhas recuperaram cestarias, penas, adornos, cerâmicas, sementes e instrumentos de pedra.

O conjunto proveniente das antigas escavações permanece sob guarda do Instituto de Arqueologia Brasileira, no Rio de Janeiro.

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Ocupações humanas na gruta remontam a milhares de anos

A importância da Gruta do Gentio II começa muito antes do período em que Acauã viveu.

As pesquisas indicam uma ocupação mais antiga situada entre aproximadamente 12 mil e 5 mil anos antes do presente, relacionada a grupos de caçadores-coletores.

Depois de um intervalo, o espaço voltou a ser utilizado por outras populações.

A partir de cerca de 4.500 anos antes do presente, o abrigo passou a integrar contextos associados à tradição Una, encontrada no Vale do São Francisco e no noroeste mineiro.

Em períodos posteriores, a gruta também funcionou como espaço funerário.

As pesquisas atuais concentram parte da atenção em sepultamentos datados entre os séculos XIII e XV, procurando entender possíveis relações históricas, culturais e biológicas entre aquelas populações e povos indígenas que vivem atualmente no Brasil Central.

Para Pugliese, a localização do sítio ajuda a explicar sua importância.

A região está próxima ao encontro de grandes sistemas hidrográficos ligados às bacias dos rios São Francisco, Tocantins e Paraná, em uma área de contato entre diferentes partes do território brasileiro.

Essa posição pode ter favorecido deslocamentos, encontros e trocas entre populações ao longo de milhares de anos.

Escavações ficaram interrompidas por quase quatro décadas

Depois das grandes campanhas conduzidas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira nas décadas de 1970 e 1980, o trabalho foi interrompido.

Segundo Pugliese, pouco do material produzido naquela fase acabou publicado e o sítio passou quase quatro décadas sem o acompanhamento arqueológico necessário.

Quando pesquisadores retornaram em 2021, encontraram um problema imediato.

Partes de sepultamentos permaneciam expostas nos perfis deixados pelas escavações antigas.

“Quando voltamos em 2021, havia uma urgência concreta: partes de sepultamentos estavam expostas nos perfis das escavações antigas, desprotegidas, com risco real de degradação e saque, uma vez que turistas desavisados e animais selvagens pisoteavam os contextos funerários”, afirmou Pugliese à Universidade de Brasília.

A primeira prioridade, portanto, não era simplesmente descobrir novos objetos.

Também era necessário proteger aquilo que já estava parcialmente exposto.

Pesquisadores trabalham dentro da Gruta do Gentio II, em Unaí, durante a campanha arqueológica realizada em 2026. Crédito: Arquivo pessoal / Secom UnB.

Mais de 300 partes de sepultamentos foram recuperadas desde 2021

Entre as campanhas realizadas de 2021 a 2025, os pesquisadores recuperaram mais de 300 partes provenientes de sepultamentos humanos.

O material não permanece concentrado em apenas um laboratório.

As análises envolvem equipes da Universidade de Brasília, Universidade de São Paulo e Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

Parte das amostras também foi enviada ao Instituto Max Planck, na Alemanha, onde pesquisadores trabalham com DNA antigo e resíduos preservados em recipientes cerâmicos.

A variedade dos métodos atuais é uma das grandes diferenças em relação ao que existia quando as primeiras escavações ocorreram.

O projeto reúne estudos de osteologia, genética, isótopos estáveis, arqueobotânica, geoarqueologia, cerâmica, instrumentos de pedra e fitólitos, estruturas microscópicas de origem vegetal capazes de permanecer preservadas durante longos períodos.

Cada técnica responde a perguntas diferentes.

Quando combinados, esses resultados podem ajudar a reconstruir aspectos como origem, alimentação, mobilidade e ambiente das populações que utilizaram a gruta.

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DNA antigo pode revelar relações com povos indígenas atuais

Uma das linhas mais delicadas e importantes da pesquisa envolve justamente o DNA.

Os cientistas querem avaliar possíveis relações entre pessoas sepultadas na Gruta do Gentio II e povos indígenas Macro-Jê contemporâneos, com atenção para grupos como Xakriabá, Xavante e Xerente.

A hipótese ainda precisa ser testada.

Até o momento, não existe resultado público que permita afirmar que a continuidade genética foi comprovada.

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“Queremos entender quem eram essas pessoas, de onde vieram, como viviam, e o que elas têm a ver com os povos Macro-Jê contemporâneos, notadamente os Xakriabá, os Xavante e os Xerente”, explicou Pugliese.

Caso análises futuras encontrem evidências robustas de continuidade, o resultado poderá acrescentar uma nova dimensão ao conhecimento sobre a história indígena de longa duração no Brasil Central.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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