10 min de leitura
Brasileiros chegam à Suíça atraídos por segurança, salários e alto poder de compra, mas esbarram em custo de vida elevado, idioma e dificuldade para fazer amizades em cidades que estão entre as mais caras do mundo
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 31/08/2026 às 12:10
Curiosidades
Canal
2 pessoas reagiram a isso.
Prefira o CPG no Google
A Suíça atrai brasileiros por salários, segurança e poder de compra, mas relatos mostram custo de vida elevado, barreira do idioma e desafios para conseguir emprego.
Receber o equivalente a milhares de reais trabalhando na Suíça pode parecer suficiente para garantir uma vida confortável, mas a experiência de brasileiros que se mudaram para o país mostra uma conta mais complexa.
Em Genebra, uma jornada de 40 horas semanais pelo piso de 24,32 francos suíços por hora mencionado no levantamento chegaria a cerca de 4.864 francos mensais, ou aproximadamente R$ 27 mil. Ao mesmo tempo, aluguel, seguro de saúde e outras despesas estão entre os custos que pressionam o orçamento.
A relação entre renda e despesas ajuda a explicar por que brasileiros entrevistados pelo Terra, em reportagem publicada em maio de 2024, descrevem o país europeu de maneira ambivalente. Segurança, organização e poder de compra aparecem entre os principais atrativos, enquanto idioma, isolamento social, contratos de trabalho parciais e custo elevado da moradia estão entre os obstáculos encontrados depois da mudança.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Salário alto na Suíça não significa necessariamente contrato integral
Um dos cuidados ao comparar remunerações está na quantidade de horas efetivamente contratadas. Helena Spina, brasileira que vive em Romont, no Cantão de Friburgo, trabalha 24 horas por semana em uma rede de supermercados. Seu primeiro pagamento ficou em aproximadamente 1.800 francos suíços, equivalentes a cerca de R$ 9.995 na conversão apresentada.
Ela chama atenção justamente para uma leitura que pode distorcer a realidade de imigrantes. Uma remuneração mensal próxima de 4 mil francos depende de uma jornada integral, mas nem todas as empresas oferecem contratos de 100%.
Na experiência de Helena, muitos estrangeiros começam com cargas menores. Um contrato integral pode ficar entre 40 e 45 horas semanais, enquanto vagas de 50% reduzem proporcionalmente o salário recebido.
Assim, analisar oportunidades de trabalho na Suíça exige observar não apenas quanto determinada função paga por hora, mas quantas horas aparecem garantidas no contrato.
Casal paga mais de R$ 7 mil para morar em Romont
A renda em francos também precisa ser colocada diante das despesas locais. Helena e o marido, Guilherme Araújo, desembolsam 1.280 francos suíços por mês pelo apartamento, valor convertido na reportagem para cerca de R$ 7.108.
O casal considera o custo elevado, mas avalia que recebe em troca benefícios que têm peso importante em sua escolha de permanecer no país. Entre eles estão sensação de segurança, capacidade de viajar e maior poder de compra internacional.
Helena afirma que consegue caminhar sozinha sem sentir o mesmo medo que associava a outras experiências e diz confiar no funcionamento do sistema. Para ela e Guilherme, esses ganhos compensam parte do valor desembolsado mensalmente.
Assista o vídeo
Segurança é uma das razões que mantêm brasileiros no país
A percepção relatada pelo casal encontra apoio em um indicador apresentado na reportagem. Segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 78% das pessoas na Suíça afirmam sentir segurança ao caminhar sozinhas à noite.
Esse aspecto aparece repetidamente nos relatos de quem decidiu construir a vida no país. Cristiane Grab, pedagoga brasileira que vive lá desde 2006, também destaca organização e segurança entre as características às quais se acostumou.
Para ela, a quantidade de regras deixou de ser um problema depois de quase duas décadas. A brasileira diz sentir uma ligação tão forte com o lugar que brinca ter nascido na Suíça em outra vida. Mesmo assim, pretende deixar o país no futuro.
Pedagoga chegou como babá e levou anos para voltar à própria profissão
A história profissional de Cristiane mostra que formação superior no Brasil não significa entrada imediata na mesma área no exterior.
Aos 47 anos na época da reportagem, ela já acumulava uma trajetória marcada por diferentes atividades desde sua chegada em 2006. Seu primeiro trabalho foi como au pair, cuidando de crianças. Posteriormente, fez faxinas, trabalhou como garçonete em eventos de rua e tentou empreender.
Uma das experiências foi um buffet voltado à comida brasileira, que não prosperou. Depois, Cristiane abriu uma empresa ligada a produtos de limpeza e manteve o negócio durante alguns anos. Somente muito mais tarde conseguiu ocupar na Suíça uma função próxima da formação obtida no Brasil.
Primeiros anos foram dedicados ao idioma e à regularização
Cristiane é formada em pedagogia e atua com educação de crianças com necessidades especiais. Antes de conseguir chegar a esse tipo de trabalho, porém, precisou investir tempo em outra etapa.
Nos dois primeiros anos após a mudança, concentrou esforços em aprender o idioma e estabelecer sua situação no país. Foi também nesse período que se casou com Stephan Grab, suíço que conheceu apenas duas semanas depois de desembarcar. A mudança, curiosamente, não havia sido planejada de maneira convencional.
Cristiane conta que abriu um atlas, fechou os olhos e apontou um lugar. O dedo caiu sobre a Alemanha, mas a proximidade geográfica acabou levando-a para a Suíça. O que deveria durar alguns meses tornou-se uma permanência de quase duas décadas.
Trabalho na área de formação só apareceu muitos anos depois
A entrada definitiva na educação aconteceu cerca de cinco anos antes da reportagem. Cristiane conseguiu trabalhar em uma escola privada de Zurique voltada à área em que havia se formado e afirma ter sido a primeira brasileira a entrar na instituição.
Sua rotina profissional passou a ocorrer de terça a sexta-feira, com sete horas de trabalho por dia. A flexibilidade da equipe é uma das características que ela valoriza. A instituição também oferece um mês adicional de licença a cada cinco anos, benefício que Cristiane se preparava para utilizar.
Ela ainda relatou ter 12 semanas de férias anuais, concentradas principalmente no verão. O pagamento é calculado por hora, embora o valor recebido não tenha sido informado.
Conseguir a primeira vaga pode depender também de indicação
Helena encontrou um caminho diferente para entrar no mercado. Quando chegou à região francófona, ainda não dominava o francês. Para se preparar para uma entrevista, ela e Guilherme começaram a ensaiar conversas dentro de casa.
A tentativa deu resultado. Com indicação da irmã de Guilherme, Helena conseguiu emprego em uma rede de supermercados. Para ela, recomendações pessoais têm peso relevante porque funcionam como uma demonstração de confiança.
A brasileira iniciou a trajetória organizando caixas em pallets no depósito. Depois passou pela área de congelados, assumiu atividade na cozinha e posteriormente tornou-se operadora de logística. Guilherme também trabalha no setor de logística, mas em outra rede de supermercados.
O casal resume a porta de entrada de muitos imigrantes de maneira bem-humorada: os primeiros empregos tendem a exigir atividade física, longos períodos em pé e tarefas menos confortáveis.
Suíça combina renda elevada com duas das cidades mais caras do mundo
O contraste financeiro se torna ainda mais evidente quando Zurique e Genebra entram na comparação internacional. No índice da Economist Intelligence Unit, Zurique ocupava a liderança entre as cidades mais caras do mundo, enquanto Genebra aparecia na terceira colocação.
Isso ajuda a contextualizar números salariais que, convertidos diretamente para reais, parecem extraordinários. Em Genebra, a remuneração horária mencionada na reportagem era de 24,32 francos. Em uma simulação de 40 horas semanais, isso produziria cerca de 4.864 francos por mês.
O número supera R$ 27 mil na conversão apresentada, mas não pode ser analisado como se o trabalhador continuasse pagando despesas brasileiras. Alimentação, impostos, moradia e outros gastos acompanham o padrão suíço.
Mesmo padrão de São Paulo exigiria mais de R$ 42 mil em Zurique
Segundo a Numbeo, uma pessoa com renda mensal de aproximadamente R$ 14 mil em São Paulo precisaria receber cerca de 7.711 francos suíços em Zurique para preservar um padrão semelhante.
Na conversão apresentada, seriam aproximadamente R$ 42,8 mil. O aluguel aparecia como uma diferença especialmente expressiva: Zurique tinha valores 289% maiores que São Paulo, segundo o levantamento.
Em contrapartida, o poder de compra calculado para a cidade suíça superava o da capital paulista em 454,9%. Assim, a Suíça consegue reunir dois extremos aparentemente contraditórios: despesas muito altas e capacidade de consumo igualmente elevada.
Assista o vídeo
Fazer amizade pode ser mais difícil que conseguir trabalho
Nem todos os obstáculos são financeiros. Helena e Guilherme apontam as relações sociais como um dos aspectos mais difíceis de sua experiência. Segundo o casal, os suíços costumam ser educados, mas criar vínculos pessoais profundos exige muito mais tempo.
Para brasileiros acostumados a relações sociais mais próximas, a dificuldade em desenvolver amizades pode aumentar a sensação de distância da família e do país de origem.
Mesmo depois de conseguirem emprego, construírem uma rotina e se adaptarem às despesas, os dois continuam sentindo essa ausência de vínculos. Ainda assim, não pretendem ir embora.
Cristiane pretende trocar a Suíça por Portugal na aposentadoria
O mesmo não acontece com Cristiane. Depois de construir praticamente duas décadas de vida no país, ela e Stephan planejam uma mudança para Portugal.
O motivo principal está relacionado à fase posterior à vida profissional. Para Cristiane, o padrão suíço funciona melhor enquanto existe renda proveniente do trabalho.
Ela estima que o custo português possa ficar em torno de um quarto do desembolsado atualmente na Suíça, permitindo ao casal preservar um padrão considerado confortável com menos recursos. O clima também pesa na escolha: os dois gostariam de escapar do frio.
Seguro de saúde e cuidados na velhice podem pressionar o orçamento
A preocupação de Cristiane não é apenas uma percepção pessoal. Segundo a reportagem, um levantamento da Pro Senectute revel que mais de 200 mil aposentados vivem abaixo da linha da pobreza na Suíça.
O sistema previdenciário apresentado envolve três frentes: previdência social, fundos de pensão e previdência privada. Há ainda despesas elevadas ligadas à saúde e aos cuidados de longa duração.
Cristiane relata um exemplo dentro da própria família. Seus sogros vivem em uma casa de repouso cuja mensalidade chega a 27 mil francos suíços, aproximadamente R$ 150 mil na conversão apresentada. Esse valor ajuda a explicar por que o casal começou a avaliar onde viver depois da aposentadoria mesmo estando adaptado ao país.
Assista o vídeo
Mais de 64 mil brasileiros vivem na Suíça
Cristiane, Helena e Guilherme fazem parte de uma comunidade que já alcançava aproximadamente 64 mil brasileiros, segundo os dados do Ministério das Relações Exteriores. A população total do país é de cerca de 8,5 milhões de habitantes.
As experiências dos três mostram, porém, que não existe uma única trajetória para brasileiros que chegam à Suíça. Cristiane desembarcou como babá, tentou diferentes trabalhos e empreendimentos e demorou anos até exercer a profissão ligada à pedagogia.
Helena entrou em uma rede de supermercados sem dominar completamente o francês e passou por diferentes funções até chegar à logística. Guilherme foi originalmente ao país para expandir um negócio familiar ligado à área hospitalar, que posteriormente fechou durante a pandemia, e também acabou construindo outra trajetória profissional.
Salário é apenas uma parte da decisão de trabalhar na Suíça
Os números podem ser o primeiro elemento a chamar atenção. Um salário convertido para reais chega facilmente a valores muito superiores aos praticados em muitas ocupações brasileiras. Mas os relatos mostram que a pergunta mais importante não é simplesmente quanto se ganha na Suíça.
É preciso saber quantas horas existem no contrato, quanto custa morar na cidade escolhida, quais idiomas serão exigidos, como a formação brasileira poderá ser aproveitada e quanto tempo o imigrante consegue permanecer até conquistar uma posição profissional melhor.
No caso de Helena e Guilherme, o custo alto é compensado por segurança, confiança no sistema e poder de compra. Para Cristiane, o país ofereceu uma vida organizada durante décadas, mas deixou de parecer a melhor alternativa para a aposentadoria.
A Suíça, portanto, pode entregar salários que impressionam quando convertidos para reais, mas a experiência de quem vive no país mostra uma realidade muito mais ampla: para construir uma vida ali, é necessário colocar na mesma conta renda, moradia, carga de trabalho, idioma, relações pessoais e o custo de envelhecer em uma das economias mais caras do mundo.
Fonte
Terra
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

