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Brasileiros com diploma e carreira feita no Brasil largam tudo para viver de faxina em Londres, como a engenheira civil de 28 anos que trocou João Pessoa pelos escritórios que limpa de madrugada, num movimento que já ocupa 32% dos imigrantes brasileiros da cidade e que muitos dizem não trocar mais pelo crachá antigo

Brasileiros com diploma e carreira feita no Brasil largam tudo para viver de faxina em Londres, como a engenheira civil de 28 anos que trocou João Pessoa pelos escritórios que limpa de madrugada, num movimento que já ocupa 32% dos imigrantes brasileiros da cidade e que muitos dizem não trocar mais pelo crachá antigo

7 min de leitura

Brasileiros com diploma e carreira feita no Brasil largam tudo para viver de faxina em Londres, como a engenheira civil de 28 anos que trocou João Pessoa pelos escritórios que limpa de madrugada, num movimento que já ocupa 32% dos imigrantes brasileiros da cidade e que muitos dizem não trocar mais pelo crachá antigo

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 28/08/2026 às 09:21

Atualizado em 28/08/2026 às 09:22

Economia

Canal

Brasileiros formados deixam carreiras no país e trabalham com limpeza em Londres, onde enfrentam dificuldades para validar diplomas e regularizar a situação migratória.

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Lívia, engenheira civil de 28 anos, e Wagner, oceanógrafo da mesma idade, deixaram o Brasil e passaram a trabalhar com limpeza em Londres. Sem documentação e com diplomas difíceis de validar, enfrentam jornadas pesadas, baixos salários e insegurança, cenário que pesquisadores associam à sobrequalificação e à precarização do trabalho migrante.

A engenheira civil Lívia, de 28 anos, deixou João Pessoa, na Paraíba, e se mudou para Londres, onde passou a trabalhar como faxineira depois de enfrentar dificuldades para validar o diploma brasileiro. O oceanógrafo Wagner, também de 28 anos, saiu de Porto Alegre e vive situação semelhante, trabalhando atualmente em um hotel londrino.

Segundo reportagem publicada pelo O Sul em 5 de fevereiro de 2026, com informações da BBC News Brasil, os dois fazem parte de um grupo de brasileiros qualificados que encontram na limpeza e em outros empregos informais uma forma de se sustentar no Reino Unido. Pesquisadoras ouvidas pela reportagem relacionam essas trajetórias às barreiras migratórias, linguísticas e de reconhecimento profissional.

Lívia deixou João Pessoa aos 27 anos em busca de um recomeço

Brasileiros formados deixam carreiras no país e trabalham com limpeza em Londres, onde enfrentam dificuldades para validar diplomas e regularizar a situação migratória.

Lívia chegou a Londres havia cerca de um ano quando a reportagem foi publicada.

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A engenheira civil acreditava que a mudança seria um ponto de virada em sua vida, mas encontrou dificuldades para aproveitar profissionalmente a formação obtida no Brasil.

Segundo ela, o processo de validação do diploma brasileiro é “caro e demorado”.

Engenheira passou a trabalhar irregularmente e sem contrato formal

Desde que chegou ao Reino Unido, Lívia passou a exercer atividades sem o visto apropriado e sem contratos formais.

A brasileira afirma que tenta conseguir autorização para morar e trabalhar em algum país da União Europeia, onde acredita que poderá obter aprovação com maior facilidade.

O Reino Unido deixou oficialmente o bloco europeu em 2020.

Primeiro emprego de Lívia em Londres foi como faxineira

A limpeza foi uma das alternativas encontradas pela engenheira para conseguir renda no novo país.

Segundo os entrevistados pela reportagem, trabalhar como cleaner, termo inglês usado para profissionais da limpeza, é comum entre brasileiros que vivem no Reino Unido.

Nunca tinha feito nada manual antes. Foi difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero estabilidade”, contou Lívia.

Limpeza de escola pagava 12,20 libras por hora

Lívia também conseguiu trabalho na limpeza da área de uma piscina escolar.

As tarefas envolviam cuidar dos banheiros e áreas comuns, secar pisos e manter o espaço organizado.

Por esse trabalho, ela recebia 12,20 libras por hora, equivalentes a R$ 88 na conversão apresentada pela reportagem.

Trabalho era cansativo, mas menos pesado que limpar casas

A engenheira comparou a experiência na escola com a rotina de limpeza em residências.

Era muito cansativo, muitas horas de serviço, mas fisicamente mais tranquilo do que a limpeza de casas”, afirmou.

A mudança de profissão colocou Lívia em uma realidade distante da carreira para a qual havia se formado no Brasil, num movimento que já ocupa 32% dos imigrantes brasileiros da cidade segundo a reportagem de O Sul.

Wagner deixou Porto Alegre após trajetória acadêmica em oceanografia

O oceanógrafo Wagner, de 28 anos, havia deixado Porto Alegre três anos antes da publicação da reportagem.

No Brasil, ele participou de várias atividades acadêmicas relacionadas à própria formação, mas afirma que a carreira não recebe a valorização que esperava.

Vim para Londres para conseguir trabalhar, mesmo sem documentação, e pela qualidade de vida”, explicou.

Hotel paga cerca de 2 mil libras por mês a Wagner

Wagner trabalhava em um hotel de Londres por intermédio de uma agência.

A remuneração mensal era de aproximadamente 2 mil libras, equivalentes a R$ 14,4 mil segundo a conversão publicada.

Apesar do valor, ele afirmou considerar o salário baixo diante das exigências da função.

Escala 6×1 deixa dores na lombar e nas mãos

A jornada de Wagner envolve uma rotina física intensa.

Considero o salário baixo para o que é exigido. É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina intensa, escala 6×1 e cansaço constante”, relatou.

O caso mostra como um profissional com formação universitária pode acabar ocupando uma função distante da área em que estudou.

Pesquisadora chama fenômeno de “paradoxo da sobrequalificação migrante”

As trajetórias de Lívia e Wagner são associadas pela pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, ao chamado “paradoxo da sobrequalificação migrante”.

Marcel aborda o tema em sua tese de doutorado Navigating Precarity: The Lives of London’s Migrant Cleaners, traduzida como “Navegando a precariedade: as vidas dos faxineiros imigrantes de Londres”.

Segundo a pesquisadora, mesmo trabalhadores com diploma universitário podem enfrentar baixos salários, jornadas longas e insegurança semelhantes às vividas por outros imigrantes empregados na limpeza.

Diploma estrangeiro, imigração e idioma limitam oportunidades

Claire Marcel explica que as qualificações conquistadas em outros países muitas vezes não são reconhecidas no Reino Unido.

O status migratório também restringe as possibilidades de emprego, enquanto a barreira do idioma pode aumentar as dificuldades.

Esses fatores ajudam a entender por que profissionais qualificados acabam trabalhando em funções abaixo de sua formação acadêmica.

Reino Unido recebe brasileiros qualificados desde os anos 1990

A professora e pesquisadora Tânia Tonhati, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, afirma que o perfil não é recente.

Desde os anos 1990, o Reino Unido sempre recebeu imigrantes brasileiros com ensino superior e alta qualificação. O que mudou agora é o contexto”, explicou.

Tonhati já realizou pesquisas sobre imigração e sobre a atuação de brasileiros no exterior.

Brexit e pandemia deixaram processo migratório mais restrito e caro

A pesquisadora relaciona parte das dificuldades atuais ao período posterior à saída britânica da União Europeia e à pandemia.

Depois do Brexit e da pandemia, o processo migratório ficou mais restrito e caro. Muitos brasileiros que antes circulavam com passaporte europeu perderam essa facilidade, tornando o recomeço mais precário e, em muitos casos, mais solitário”, afirmou.

A mudança atingiu principalmente quem dependia da facilidade de circulação entre países europeus.

Jovens aceitam empregos temporários esperando mudar depois

Segundo Tânia Tonhati, um perfil comum entre os brasileiros no Reino Unido é o de jovens com “capital econômico, social e cultural” que aceitam inicialmente empregos temporários.

Essas ocupações podem envolver condições precárias, enquanto os imigrantes mantêm a expectativa de conseguir posteriormente uma oportunidade mais próxima de sua formação.

A pesquisadora afirma que esse movimento não ocorre apenas com brasileiros.

Especialista diz que “rebaixamento” atinge imigrantes de várias nacionalidades

Tonhati descreve como “rebaixamento” a situação em que pessoas altamente qualificadas acabam exercendo funções abaixo de sua formação.

Segundo ela, “quase todos os imigrantes, não só brasileiros” podem passar por esse processo.

Não se trata de falta de mérito individual, mas de estruturas que desvalorizam o trabalho migrante”, concluiu.

Reino Unido concentra cerca de 230 mil brasileiros

Dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil citados pela reportagem indicam que cerca de 230 mil brasileiros vivem atualmente no Reino Unido.

A comunidade reúne diferentes perfis migratórios, incluindo profissionais com ensino superior que encontram obstáculos para ingressar nas áreas em que se formaram.

A informalidade também aumenta a exposição desses trabalhadores à fiscalização migratória.

Fiscalização do trabalho irregular cresceu 48%

O governo britânico intensificou as operações contra o trabalho irregular.

Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou 10.031 ações de fiscalização, crescimento de 48% em comparação com o período anterior.

Os dados divulgados não especificam se as operações envolveram trabalhadores britânicos, imigrantes regulares ou pessoas em situação migratória irregular.

Prisões por suspeita de trabalho ilegal aumentaram 51%

No mesmo período, as autoridades registraram 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal.

O número representa aumento de 51% na comparação anual.

Londres concentrou 1.786 prisões, enquanto País de Gales e Oeste da Inglaterra tiveram 1.196 e Midlands registrou 1.151.

Lívia busca regularização enquanto Wagner segue trabalhando em hotel

Lívia continuava tentando obter autorização para morar e trabalhar legalmente em algum país da União Europeia, enquanto Wagner permanecia empregado em um hotel de Londres por meio de uma agência.

As duas trajetórias mostram profissionais brasileiros com formação universitária ocupando postos fora das respectivas áreas, em um cenário marcado por dificuldade de reconhecimento dos diplomas, restrições migratórias e trabalho fisicamente exigente.

Para você, um diploma obtido no Brasil deveria ter caminhos mais simples de reconhecimento para profissionais que se mudam para outros países? Deixe sua opinião nos comentários.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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