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Brasileiros começam a contratar “doulas da morte” para acompanhar parentes no fim da vida, organizar últimos desejos, ajudar em decisões delicadas e até orientar documentos, velórios e funerais em uma profissão que ainda busca regulamentação

Brasileiros começam a contratar “doulas da morte” para acompanhar parentes no fim da vida, organizar últimos desejos, ajudar em decisões delicadas e até orientar documentos, velórios e funerais em uma profissão que ainda busca regulamentação

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Brasileiros começam a contratar “doulas da morte” para acompanhar parentes no fim da vida, organizar últimos desejos, ajudar em decisões delicadas e até orientar documentos, velórios e funerais em uma profissão que ainda busca regulamentação

Escrito por Noel Budeguer

Publicado em 29/08/2026 às 21:06

Atualizado em 29/08/2026 às 21:07

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Atuação inclui companhia no fim da vida, apoio emocional, orientação às famílias e ajuda prática com velório, documentos e últimos desejos, enquanto profissão ainda busca regulamentação no país

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Atuação inclui companhia no fim da vida, apoio emocional, orientação às famílias e ajuda prática com velório, documentos e últimos desejos, enquanto profissão ainda busca regulamentação no país

Enquanto doulas são normalmente associadas à chegada de uma criança ao mundo, uma atividade situada exatamente no outro extremo da vida começa a ganhar visibilidade no Brasil. São as chamadas doulas da morte, ou doulas do fim da vida, profissionais que acompanham pessoas durante seus últimos dias e ajudam famílias a atravessar um dos momentos mais delicados de suas vidas.

O trabalho pode envolver desde permanecer ao lado de uma pessoa em fase terminal até conversar sobre medos, desejos, despedidas e decisões que muitas famílias simplesmente não sabem como enfrentar. Em alguns casos, a atuação continua depois da morte, com orientações sobre velório, documentação, funeral e até a roupa escolhida para a despedida.

A atividade ainda não é regulamentada oficialmente como profissão no Brasil, mas já existem cursos de formação, profissionais atuando em diferentes estados e até um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional para estabelecer regras específicas para o setor.

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Trabalho começa antes da morte e pode continuar depois dela

Paola Mercer Guimarães aparece ao lado de um paciente durante sua atuação ligada aos cuidados no fim da vida, área em que passou a trabalhar após anos de experiência como enfermeira.

A doula do fim da vida não substitui médicos, enfermeiros ou psicólogos. Sua função é oferecer suporte não clínico a pessoas que enfrentam doenças graves, processos de terminalidade ou situações em que a proximidade da morte já faz parte da realidade da família.

Na prática, isso pode significar passar horas conversando com o paciente, ouvir preocupações que ele não consegue compartilhar com parentes e ajudá-lo a registrar seus últimos desejos. Também pode envolver a organização de cartas, mensagens, fotografias, objetos ou lembranças que a pessoa queira deixar para filhos, netos ou amigos.

Quando a morte se aproxima, a profissional também pode ajudar familiares a compreender mudanças que costumam ocorrer nos últimos momentos, contribuindo para reduzir ansiedade e evitar que decisões práticas precisem ser tomadas completamente no improviso.

Depois do falecimento, algumas doulas continuam acompanhando a família durante as primeiras horas do luto, ajudando a organizar rituais de despedida, conversar sobre velório, sepultamento e questões burocráticas.

Até roupa para o velório e documentos podem entrar na conversa

Relatos de profissionais que atuam no Brasil mostram como o trabalho pode chegar a detalhes que raramente são discutidos enquanto uma pessoa ainda está viva.

A enfermeira Paola Mercer Guimarães, que também passou a atuar como doula da morte, contou ao UOL que o acompanhamento pode incluir conversas sobre funerária, documentos necessários e até sobre qual roupa será utilizada pela pessoa depois do falecimento.

São questões aparentemente simples, mas que podem se transformar em decisões difíceis quando uma família está enfrentando choque emocional, cansaço ou conflitos internos.

Outra função mencionada por profissionais da área é ajudar pacientes a conversar sobre Diretivas Antecipadas de Vontade, documento utilizado para registrar preferências relacionadas aos cuidados que a pessoa deseja ou não receber caso posteriormente não consiga expressar suas próprias decisões.

Profissão tem limites: doula não pode administrar medicamentos

Apesar da proximidade com pacientes em cuidados paliativos, a doula do fim da vida não exerce funções médicas.

Ela não deve prescrever ou administrar medicamentos, executar procedimentos de enfermagem ou interferir em decisões técnicas tomadas pelos profissionais responsáveis pelo tratamento.

Essa separação aparece inclusive no PL 1845/2026, apresentado na Câmara dos Deputados para regulamentar a atividade. O texto define a doula do fim da vida como responsável por suporte físico, emocional, espiritual e informativo de caráter não médico e não clínico.

A proposta também prevê que essas profissionais possam ajudar na organização de legados, rituais de despedida, planejamento do final da vida e comunicação entre pacientes, familiares e equipes multidisciplinares.

Letícia Côrrea aparece ao lado da mãe durante o período de tratamento contra o câncer, experiência pessoal que mais tarde ajudou a despertar seu interesse pelo trabalho como doula da morte e pelo acompanhamento de famílias no fim da vida.

Projeto quer reconhecer oficialmente profissão no Brasil

O PL 1845/2026 foi apresentado em abril pelo deputado Aureo Ribeiro e representa uma tentativa de criar regras nacionais para uma atividade que já ocorre na prática.

Um dos pontos mais chamativos do projeto é a possibilidade de garantir a presença da doula em hospitais, instituições para idosos e outras unidades de atendimento quando houver pedido do próprio paciente ou de seu representante legal.

O texto prevê ainda que a presença da profissional não substituiria o acompanhante tradicional e que a instituição não poderia cobrar valores adicionais por isso.

Por enquanto, essas regras ainda não estão valendo. O projeto segue em tramitação na Câmara dos Deputados.

Cursos já formam centenas de profissionais

Mesmo sem regulamentação específica, a atividade já possui estrutura de formação no país.

A organização brasileira AmorTser afirma trabalhar com formação de doulas da morte desde 2018 e declara já ter preparado mais de 450 profissionais, distribuídos por pelo menos 15 estados e também por outros países da América Latina.

Em Porto Alegre, a Faculdade Factum também lançou uma formação acadêmica em parceria com a instituição. O programa possui 192 horas e aborda temas como tanatologia, cuidados paliativos, envelhecimento, terminalidade, luto, comunicação, ciências mortuárias e organização de rituais de despedida.

O movimento ocorre justamente quando o Brasil amplia sua discussão sobre cuidados paliativos. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que aproximadamente 625 mil pessoas no país necessitam desse tipo de assistência.

Nesse cenário, uma ocupação que durante anos permaneceu praticamente desconhecida começa a aparecer com mais frequência em cursos, pesquisas, hospitais e no debate público.

Entre o nascimento e a morte, duas doulas agora ocupam extremos muito diferentes da mesma experiência humana: uma ajuda famílias a receber uma nova vida; a outra tenta tornar a despedida menos solitária, menos improvisada e, principalmente, mais próxima da vontade de quem está partindo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

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