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Cada grau a mais no verão faz as geleiras do Alasca derreterem por três semanas extras, revela um estudo que acompanhou mais de 3 mil geleiras por radar de satélite e acendeu o alerta sobre a velocidade do degelo na região
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 09/08/2026 às 00:03
Ciência e Tecnologia
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Pesquisa publicada na npj Climate and Atmospheric Science usou radar dos satélites Sentinel-1 para monitorar geleiras do Alasca entre 2016 e 2024 e revelou alta sensibilidade do gelo ao aumento da temperatura no verão.
As geleiras do Alasca estão reagindo ao aquecimento do planeta de forma rápida e mensurável. Um estudo publicado na revista npj Climate and Atmospheric Science analisou 3.023 geleiras da região e concluiu que cada aumento de 1 °C na temperatura média do verão pode acrescentar até três semanas ao período de derretimento.
A pesquisa usou dados de radar dos satélites europeus Sentinel-1 para acompanhar a evolução do degelo entre meados de 2016 e 2024. O resultado reforça um alerta central da ciência climática: variações aparentemente pequenas de temperatura podem provocar mudanças grandes no comportamento das massas de gelo.
Geleiras do Alasca mostram alta sensibilidade ao aquecimento do verão
O ponto central do estudo é a forte relação entre temperatura e duração do degelo. Segundo os pesquisadores, os dados de radar mostram que o aumento de 1 °C, equivalente a 1,8 °F, está associado a até três semanas adicionais de derretimento nas geleiras analisadas.
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Essa constatação é importante porque indica que o sistema glacial do Alasca responde de forma intensa a pequenas mudanças térmicas. Em vez de depender apenas de eventos extremos isolados, o derretimento também avança quando a temperatura média do verão sobe de forma gradual.
Quanto mais tempo uma geleira permanece em processo de degelo, maior tende a ser a perda acumulada de gelo ao longo da estação. Por isso, a duração da temporada de derretimento é um dado essencial para entender o balanço de massa das geleiras e seus impactos futuros.
Radar Sentinel-1 permitiu monitorar 99% das maiores geleiras do Alasca
Para chegar a esses números, a equipe usou dados de radar de abertura sintética, conhecido pela sigla SAR, obtidos pelos satélites Sentinel-1. Essa tecnologia envia pulsos de micro-ondas em direção à superfície e registra o sinal de retorno para mapear as condições do gelo.
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A principal vantagem do radar é operar mesmo com nuvens, pouca luz ou escuridão. Isso é decisivo no Alasca, onde o monitoramento óptico tradicional pode ser prejudicado por cobertura de nuvens, sombras, mudanças de iluminação e neve recente sobre a superfície.
Segundo o estudo, os pesquisadores mapearam 99% das geleiras do Alasca com mais de 2 km², o que representa 85% da área glaciada total da região. O conjunto de dados permitiu acompanhar a progressão sazonal do derretimento e da linha da neve com alta frequência.
O que são dias de derretimento e por que eles revelam a perda de gelo
Uma das medidas centrais da pesquisa é o conceito de dias de derretimento glacial. Na prática, um dia de derretimento pode representar 24 horas em que toda a geleira está derretendo ou a soma de períodos em que partes diferentes da geleira derretem até equivaler à área total.
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Esse método permite comparar geleiras de tamanhos e altitudes diferentes. Ao transformar o derretimento em uma métrica acumulada, os cientistas conseguem medir não apenas se a geleira derreteu, mas por quanto tempo e em que extensão esse processo ocorreu.
Os dados mostraram que os dias de derretimento estão fortemente correlacionados com as temperaturas de verão. Isso ajuda a explicar por que um pequeno aumento térmico pode ampliar de forma relevante a temporada de degelo em diferentes sub-regiões do Alasca.
Linha da neve funciona como fronteira entre acúmulo e perda de massa
Outro indicador acompanhado pelo radar foi a linha da neve, que separa duas áreas da geleira. Acima dela fica a zona de acumulação, onde a neve se deposita e contribui para a massa do gelo; abaixo dela fica a zona de ablação, onde neve e gelo são removidos pelo derretimento.
Acompanhar essa linha ao longo da estação é fundamental para estimar o equilíbrio de uma geleira. Quando a linha da neve sobe, uma parte maior da superfície glacial fica exposta, reduzindo a proteção natural da cobertura nevada e aumentando a vulnerabilidade ao calor.
O estudo afirma que as medições feitas por SAR tiveram forte concordância com bases ópticas, com r² de até 0,94. A diferença é que o radar consegue manter observações regulares durante a estação de ablação, sem depender das mesmas condições ideais exigidas por imagens ópticas.
Onda de calor de 2019 expôs até 28% mais área de gelo no Alasca
Além do aquecimento médio do verão, a pesquisa destacou o impacto dos eventos extremos. A onda de calor registrada no Alasca entre 23 de junho e 10 de julho de 2019 elevou a linha da neve em até 105 metros em sub-regiões glaciadas.
De acordo com o estudo, esse episódio expôs até 28% mais área de gelo em comparação com anos típicos. Em condições normais, a linha da neve não alcançaria aquele nível até cerca de dois meses depois, o que mostra a velocidade da resposta das geleiras a picos de calor.
A exposição antecipada de gelo e firn reduz o albedo, ou seja, a capacidade da superfície de refletir radiação solar. Com menos neve clara cobrindo a geleira, mais energia é absorvida, o que favorece o derretimento e pode ampliar a perda de massa.
Geleiras costeiras e continentais respondem de formas diferentes
A pesquisa também mostrou que as geleiras do Alasca não se comportam todas da mesma forma. Nas áreas costeiras, especialmente em regiões como St. Elias, Wrangell e Western Chugach, as geleiras tendem a ter mais dias de derretimento do que as localizadas no lado continental das montanhas.
Segundo os autores, geleiras no lado costeiro de algumas cadeias registram cerca de 20 dias de derretimento a mais e uma temporada de degelo até três semanas mais longa em relação às contrapartes continentais. Essa diferença está ligada ao clima mais marítimo, à temperatura, à precipitação e à orientação solar.
Mesmo assim, o estudo indica que a linha da neve pode se comportar de maneira mais parecida entre certos grupos costeiros e continentais. Isso sugere uma dinâmica complexa entre derretimento e acúmulo de neve, reforçando a necessidade de modelos climáticos e glaciológicos mais detalhados.
Por que as geleiras do Alasca importam para o nível do mar
As geleiras de montanha têm papel relevante no aumento do nível do mar, e o Alasca aparece como uma das regiões mais importantes nesse processo.
O artigo publicado na npj Climate and Atmospheric Science afirma que as geleiras do Alasca perderam mais massa entre 2000 e 2023 do que qualquer outra região de geleiras de montanha.
O estudo também informa que o Alasca é projetado como a região de geleiras de montanha com maior contribuição para a elevação do nível do mar até 2100. Isso torna o monitoramento local uma peça importante para estimativas globais sobre mudanças climáticas e impactos costeiros.
Como essas geleiras despejam água no oceano ao perder massa, entender a duração, a intensidade e a distribuição do degelo ajuda a melhorar projeções sobre o futuro das zonas costeiras. Quanto mais precisos forem os dados, melhores tendem a ser os modelos usados para antecipar riscos.
Método de radar pode ser aplicado a geleiras em outras regiões do planeta
Embora a pesquisa tenha focado o Alasca, os autores afirmam que o método automatizado e de código aberto pode ser aplicado a outras regiões.
Isso amplia o valor da técnica para o monitoramento de geleiras em áreas montanhosas onde nuvens, sombra e baixa luminosidade dificultam observações tradicionais.
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A possibilidade de acompanhar o derretimento em escala regional, com dados repetidos ao longo da estação, representa um avanço para a ciência climática.
Em vez de depender apenas de registros pontuais, os pesquisadores passam a observar o processo de degelo em movimento.
No fim, o recado do gelo é direto: pequenas elevações de temperatura podem produzir efeitos grandes, cumulativos e difíceis de ignorar. No Alasca, 1 °C a mais no verão já é suficiente para prolongar o derretimento em até três semanas, expondo a fragilidade de um sistema que responde rapidamente ao aquecimento global.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

