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Café é consumido há 1.500 anos, move uma indústria bilionária e age diretamente no cérebro: entenda o que acontece no corpo após uma xícara
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 11/08/2026 às 08:51
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Da origem da Coffea arabica na Etiópia ao efeito da cafeína no cérebro, a história do café atravessa transformações sociais, econômicas e científicas.
Poucas bebidas atravessaram tantos séculos e ocuparam um espaço tão relevante na rotina das sociedades quanto o café. Consumido há pelo menos 1.500 anos, ele saiu de uma planta originária da Etiópia, alcançou o Oriente Médio, conquistou a Europa e acabou incorporado aos hábitos cotidianos de bilhões de pessoas.
A dimensão desse consumo ajuda a explicar sua importância. Atualmente, cerca de 2 bilhões de xícaras de café são consumidas todos os dias, enquanto a indústria movimenta aproximadamente US$ 90 bilhões por ano. No centro desse hábito está a cafeína, considerada a substância psicoativa mais consumida do planeta.
Café nasceu na Etiópia e chegou ao Iêmen antes de conquistar o Império Otomano e a Europa
A história começa com a Coffea arabica, planta originária da Etiópia. Uma antiga lenda atribui sua descoberta a Kaldi, pastor do século IX que teria percebido suas cabras mais energéticas depois que os animais comeram frutos do cafeeiro.
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Os registros históricos colocam o Iêmen em uma posição decisiva na transformação desses frutos em bebida. Sufis passaram a torrar as sementes e preparar café, prática que ganhou força no século XV e posteriormente avançou por diferentes territórios do Oriente Médio.
As primeiras cafeterias apareceram no Império Otomano durante esse processo de expansão. Nos séculos seguintes, a bebida chegou à Europa e os estabelecimentos dedicados ao café passaram a reunir comerciantes, intelectuais e outras pessoas interessadas em discutir negócios, política e novas ideias.
Cafeterias europeias se tornaram espaços de discussão durante a ascensão das ideias iluministas
O crescimento das cafeterias europeias coincidiu com um período de grandes mudanças intelectuais. No século XVIII, filósofos como Immanuel Kant e Voltaire questionavam interpretações tradicionais do mundo e defendiam maior espaço para razão e ciência na compreensão da realidade.
A relação entre esses estabelecimentos e o debate público chegou a ser analisada pelo filósofo alemão Jürgen Habermas. As cafeterias passaram a representar ambientes nos quais pessoas podiam trocar informações, discutir política e acompanhar novas correntes de pensamento.
Esse ambiente acompanhou a expansão do Iluminismo, movimento que influenciou mudanças políticas, crescimento das ideias democráticas e avanços científicos. O café, portanto, ocupou um espaço particular nessa transformação ao fazer parte da rotina de muitos desses ambientes de discussão.
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Expansão do café também esteve diretamente ligada à escravidão e às grandes plantações
A trajetória mundial da bebida possui, contudo, uma dimensão marcada pela exploração de pessoas escravizadas. Os franceses levaram africanos escravizados para trabalhar nas plantações do Haiti, enquanto a produção também avançava por outras regiões.
No início do século XIX, o Brasil produzia cerca de um terço do café mundial com ampla utilização de mão de obra de africanos escravizados. A expansão da bebida esteve, dessa forma, profundamente relacionada aos sistemas econômicos e sociais daquele período.
Durante a Revolução Industrial, o café ganhou outra função no cotidiano do trabalho. Fábricas passaram a oferecer a bebida aos funcionários e, posteriormente, permitiram as conhecidas pausas para o café, incorporando definitivamente o produto à rotina laboral.
Cafeína bloqueia receptores de adenosina no cérebro e ajuda a reduzir a sensação de sonolência
O efeito estimulante que ajudou a tornar o café tão popular está relacionado principalmente à cafeína. Depois de chegar ao sistema digestivo, a substância é absorvida pelo intestino, alcança a corrente sanguínea e chega ao sistema nervoso.
Sua estrutura química apresenta semelhanças com a adenosina, substância produzida pelo próprio organismo. A adenosina atua em mecanismos associados à redução da atividade do sistema nervoso, ao relaxamento e à sensação de sono.
A cafeína consegue se ligar aos receptores destinados à adenosina e bloqueá-los temporariamente. O resultado é o efeito contrário: maior estado de alerta, estímulo cerebral e redução da sensação de fadiga, além de possíveis efeitos sobre concentração, humor e desempenho físico.
Cafeína pode permanecer durante horas no organismo e não está presente apenas no café
A ação da cafeína não desaparece imediatamente depois que uma xícara é consumida. Seus efeitos podem surgir em pouco tempo, enquanto o organismo pode levar entre cinco e dez horas para remover a substância, com efeitos residuais permanecendo por ainda mais tempo.
O café também não é sua única fonte. Erva-mate, chá verde, guaraná e cacau possuem cafeína naturalmente, enquanto a substância pode ser adicionada a energéticos, refrigerantes e medicamentos.
A concentração muda conforme o produto. Um espresso pode fornecer aproximadamente 64 miligramas de cafeína, enquanto uma porção de chá verde contém cerca de 28 miligramas, o que torna a quantidade consumida tão importante quanto a própria bebida escolhida.
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Caio Aviz
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Consumo de até 400 miligramas de cafeína por dia é referência para adultos saudáveis
A moderação ocupa papel central quando o assunto são os efeitos da cafeína. Para adultos saudáveis, a referência máxima apresentada é de 400 miligramas por dia, quantidade equivalente aproximadamente a quatro ou cinco xícaras de café, dependendo do preparo.
O excesso pode provocar insônia, irritabilidade, ansiedade, taquicardia, desconforto estomacal, náusea e dor de cabeça. Quantidades muito maiores também aumentam os riscos. Cerca de 1.200 miligramas consumidos rapidamente podem provocar efeitos tóxicos, incluindo convulsões.
A resposta individual também varia consideravelmente. Algumas pessoas possuem maior sensibilidade genética à cafeína, enquanto gestantes podem apresentar alterações nessa sensibilidade. Para crianças e adolescentes, o consumo de café é desencorajado pelas autoridades.
Café contém ácido clorogênico e seus componentes vão muito além do efeito estimulante da cafeína
A composição do café ajuda a explicar por que seus efeitos não estão restritos ao estímulo provocado pela cafeína. Entre as outras substâncias encontradas na bebida está o ácido clorogênico, composto conhecido por sua ação antioxidante.
O consumo moderado também aparece associado a menor risco de diabetes, doenças cardiovasculares e Parkinson. Esses possíveis benefícios não dependem exclusivamente da cafeína, justamente porque o café reúne diferentes compostos biologicamente ativos.
A história que começou com uma planta originária da Etiópia atravessou o Império Otomano, as cafeterias europeias, o Iluminismo, a escravidão e a Revolução Industrial até chegar ao cotidiano atual. Cerca de 1.500 anos depois, entender o café significa olhar tanto para seu passado quanto para aquilo que a cafeína provoca no organismo a cada nova xícara.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

