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Cansadas dos impostos altos no Brasil, gigantes como Lupo e JBS estão atravessando a fronteira para produzir no Paraguai, onde a alíquota máxima de imposto de renda é de apenas 10% e a energia industrial custa cerca de um terço do preço daqui, enquanto a Havan estuda abrir loja por lá

Cansadas dos impostos altos no Brasil, gigantes como Lupo e JBS estão atravessando a fronteira para produzir no Paraguai, onde a alíquota máxima de imposto de renda é de apenas 10% e a energia industrial custa cerca de um terço do preço daqui, enquanto a Havan estuda abrir loja por lá

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Cansadas dos impostos altos no Brasil, gigantes como Lupo e JBS estão atravessando a fronteira para produzir no Paraguai, onde a alíquota máxima de imposto de renda é de apenas 10% e a energia industrial custa cerca de um terço do preço daqui, enquanto a Havan estuda abrir loja por lá

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 01/08/2026 às 21:45

Curiosidades

Empresas brasileiras cruzam a fronteira rumo ao Paraguai, onde o imposto de renda tem teto de 10% e a energia industrial custa cerca de um terço do preço.

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Das 339 empresas que operavam sob o regime de maquila no Paraguai até 31 de dezembro de 2025, 231 eram brasileiras. A tarifa industrial de energia sai por US$ 41 por MWh, contra US$ 113 no Brasil, e os encargos trabalhistas acrescentam de 25% a 35% ao salário.

O movimento de empresas brasileiras que cruzam a fronteira rumo ao Paraguai deixou de ser exceção industrial e chegou ao varejo, conforme reportagem publicada pela Gazeta do Povo. Fabricantes têxteis como Lupo, Döhler e Karsten, e de calçados como Kidy e Dass, iniciaram operações no país vizinho a partir de 2025. Em outubro daquele ano, a JBS anunciou o retorno ao território paraguaio depois de oito anos, com plano de investir US$ 70 milhões em dois anos.

A novidade veio do comércio. A rede Havan anunciou que estuda abrir sua primeira loja fora do Brasil na região da Grande Assunção, decisão comunicada por Luciano Hang após encontro com o presidente paraguaio Santiago Peña, no início de julho de 2026. O empresário citou impostos baixos, liberdade econômica, contas equilibradas e estímulo ao empreendedorismo como fatores que atraem investimento ao país.

Luciano Hang, ao centro, visitou o presidente do Paraguai, Santiago Peña, e avalia abertura de lojas da Havan no país vizinho. (Foto: Reprodução / X / Santiago Peña)

O modelo tributário que resume tudo em três dezes

Empresas brasileiras cruzam a fronteira rumo ao Paraguai, onde o imposto de renda tem teto de 10% e a energia industrial custa cerca de um terço do preço.

A explicação mais direta para essa migração cabe em um apelido. O sistema paraguaio é conhecido como 10-10-10, referência à alíquota máxima de 10% que incide sobre o imposto de renda de pessoa física, sobre o de pessoa jurídica e sobre o imposto de valor agregado.

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A simplicidade do desenho é parte da atração, e não apenas o percentual. Um sistema com poucas alíquotas e regras estáveis reduz o custo de conformidade, que é o dinheiro gasto para calcular, apurar e recolher tributo, além do próprio tributo pago.

Existe uma camada adicional para quem produz. A Lei de Maquila estabelece tributo único de 1% sobre o valor agregado localmente para indústrias voltadas à exportação, acompanhado de incentivos para importar insumos, máquinas e equipamentos usados na produção, além de isenção de imposto de renda sobre dividendos.

A reforma que ampliou o alcance do regime

O governo paraguaio não ficou parado. Em 2025, o programa de maquila passou por reforma que acelerou o processo de adesão, reduziu custos operacionais e ampliou o número de empresas aptas a entrar no modelo, incluindo prestadoras de serviços, que antes ficavam de fora.

Foram acrescentados incentivos específicos para produção e montagem de equipamentos eletrônicos e digitais, segmento em que o país busca atrair operações de maior valor agregado. O prazo inicial dos benefícios ficou em 20 anos, com possibilidade de renovação.

Esse prazo é o ponto que costuma decidir a mudança. Vinte anos de regra definida permite amortizar investimento industrial pesado, algo difícil de planejar em ambiente onde o benefício fiscal pode ser revisto a cada mudança de governo ou de orçamento.

Os números que mostram quem está atravessando a fronteira

imagem explicativa ilustrativa

O tamanho brasileiro dentro desse regime é o dado mais revelador da reportagem. Até 31 de dezembro de 2025, operavam no Paraguai sob a maquila 339 empresas, das quais 231 eram brasileiras, segundo o Ministério de Indústria e Comércio paraguaio.

Isso significa que 68,1% das companhias no regime vêm do Brasil. Não se trata de um programa internacional que atrai empresas de vários países de forma equilibrada, e sim de uma política que capturou predominantemente indústria brasileira.

A lista de setores já instalados cobre têxtil, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, produtos químicos e manufaturas voltadas à exportação. Entre as que avaliam seguir o mesmo caminho estão a Adere, de fitas adesivas, a Proeletronic, de eletrônicos para televisores, conversores e roteadores, e a Bralyx, de máquinas para a indústria alimentícia. Cacau Show, Bauducco e Bom Sabor, além das multinacionais Stepan Química e Ajinomoto, já buscaram informações sobre os benefícios durante evento realizado em São Paulo.

O salário mínimo é maior, mas o custo é menor

Aqui está o dado que mais contraria a intuição. O salário mínimo paraguaio é nominalmente superior ao brasileiro, em 3,044 milhões de guaranis, algo em torno de R$ 2,6 mil, e ainda assim o custo da mão de obra para a empresa sai mais barato.

A diferença está nos encargos. A contribuição patronal ao Instituto de Previdência Social é de 16,5%, contra 20% no Brasil, e não existe recolhimento equivalente a FGTS, PIS/Pasep ou contribuição ao Sistema S. A jornada semanal é de 48 horas, contra 44 no Brasil, e as férias variam conforme o tempo de serviço, sem o adicional de um terço do salário previsto pela legislação brasileira.

O resultado aparece na conta final. Enquanto no Brasil o custo da mão de obra formal pode representar de cerca de 60% a mais de 100% acima do salário, dependendo do setor, no Paraguai esse acréscimo costuma ficar entre 25% e 35%. Paga se mais ao trabalhador e gasta se menos por ele, situação que decorre inteiramente do desenho da legislação de cada país.

A energia industrial que custa menos de um terço

Entre os custos operacionais de qualquer indústria, energia elétrica é um dos mais pesados, e a diferença nesse item é grande. A tarifa industrial paraguaia fica em média em US$ 41 por megawatt hora, contra US$ 113 no Brasil, conforme dados da Rede de Investimento e Exportação, ligada ao Ministério da Indústria e Comércio do país vizinho.

A proporção é de aproximadamente 36%, ou seja, pouco mais de um terço do valor cobrado em território brasileiro. Para setores eletrointensivos, como metalurgia e produção química, essa diferença sozinha pode justificar a mudança de operação.

Vale registrar que o dado tem origem em órgão do governo paraguaio, que é parte interessada em atrair investimento. Isso não invalida o número, mas o leitor deve considerar de onde ele vem, e a reportagem não apresenta comparação equivalente feita por fonte brasileira ou independente.

O que mudou do lado brasileiro

A atração paraguaia é apenas metade da explicação. A outra metade está nas alterações recentes do ambiente tributário no Brasil, apontadas pelo advogado especialista em direito tributário Ivson Coêlho.

Ele cita três fatores que ampliaram a percepção de carga elevada: a reforma tributária, a regulamentação das offshores e o fim de benefícios fiscais relevantes ao longo do último ano. Segundo a avaliação dele, agronegócio e comércio eletrônico sentiram esse impacto de forma mais intensa e lideram o movimento de reestruturação, seja transferindo operações, seja criando holdings no exterior.

A leitura que ele faz do fenômeno é de comportamento previsível. Empresas buscam reduzir custo e ampliar competitividade, e a carga tributária pesa nesse cálculo. Quando os tributos são altos e crescentes enquanto os benefícios diminuem, a procura por alternativas se torna quase inevitável, na avaliação do especialista.

Mercosul e proximidade geográfica no cálculo

Nem toda migração de operação faz sentido logístico, e é aí que o Paraguai leva vantagem sobre destinos mais distantes. Segundo o advogado especialista em direito empresarial Daniel Cabrera, o país passou a ocupar posição estratégica para empresas brasileiras que querem ampliar competitividade sem abrir mão da proximidade geográfica e da integração comercial do Mercosul.

Esses dois elementos resolvem o principal problema de produzir fora. A proximidade mantém curto o trajeto entre fábrica e mercado consumidor brasileiro, e o bloco regional facilita a circulação de mercadorias entre os países membros.

É a combinação que torna o movimento viável. Baixar imposto em país distante não adianta se o frete devorar a economia, e nesse aspecto o vizinho oferece as duas coisas ao mesmo tempo.

A migração de pessoas que acompanha a de empresas

O deslocamento não se restringe a companhias. Nos seis primeiros meses de 2026, o governo paraguaio recebeu 33.243 pedidos de residência de estrangeiros, número recorde para um semestre e 62% superior às 20.567 solicitações registradas no primeiro semestre de 2025.

Do total, 29.765 requerimentos foram concedidos, alta de 81% frente às 16.456 autorizações do mesmo período do ano anterior. O Brasil lidera com folga a origem dos pedidos aprovados, com 22.628 solicitações, o equivalente a 76% do total, seguido pela Argentina, com 2.210.

O volume obrigou a Direção Nacional de Migrações a adotar plano de contingência. O órgão ampliou o horário de funcionamento e passou a trabalhar também em dias não úteis, reforçando as atividades de análise documental, controle migratório e gestão de processos para reduzir prazos de resposta.

O imóvel entra na conta da mudança

Além da questão fiscal, outros fatores aparecem entre os motivos declarados por quem muda de país. A Câmara de Comércio Brasil Paraguai aponta estabilidade macroeconômica, baixa carga tributária, custos operacionais competitivos e a localização no centro da América do Sul como atrativos.

Entre os solicitantes, a entidade registra ainda menções à qualidade de vida, à proximidade cultural entre os dois países e ao crescimento do mercado imobiliário local como determinantes da decisão.

Esse último item tem números próprios. Segundo Ernesto Figueredo, presidente da Raíces Real Estate, uma das maiores incorporadoras imobiliárias paraguaias, brasileiros respondem por 50% das vendas da companhia e por 60% dos pedidos de residência para investidores no país. Metade da carteira de uma grande incorporadora local vem de um único país estrangeiro.

Uma fronteira que ficou mais movimentada nos dois sentidos

O quadro que se desenha combina três movimentos simultâneos: indústria transferindo produção, varejo estudando entrada e pessoas físicas pedindo residência em volume recorde. Os três respondem a incentivos parecidos, ainda que por motivos distintos.

O que a reportagem não traz é a contabilidade do outro lado. Não há informação sobre quantos empregos deixaram de ser criados no Brasil por conta dessas transferências, sobre o volume de investimento que migrou nem sobre eventual resposta do governo brasileiro ao movimento.

Também fica em aberto a sustentabilidade do modelo paraguaio. Um país que concentra 68% das empresas de seu principal regime industrial em uma única nacionalidade fica exposto a mudanças na política econômica do vizinho, e essa dependência não é discutida no material.

E você, acha que empresa que muda de país por causa de imposto está fugindo da responsabilidade ou apenas fazendo conta? O problema está na carga tributária brasileira ou na facilidade que o Paraguai oferece? Conta nos comentários se você consideraria trabalhar ou investir do outro lado da fronteira.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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