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Casal da Gâmbia se conheceu por aplicativo, celebrou casamento por videochamada, teve apenas um encontro presencial e mantém a vida em comum com salário enviado de uma fábrica na Alemanha, enquanto remessas equivalem a 22% da economia do país

Casal da Gâmbia se conheceu por aplicativo, celebrou casamento por videochamada, teve apenas um encontro presencial e mantém a vida em comum com salário enviado de uma fábrica na Alemanha, enquanto remessas equivalem a 22% da economia do país

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Casal da Gâmbia se conheceu por aplicativo, celebrou casamento por videochamada, teve apenas um encontro presencial e mantém a vida em comum com salário enviado de uma fábrica na Alemanha, enquanto remessas equivalem a 22% da economia do país

Escrito por Flavia Marinho

Publicado em 21/08/2026 às 04:57

Atualizado em 21/08/2026 às 04:58

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Binta Bah e Suleyman Bah vivem um casamento à distância entre a Gâmbia e a Alemanha

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Binta Bah e Suleyman Bah vivem um casamento à distância entre a Gâmbia e a Alemanha, mantido por videochamadas e remessas mensais, num país em que o dinheiro enviado por migrantes equivalia a 22% do PIB em 2024.

Binta Bah e Suleyman Bah transformaram o celular em local de encontro, cerimônia e convivência. Eles se conheceram em um aplicativo, passaram horas conversando todos os dias e celebraram um casamento por videochamada. Até setembro de 2024, tinham se encontrado pessoalmente somente uma vez.

A informação foi publicada em 27 de setembro de 2024 pela AP News, agência de notícias responsável pela apuração original deste caso. Suleyman trabalhava em uma fábrica na Alemanha e enviava dinheiro todos os meses para Binta, então com 24 anos, que vivia com a sogra em Kwinella, na Gâmbia.

A história do casal mostra uma realidade que vai muito além do casamento remoto. As remessas enviadas por quem trabalha no exterior sustentam necessidades familiares e, na atualização mais recente do indicador, representaram 22% do Produto Interno Bruto da Gâmbia em 2024.

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Um casamento através da tela

O primeiro contato ocorreu por um aplicativo de relacionamento. A conversa avançou rapidamente e os dois começaram a passar horas por dia ao celular, mesmo separados por milhares de quilômetros entre a África e a Europa.

O casamento também aconteceu pela tela. A cerimônia por videochamada permitiu que Binta e Suleyman formalizassem a união sem estarem no mesmo lugar, uma solução marcada pela distância imposta pelo trabalho dele na Alemanha.

Um casamento através da tela (Imagem: AP News/ Annika Hammerschlag)

Suleyman voltou à Gâmbia para uma visita meses depois do casamento. Foi nessa ocasião que os dois tiveram o único encontro presencial registrado até a publicação da história. Binta resumiu a separação: “É difícil ficar longe, mas é bom quando a outra pessoa cuida de você”.

O salário que cruza continentes

O emprego de Suleyman em uma fábrica alemã mantém o fluxo de dinheiro que liga o casal. Todos os meses, parte do salário atravessa continentes e chega à casa onde Binta vive com a sogra, no povoado de Kwinella.

O dinheiro cobre necessidades da esposa quando elas aparecem. Binta contou que, quando precisa de alguma coisa, inclusive atendimento médico, Suleyman envia o valor imediatamente. A quantia mensal, o nome da fábrica, a função dele e a cidade alemã não foram divulgados.

Outra família de Kwinella ajuda a medir o efeito dessas transferências. O marido de Musukebbe Manjang, que vive na Itália, enviava cerca de 14 mil dalasis, equivalentes a US$ 200 por mês, para pagar escola, comida e roupas dos filhos. O exemplo não corresponde ao valor recebido por Binta, mas revela como salários europeus entram diretamente no orçamento doméstico gambiano.

Por que tantos gambianos buscam a Europa

A Gâmbia é o menor país da parte continental da África e fica quase inteiramente cercada pelo Senegal. No retrato publicado em 2024, 75% da população vivia na pobreza, havia pouca atividade industrial e o custo de vida tinha subido desde a pandemia.

O país também tem uma população muito jovem. Quase 60% dos gambianos tinham menos de 25 anos, e quase metade desse grupo estava sem emprego. A falta de trabalho ajuda a explicar por que a Europa aparece como uma saída, mesmo quando a viagem envolve riscos extremos.

Em 2023, mais de 8 mil gambianos chegaram à Europa. O movimento era ainda maior quando toda a população emigrante entrava na conta: quase 10% dos 2,7 milhões de habitantes já tinham deixado o país, principalmente homens jovens vindos de áreas rurais.

A chamada rota de retorno coloca vidas em risco

A AP News, agência de notícias responsável pela cobertura internacional deste caso, mostrou o perigo da rota de retorno, conhecida localmente como backway. Migrantes seguem em barcos sem segurança pelo Oceano Atlântico ou percorrem centenas de quilômetros pelo Deserto do Saara antes de tentar cruzar o Mar Mediterrâneo.

Em 2024, uma embarcação com 300 migrantes, a maioria da Gâmbia e do Senegal, virou perto da Mauritânia. Mais de uma dúzia de pessoas morreu e pelo menos 150 desapareceram. Um jovem de Kwinella também morreu afogado durante uma tentativa de chegar à Europa em 2023.

O percurso exato usado por Suleyman não foi detalhado. Por isso, não é possível afirmar que ele tenha passado por cada uma dessas etapas. O caso dele integra um movimento migratório maior, no qual muitos homens deixam a comunidade sem avisar a família por medo de serem impedidos de partir.

Quando a remessa sustenta um país

Remessa é o nome dado ao dinheiro que uma pessoa envia do país onde trabalha para familiares que ficaram em sua terra de origem. Na Gâmbia, essas transferências corresponderam a 22% do Produto Interno Bruto em 2024, o indicador mais recente disponível para essa comparação.

O Produto Interno Bruto representa tudo o que o país produz em bens e serviços. Portanto, quando as remessas alcançam uma parcela tão grande desse total, elas deixam de ser apenas uma ajuda entre parentes e passam a ter peso direto na economia nacional.

Na vida cotidiana, o dinheiro paga despesas básicas, consultas médicas, alimentação, roupas e educação. Ao mesmo tempo, a dependência cresce porque parte da mão de obra jovem sai do país, reduzindo o número de pessoas disponíveis para trabalhar nas comunidades rurais.

A migração masculina muda comunidades inteiras

Na província de Kiang Central, que inclui Kwinella, a estimativa local indicava que cerca de 70% dos homens jovens tinham partido para a capital Banjul ou para a Europa. A agricultura, ainda realizada em grande parte com trabalho manual e sem tratores, ficou concentrada nas mãos de mulheres e pessoas mais velhas.

Imagem: AP News/ Annika Hammerschlag

As chuvas imprevisíveis e as dificuldades da produção rural aumentaram a pressão. As remessas ajudam quem permanece, mas a ausência dos homens transfere tarefas pesadas para outros moradores e deixa famílias separadas por anos.

Binta e Suleyman representam as duas faces dessa realidade. O salário recebido na Alemanha oferece apoio financeiro imediato, enquanto a distância limita o casamento a chamadas pelo celular e a raros momentos presenciais.

Você conseguiria manter um casamento com apenas um encontro presencial? Comente e compartilhe esta história.

Fonte

AP News


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

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